“A vantagem acadêmica de Cuba”

Por Luiz Penha

Recentemente li o livro “A vantagem acadêmica de Cuba – Por que seus alunos vão melhor na escola”, de Martin Carnoy, professor de Educação e Economia da Universidade Stanford, além de consultor em políticas públicas de recursos humanos para o Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco de Desenvolvimento Asiático, Unesco, Unicef e OCDE.

O livro é fruto de uma pesquisa comparativa que envolveu o Brasil, o Chile e Cuba e faz o seguinte questionamento: O que será que acontece nas escolas cubanas e que não acontece nas escolas chilenas e brasileiras?

A obra não é autoria do governo cubano. Neste sentido preza pela sua isenção, e constata o trabalho sério e comprometido que é feito na área da educação em Cuba, em comparação com outras realidades como a do Brasil e do Chile.

Seguem abaixo algumas constatações e evidências expressas no livro, em função da pesquisa realizada pelo professor Martin Carnoy nos três países:

– Uma das chaves para o sucesso cubano em educação é o recrutamento, para o magistério, dos melhores alunos do ensino médio e a excelente formação que lhes é dada ao redor de um sólido currículo. Outra é a garantia de que os alunos são saudáveis e estão bem alimentados. E a terceira é o sistema de tutoria e supervisão dos professores, focada na melhoria da instrução.

– O elemento crucial é o compromisso total com a melhoria dos padrões de ensino e fazer o que for necessário para que este padrão chegue até as salas de aula do menor vilarejo das regiões mais pobres.

– O Estado cubano impõe rigidamente a implementação do currículo e os métodos de ensino por meio de uma cadeia de comando, que começa com o ministro da Educação, passa por diretores e diretores assistentes, que supervisionam os professores em sala de aula, e termina com os professores sentindo-se competentes e responsáveis pela transmissão de um currículo bem definido.

– Como a educação cubana é tão centrada na criança, os professores do primeiro ciclo do ensino fundamental, em geral, ficam com seus alunos durante os quatro primeiros anos da escola, desenvolvendo uma relação de longo prazo.

– O magistério é considerado uma profissão de relativo prestígio e o salário é somente um pouco mais baixo que o dos médicos e quase o mesmo do das outras profissões (cerca de 300 a 450 pesos por mês, ou de US$13 a US$18).

– A sociedade cubana é rigidamente controlada. As opções individuais existem, mas são mais limitadas que no Chile ou no Brasil. A questão de opção é complexa, já que as crianças de famílias pobres no Brasil e no Chile podem ter mais “opções” que as crianças cubanas da zona rural ou de baixa renda da zona urbana, mas muitas dessas opções não são positivas, como trabalhar em biscates, vagabundear em vez de freqüentar a escola, envolver-se em atividades ilícitas ou se unir a uma gangue. As crianças pobres brasileiras e chilenas podem ter mais opções, mas também é muito mais provável que passem fome, sejam moradoras de rua e tenham uma saúde frágil.

– No Brasil e no Chile, as famílias dispõem de opções educacionais consideráveis, como a permissão ou não para os filhos se ausentarem ou a escolha da escola a ser freqüentada, se existir mais de uma na vizinhança. O ensino é obrigatório, mas a presença obrigatória é imposta em geral pelas iniciativas de diálogo da escola com os pais e pelo esforço do Estado em ajudar os estudantes das famílias de baixa renda com incentivos financeiros. Nas áreas rurais e urbanas marginalizadas, as ausências são comuns, tanto entre alunos como entre professores. O Chile subvenciona totalmente as escolas particulares; assim os pais podem escolher entre muitas escolas, além do sistema público de educação.

– Se uma criança não estiver se saindo bem na escola no Brasil ou no Chile, isso é tratado, na prática, como um problema no qual a família tem a maior responsabilidade.

– Em Cuba, a escola formalmente compartilha a responsabilidade pelo desempenho social e acadêmico da criança, e se a escola não for capaz de solucionar o problema, o pessoal da prefeitura entra na discussão. As dificuldades familiares são acompanhadas pelos professores e pelos gestores escolares.

– O fato de a criança ter um único professor da primeira a quarta séries (o que agora será estendido até a sexta série e estar na escola das oito da manhã até às quatro da tarde com o professor cria uma relação quase parental entre professor e aluno.

