‘O fim do livro’ já cansou. Que tal ‘o fim do escritor’?

Por Sérgio Rodrigues
NA VEJA

O escritor escocês Ewan Morrison provocou um barulho considerável no Festival de Livros de Edimburgo, há poucos dias, com uma palestra (transcrição resumida do “Guardian”, em inglês) tão fundamentada quanto apocalíptica em que, além de dar razão a quem prevê para o futuro próximo o fim do livro de papel (para o qual estima uma sobrevida de apenas uma geração), pinta um cenário em que o próprio ofício de escritor como o conhecemos deixará de existir:

Os e-books, no futuro, serão escritos por principiantes, por equipes, por entusiastas de suas respectivas especialidades e por autores já estabelecidos na era do livro de papel. A revolução digital não emancipará os escritoires nem abrirá uma nova era de criatividade: vai levá-los a ofertar seu trabalho em troca de muito pouco ou de nada. A literatura, como profissão, terá deixado de existir.

A futurologia é uma disciplina traiçoeira, mas Morrison não é propriamente um maluco que sobe no caixote para pregar o fim do mundo. Apresenta-se munido de todas aquelas tendências estatísticas já bastante conhecidas que apontam para a progressiva perda de valor do conteúdo na era digital (rumo à gratuidade absoluta?) e para o crescimento aparentemente irresistível da pirataria. Registra a decadência acelerada do sistema de adiantamentos com o qual a indústria editorial nutriu talentos autorais por décadas. Recorre também a teorias como a da “cauda longa”, lançada por Chris Anderson, editor da revista “Wired”. E por fim, de forma um tanto surpreendente, aponta o próprio sonho de independência que a revolução digital provoca no escritor, ao lhe dar a impressão de que pode prescindir do editor “atravessador”, como aquilo que vai acelerar a morte de ambos.

Cenários extremos como o de Morrison podem ser instigantes. Se não soa muito plausível sua previsão do trabalho de criação literária como uma fábrica chinesa ou coreana, superlotada de operários que se matam em troca de cama e comida, os dados que mobiliza certamente apontam para transformações dramáticas no modo de produção e veiculação da escrita. Transformações para as quais, paradoxalmente, um país como o Brasil, em que a profissionalização do escritor ainda não chegou a amadurecer, pode estar mais preparado do que muitos. “Ofertar seu trabalho por muito pouco ou nada” não é uma ideia que a maioria dos escribas canarinhos já tenha tido o privilégio de descartar como aviltante.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 26 de agosto de 2011 20:52

    Interessante!

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