‘Analfatóteles’

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Tom Zé sabe tirar um ótimo partido dos efeitos mirabolantes e amalucados da sua argumentação cancional

A Fonte da Nação, em Irará, devia ter convênio com a fonte da eterna juventude, a julgar pelo novo disco que Tom Zé está lançando, “Tropicália lixo lógico”. É um CD de tese. Depois de já ter mostrado como a bossa nova nos lançou definitivamente na modernidade, ao reverter a nossa monocultura agroexportadora em arte de exportação (“Vaia de bêbado não vale”), agora canções frescas e deliciosas como “Capitais e tais”, “Amarração do amor” e “De-de-dei xá-xá-xá” vêm entremeadas de canções conceituais como “Apocalipsom A”, “Tropicalea jacta est”, “Marcha-enredo da creche tropical”, “Tropicália lixo lógico” e “Apocalipsom B”. Nelas, é a Tropicália que aparece como a “moleca esperta” que nos fez saltar da Idade Média diretamente para a Segunda Revolução Industrial, ao fundir a cultura oral do Recôncavo e do sertão baiano, cunhada numa ancestral lógica não ocidental, com uma versão alterada da lógica aristotélica, disparada pelos estímulos do mundo eletrônico, da física quântica, da semiótica, do rock e da antropofagia oswaldiana nos anos de 1960.

Segundo Tom Zé, a “placa virgem e faminta” do cérebro infantil guarda poderosamente, especialmente nos primeiros anos, informações do mundo circundante e, no caso dos baianos, da cultura árabe nordestinizada, de cheganças, desafios e repentes, da poética provençal traduzida em cancioneiro popular, tudo vertido em pensamento e sensibilidade de tipo oral, com seu correspondente substrato não verbal. Quando as crianças chegam à escola, expostas e submetidas ao letramento e à lógica aristotélica, essa outra lógica da oralidade é supostamente neutralizada, embora guardada em regime recessivo no hipotálamo.

A teoria do “lixo lógico” é que as informações contemporâneas de então, da poesia concreta, do teatro de Zé Celso, do cinema de Glauber (ele mesmo um “analfatóteles” como Caetano, Gil , Torquato , Capinam e o próprio Tom Zé) excitaram o padrão lógico latente no hipotálamo, fazendo-o vazar para o córtex cerebral e disparando a verdadeira pororoca mental (para usar uma imagem amazônica) que produziu o movimento da Tropicália. É esse mito que as canções contam, com uma trama sonora cortante, excitante, inteligente, e com as participações de Emicida, Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante e Pélico (para confirmar que a fonte da juventude continua a jorrar).

Tom Zé sabe tirar um ótimo partido dos efeitos mirabolantes e amalucados da sua argumentação cancional, pontilhada de frases latinas, citações eruditas, exemplos científicos e referências literárias. Se não soa racionalmente comportada, é claro, é porque confirma, então, o caráter não estritamente aristotélico e múltiplo do “lixo lógico” que é o seu alimento criativo (“quod erat demonstrandum”). Os estranhamentos produzidos estão sob afiado controle, e são do mesmo tipo daqueles que se expandem nos seus shows e na genial entrevista da “Bravo!”, que converte o gênero jornalístico em sensacional teatralização das próprias agudezas, fraquezas expostas e pulos do gato (que a revista soube muito bem incorporar à edição). Tom Zé toma pra si o poder de dizer e acontecer, e faz no final uma hilariante paródia exemplar do desejo que certa imprensa tem de extrair dele desabafos críticos contra parceiros: “Ô, Neusa, o moço resolveu me atiçar. Quer que eu desça a lenha em Deus e todo mundo. Não tem problema. Bote o gravador mais perto de mim. Lá vai: tropicalismo, tu é feio! Tu é sem vergonha! Tu é descarado!”

A propósito, transcrita toda na primeira pessoa, omitindo as perguntas que lhe são dirigidas, que deduzimos da sua própria fala, a entrevista desperta como esquema discursivo um longíquo e engraçado “efeito Riobaldo”, vindo desse sertanejo baiano que expõe, de certa forma, a nós as ruminações sobre a história que viveu. Essa associação livre me leva a dizer algo que sempre me despertou a atenção: tanto Tom Zé quanto Guimarães Rosa são filhos de comerciantes que passaram a infância ouvindo, na loja do vilarejo, que se confundia com suas casas, as falas narrativas e poéticas da linguagem oral do sertão que acorria, de todas as partes, para a venda local. Não estou preocupado aqui com as diferenças evidentes entre eles. Mas em dizer que m Guimarães Rosa também pode ser incluído na categoria dos “analfatóteles”, sertanejos remixados na urbe, supraletrados que deslocam a lógica aristotélica ao submetê-la, com todas as consequências disso, aos jogos e paradoxos de sons e sentidos, às outras dimensões do mundo não letrado, ao qual Tom Zé permaneceu sempre fiel, como marca renitente e escolhida da sua diferença e da sua integridade.

Aliás, para quem conta, como ele, ter presenciado o espanto da chegada a Irará da água encanada, da lâmpada elétrica e do advento quase miraculoso da latrina de porcelana inglesa, o salto da Idade Média à Segunda Revolução Industrial descreve, antes de mais nada, e mais do que a ninguém, a sua própria trajetória singular, sem deixar de ser um achado sobre a multiplicidade de tempos e de lógicas que se combinam na trama cultural brasileira, e que têm no movimento tropicalista um momento de excepcional eclosão.