– A intervenção dos Estados brasileiro e chileno na vida das crianças é muito menor do que em Cuba. Todas as mulheres cubanas que trabalham, por exemplo, têm acesso a creches e programas de pré-escola para crianças muito pequenas (maternal).

– A educação chilena é profundamente influenciada por uma ideologia que deposita fé indevida nas forças de mercado para a melhoria do ensino aprendizagem. Cerca de 38% dos estudantes dos ensinos fundamental e médio agora freqüentam escolas privadas associadas ao sistema de vale educação (voucher, implantado pelo regime militar no início dos anos 80; 9% vão a escolas privadas independentes (não associadas ao sistema de vale-educação) e53% estão nas escolas públicas.

– O currículo cubano não aborda tanto conteúdo quanto alguns livros didáticos (no Brasil), mas, basicamente, todos os estudantes cubanos estudam todo o conteúdo do currículo cubano especificado.

– Os professores da escola primária cubana têm um nível mais alto de conhecimento de conteúdo, especialmente em matemática, graças principalmente aos maiores níveis de matemática que aprendem no ensino médio.

– A formação do professor cubano é organizada rigidamente em torno do ensino do currículo nacional obrigatório.

– Os professores são supervisionados de perto em seu trabalho em sala de aula pelos diretores e vice-diretores. Toda escola cubana está focada no ensino e a responsabilidade principal dos gestores escolares é assegurar que os alunos estão alcançando os objetivos acadêmicos claramente especificados.

– Em Cuba, o absenteísmo parece muito baixo, em parte porque, se a criança ficar doente por mais de um ou dois dias, um professor geralmente irá até a casa dela, para se certificar deque tudo está bem.

– Pode-se afirmar que, em Cuba, os professores evitam as ausências por medo.Pode até ser, mas também é provável que os professores, tanto em Cuba como no Chile e em muitas escolas brasileiras, compareçam com regularidade porque foram ensinados a trabalhar diariamente e a não faltar. Ficamos com a impressão, principalmente em Cuba, de que os professores são ensinados a se sentir responsáveis pelos seus alunos e pela sua aprendizagem.

– É importante mencionar outra diferença entre as escolas cubanas e as escolas chilenas e brasileiras. Há muito tempo Cuba possui escola de tempo integral das 8h15 às 16h20, com um intervalo de uma hora e meia para o almoço.

– Em Cuba, o método de ensino pode ser melhor descrito como participativo, mas é muito diretivo. Como na França e em muitos outros países europeus, os estudantes cubanos gastam a maior parte do seu tempo trabalhando individualmente em atividades de matemática, distribuídas pelo professor em folhas de papel. Depois da conclusão do trabalho, o professor revisa os problemas com os alunos, perguntando aos que não chegaram às respostas certas como eles abordaram os problemas e, em seguida, discutindo com o restante da classe e com cada estudante as origens dos erros.

– Tanto em Cuba como no Chile, os estudantes de todas as escolas que visitamos tinham acesso a computadores e programas de computador; em Cuba, cada escola tinha até mesmo um especialista em informática.

– Muito poucas escolas brasileiras utilizam atividades preparadas, algo que era razoavelmente comum no Chile e em Cuba. O fato de ter de copiar problemas de matemática da lousa antes de começar a solucioná-las afeta, sem dúvida, o uso do tempo da aula.

– O alto desempenho dos estudantes cubanos não é um acaso feliz. De fato é, em parte, resultado da instrução média mais alta dos pais e da maior quantidade de livros nas casas das famílias cubanas, principalmente em comparação com as famílias brasileiras.

– Os cubanos consomem mais saúde pública e educação pública do que os grupos de renda mais alta do Brasil e do Chile. A pobreza existe em Cuba, mas mesmo os muito pobre têm acesso a comida, moradia, saúde pública e educação. A conseqüência é que quase nenhum estudante da terceira ou quarta séries trabalha fora de casa em Cuba, mas, no Brasil os números revelam que isso acontece.

– Na essência, a educação cubana oferece à maioria dos alunos uma educação básica que somente crianças da classe média alta recebem em outros países da América Latina.

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