‘Rimbaud abriu as portas do futuro’

ENTREVISTA – Ivo Barroso, poeta e tradutor

Pergunta: Todos consideram um dos maiores mistérios da literatura o fato de Rimbaud ter abandonado a escrita. Isso não seria apenas coerente com a personalidade dele?

Barroso: Ele foi o maior poeta. Tinha noção, certeza, consciência de que tinha atingido o máximo. Tanto assim que, ao estudar a poesia dele, percebe-se que ele vai evoluindo de poema para poema, até chegar nas Iluminações. E mesmo nas Iluminações, em patamar altíssimo, tem umas que são ainda mais altas do que as outras.

Pergunta: Então você acha que o abandono foi muito mais pela consciência de já ter dado o máximo?

Barroso: O abandono da poesia dele foi consciente. Ele tinha certeza de que não podia ir além. Tinha chegado ao topo. O resto, se ele continuasse, iria se repetir e não iria abrir mais nenhuma porta. Ele abriu a porta da poesia moderna: nas Iluminações há os primeiros poemas em versos livres. Então, ele já abriu as portas do futuro.

Pergunta: Falando em verso livre, na Carta do Vidente Rimbaud diz que Baudelaire é “um verdadeiro deus”. Podemos dizer que os pequenos poemas em prosa de Baudelaire pariram Uma Temporada no Inferno?

Barroso: Rimbaud foi muito mais além. Ele achava o Baudelaire um verdadeiro deus dentro da literatura francesa, só que ele usava uma linguagem que não era uma linguagem moderna. Rimbaud achava que a ideia do Baudelaire era extraordinária, mas estava sendo expressa por uma língua que ainda não era a língua poética que Rimbaud sonhava. Então ele deu o grande salto. E fez coisas absolutamente modernas e altamente poéticas com as Iluminações. Ali, para mim, é o máximo dos máximos.

Pergunta: E quanto ao encontro entre Rimbaud e Verlaine, como foi a influência poética?

Barroso: Rimbaud tentou iluminar Verlaine no sentido de que ele seria capaz de fazer uma poesia tão de vanguarda e tão avançada quanto à dele. Não conseguiu, de jeito nenhum. O encontro foi um acidente desagradável na vida dos dois. Porque Verlaine poderia ter tido uma carreira muito mais realizada do ponto de vista da poética e Rimbaud poderia hoje ser muito mais lido na sua obra do que essa coisa boba das novas gerações de ficarem preocupadas com a biografia dele.

Fonte: jornal Pioneiro (RS).

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