Tom Zé quintessenciou o poder da interação pelo jogo, a alegria e a provocação contidas na nossa vontade de brincar, que ele desperta e desafia com seus riffs polifônicos, com suas inesgotáveis invenções sonoras, estribilhos e bordões (“onde botam ovos as canções”).

Comentários

Há 12 comentários para esta postagem
  1. Viviane 15 de outubro de 2012 17:20

    Ando pesquisando muitos textos, vídeos e documentários sobre o Tom Zé… O Tropicália Lixo Lógico me instigou muito, por apresentar uma visão muito nova e original sobre a Tropicália. Relacionei a tese do disco, principalmente, com os relatos e análises do Caetano na Verdade Tropical. Também vi o documentário Tropicália… E já estava dando um nó na minha cabeça! Mas essa resenha do Wisnik me ajudou muito a reorientar meu pensamento. Agora consigo compreender muito melhor o disco do Tom Zé e acho até que peguei a chave pra entender essa tal Tropicália.

  2. Marcos Silva 30 de julho de 2012 22:01

    François, vc contribuiu de maneira muito interessante para esta conversa. Vale acrescentar que nem toda música é canção. E que Tom Zé até compôs umas canções bonitinhas – Jimmy renda-se, Curso intensivo de boas maneiras, 2001… Chico Buarque, que compôs outras canções até bonitonas, andou falando que a canção está acabando, Carlos Lyra respondeu que isso só aconteceria, no Brasil, depois que Chico, Caetano e Ivan Lins morressem. Chico não falou que a música está acabando.

  3. Marcos Silva 30 de julho de 2012 21:35

    Recomendo mantermos o nível do blog.

  4. Fernando Monteiro 30 de julho de 2012 18:32

    François!,

    como é bom ver alguém — com finíssima ironia — por os pontos nos “ii” numa coisa (em qualquer coisa, quero dizer). NESTA daqui, então, com sutileza silvestre da melhor (meu abraço e meus parabéns), você, para mim, encerrou o assunto…
    Brilhantemente, como sempre.

  5. Fernando Monteiro 30 de julho de 2012 16:53

    Não sei falar com tatibitates uspianos, quando aparece um “scholar” dizendo que eu “insultei” alguém, Tácito.
    “Não insultei ninguém”… – REPITO a frase inicial do comentário-resposta omitido (OK, respeitando o seu indiscutível direito de Editor), mas é que eu estou cansado dos “politicamente corretos” daqui, dacolá, de alhures e bagulhes, com parangolés no meio para [tentar] fazer admirarmos até Tom Zé fazendo cocô.
    Espero que ao menos ESTE você publique, caro e querido amigo…

  6. françois silvestre 30 de julho de 2012 15:29

    Tom Zé disse certa vez que fazia esse chafurdo cultural porque não sabia compor belas canções. Fico com a sua opinião.

  7. horácio oliveira 30 de julho de 2012 13:13

    Mago Tom Zé, ainda. Genial.

  8. Gustavo de Castro 30 de julho de 2012 11:35

    Tom Zé, poeta-filósofo. Em show recente aqui em Brasília, no Conic, perguntou como era possível sentir tesão morando em Brasília. Quis ouvir da platéia. Como gozar no clima seco e burocrático desta ilha da fantasia?

  9. Marcos Silva 30 de julho de 2012 0:02

    Tom Zé continua sendo porque atua no universo da canção popular de forma problematizadora. Ao invés de apenas se filiar a um ou outro gênero, o compositor reflete sobre topoi sonoros que cada um trabalha e vai além disso. Ele já procedeu assim em relação a samba, bossa nova, rock, agora o faz com o Tropicalismo.
    Seria muito fácil para Tom Zé repetir estilemas tropicalistas (particularmente, a paródia trágica), que foram banalizados ao longo de quatro décadas e meia pelo rock nacional e também por outros gêneros de canção. Embora ele compareça no disco “Tropicália ou Panis et circensis” com apenas uma canção (Parque industrial), o trabalho de paródia e ressignificação ali realizado (citação de frase do Hino Nacional, repetição do refrão “Vamos voltar à pilantragem” num contexto completamente desfigurado) já o transformariam num modelo de si mesmo. Ao invés disso, Tom Zé partiu, desde fins dos anos 60, para um trabalho cuidadoso com harmonias instáveis, que sua formação musical permite.
    Ele não é o único, Paulinho da Viola e Egberto Gismonti (dentre outros) também continuam sendo. Criticá-los não se confunde com a facilidade de insultos. É preciso saber ouvi-los para ir além.

  10. Fernando Monteiro 29 de julho de 2012 20:55

    Tem gente que gosta de se enganar.
    Deve ser deixada em paz, evidentemente, com as suas admirações exageradas, superdimensionadas, equivocadas etc. O que importa, afinal?
    Os canis[et-circensis] passam, e é a caravana que ladra…

  11. Jarbas Martins 29 de julho de 2012 8:33

    A poesia está aqui: em carne, osso e divindade !

  12. Marcos Silva 29 de julho de 2012 7:43

    Tom Zé continua sendo.

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