“A ninfa inconstante”, de Guillermo Cabrera Infante

Por Vinicius Jatobá
NA BRAVO

Desde a publicação do brilhante romance A Havana para um infante defunto, em 1979, o cubano Guillermo Cabrera Infante anunciava trabalhar em uma nova narrativa longa cujo término nem sequer seus melhores amigos pareciam mais acreditar.

A ironia do recente falecimento de Cabrera, em 2005, é cruel: sua vida póstuma, até o momento, é mais intensa em novidades literárias que seus últimas décadas de vida, dominadas por antologias de artigos e crônicas publiadas em revistas e jornais. O leitor é um animal egoísta: quer novos livros dos autores que admira. É por isso que a tristeza do falecimento de Cabrera foi logo expurgado pela festa da literatura: dois romances – A ninfa inconstante, editado agora no Brasil pela Cia das Letras, e Cuepos Divinos – já foram publicados, e mais outros dois romances estão no prelo. Há uma nova coletânea de críticas de cinema; outra de aforismos e de jogos de linguagem, na mesma linha do inventivo O; e uma promessa de reunir todos os roteiros de cinema que escreveu.

Na época de seu falecimento, o comentário mais espúrio foi de Mario Vargas Llosa que colocou de lado toda narrativa de Cabrera Infante para sobressaltar como relevante apenas sua crítica de cinema. Esse comentário de Llosa abriga dois gumes. De um lado, apenas reforça a dificuldade de se digerir a narrativa de Cabrera: em um continente cuja literatura carece de humor, que apenas consegue trazer a piada para o corpo narrativo em forma paródica por considerá-la menor, o investimento de Cabrera no histriônico é, no mínimo, peculiar. Como Cabrera afirmou numa entrevista, os autores latino-americanos “usam uma máscara comum de seriedade”, e Cabrera, apesar de seu exílio, era um notório farsante – do tipo que perdia o amigo mas nunca a piada. Por outro lado, ao colocar de lado os romances de Cabrera, Llosa apenas retoma o resíduo da impressão original: a dificuldade de lidar com a própria figura do autor no momento em que surgiu no mapa com Três tristes tigres, em 1967. Em um ambiente intelectual envenenado de política e dominado e limentado pela efusão pós-revolução castrista, em que o escritor era conjurado ao espaço público para ocupá-lo de forma ativa, a figura de um exilado cubano era difícil de digerir pela esquerda européia. A total inabilidade de Cabrera em defender sua posição, somado ao desejo do ambiente de sublimar sua existência, ganhou força quando seu romance ganhou mais público na década de 1970: a política é algo sério, e o humorismo da prosa de Cabrera era algo menor a ser colocado de lado.

Guillermo Cabrera Infante, que ao lado de García Márquez e do próprio Vargas Llosa, é um dos pilares do romance contemporâneo latino-americano, ainda precisa ser encarado como tal. É possível que a a publicação desses romances póstumos, todos escritos de forma esporádica entre 1975-2005, confirme essa posição. Cabrera faz parte de uma espécie muito interessante de escritor: aquele que revisa enquanto escreve. Isso faz com que cada pequeno tramo de sua prosa tenha textura e acabamento – muito próximo do que seria em definitivo –, o que explica a qualidade dos dois livros póstumos publicados até o momento. Como escrevia fora de ordem, saltando do final para o meio, e depois para o início, seguindo a inspiração, há trechos acabados de todo o arco da trama. Os organizadores de seu espólio apenas precisam montar o quebra-cabeça e colocá-los em ordem, cogetando versões e cortando as redundâncias.

A ninfa inconstante é um um belo romance. Ele se inscreve na tradição de narrativas em que um homem maduro se instiga diante da beleza do corpo e mente jovem. Curiosamente, como em todas essas narrativas – seja Memórias de minhas putas tristes, de Márquez, A casa das belas adormecidas, de Kawabata, e até Morte em Veneza, de Mann –, o ato sexual é secundário. O foco permanece sempre nesse transe que ocorre quando o desejo atemporal reconhece o corpo envelhecido: a anarquia do desejo, e a consciência do corpo. A diferença é que Infante (como Nabokov, em Lolita), age sobre esse transe com humor: o narrador desse livro relembra, após quarenta anos, uma eventura singular: quando acabou seu casamento sem sal para viver com Estelita, uma menina-mulher de quase 16 anos, que logo engana com seus modos: nem inocente como o fetiche de almanaque que o narrador possuí, nem tão madura quanto ela mesma acredita ser, o narrador coloca Estela no proscênio: observa e admira a lépida criatura, conta-lhe em seus inúmeros encontros piadas que ela não compreende, exercita sua sedução e se sente vivo e feliz. Os ingredientes estão todos aí: o ciúme, o esvaziamento da emoção inicial, o inevitável pressentimento de tragédia. Separados pela vida e pela trama do destino, no entanto, como o narrador afirma, “estamos unidos nesse livro, nesta página, nestas palavras que se sucedem”. A ninfa inconstante é essa dupla tentativa: uma luta pela reconquista do Eros e da mulher perdida, e uma luta de um exilado em resgatar os sons, gostos e enlevos de sua cidade natal amada e tão distante quanto esse amor singular.

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