“Belle Époque” em Natal

“Que inveja que tenho ao cronista que houver de saudar (…) o sol do século XX. Que belas cousas que há de dizer, erguendo-se na pontados pés para crescer com o assunto, todo auroras e folhas verdes! (…) um século que se respeitará, que amará os homens, dando-lhes paz, antes de tudo. E a ciência, que é ofício dos pacíficos”. Machado de Assis, 1895.

Li com grande entusiasmo ao livro Belle Époque na Esquina do escritor Tarcísio Gurgel lançado recentemente. Livro bem editado e com belas fotos como se espera de uma bela época. Prefácio de Sanderson Negreiros, pósfácio do pesquisador Vicente Serejo e orelha de Woden Madruga. Bibliografia, Índice Onomástico e Cronologia de 1889 a 1930, onde o autor limita a Belle Époque Potiguar.

Em 1930 foi editado o romance Gizinha do Polycarpo Feitosa, um dos nossos principais romancistas. Um belo livro que fala de modas e dos costumes em mutação na famosa década de 20 do século passado.

Na alvorada do século XX “A Europa se curva ante o Brasil”, Santos Dumont é o pai da aviação. Augusto morre em Paris pilotando o Pax em 1902. As cidades brasileiras se modernizam. Demolir para embelezar é o lema. A Avenida Central (hoje Rio Branco) é o boulevard mais chic do Rio de Janeiro em 1906. Em Natal, grande agitação cultural no “Principado do Tirol” com a outorga de títulos de nobreza para os iniciantes a Cortesão.

Natal no início do século XX se aformoseava com os palacetes arquitetados por Herculano Ramos e o plano do arquiteto Grego / Italiano Palumbo alinhava, ampliava e arborizavam as ruas do centro da cidade no chamado “Máster Plan”. Natal recebia seus primeiros automóveis. Do poeta modernista Jorge Fernandes é o Poema da Serra; “grita o carão por sobre o açude… / aeroplanicamente voa o carcará…”

Em 1909 a famosa conferencia futurista proferida pelo escritor e fotógrafo Manoel Dantas marca definitivamente nossa entrada no século do progresso. O café Potiguarânia veda a entrada daqueles que não convinham, escreve o cronista Amorim em “Natal do meu Tempo”. Do ruidoso tinir das louças da boêmia aos movimentos dos leques nos palacetes o silencio dos séculos, Chega o ruído de uma história gozada e contada por poucos. O sol que brilha nessas plagas desbota uma história que o livro do Gurgel ajuda a restaurar.

O último dos cortesãos, Jaime dos G. Wanderley (sic) deixa do próprio punho um importante depoimento sobre o clima de féerie em que viviam o Príncipe Cascudo e sua alegre corte, a criar fatos ruidosos, a inventar modas, a despertar para novos tempos nos quais se colocava até mesmo a questão do fim da oligarquia (p. 267). Ezequiel Wanderley escreve o imprescindível “Poetas do Rio Grande do Norte”, em 1922. Livro editado com grande primor e de onde Tarcísio retira as fotos emolduradas dos poetas.

“Belle Épque na Esquina“ fornece um bom relato histórico das oligarquias desde Pedro Velho até Juvenal Lamartine. Um olhar pioneiro sobre uma época esquecida da nossa história literária que coincide cronologicamente com a Belle Époque e o escritor Tarcísio Gurgel traz para o século XXI como parte do seu doutoramento na UFRN.

O livro é fragmentário e deixa muitas lacunas. Um bom começo sobre os primórdios de nossa incipiente literatura. No prefácio um errinho de digitação. Onde tem “Vergílio” (p.20) é Virgílio, o grande poeta romano autor da Eneida.

Uma citação de um texto do livro Antologia de Pedro Velho do Câmara Cascudo, refere-se às páginas 101 e 102. Na minha edição do citado livro a página 102 está em branco.

Na página 262 outro erro de digitação. Em vez de “foram dele” (sic), leia-se foi dele, Cascudo…

Tarcísio é bastante prolixo ao escrever e repete muito utilizando uma linguagem rebuscada e literariamente bela. Seu estilo com muita adjetivação-substantivada se assemelha ao que o poeta José Paes denominou Art-Noveau, Gastura literária, refinado espaço, limites medíocres, rude talento, admirada administração. Legendário é o termo mais abundante na prosa tarcisiana. Legendário Januário Cicco. Legendário aviador Djalma Petit.

Em 1907 se encantava o nosso primeiro bardo. Seu nome Lourival Açucena, ou o árcade “Laurênio”, nascido em 1827. Improvisador destacado e modinheiro. Sentimentalmente esteve ligado aos árcades e românticos.

Tinha predileção pelos poetas Bocage e Camões. “Amor é brando, é zangado / É faceiro e vive nu, / Tem vistas de cururu, / E vive sempre vendado”
(1883).

Gurgel destaca três escritores representativos da Belle Époque potiguar: Segundo Wanderley, Henrique Castriciano e Murilo Aranha. Um poeta não dialoga com o outro. O autor insiste em situá-los no século científico, no século do progresso que mudaria definitivamente a face da Terra e a compreensão do homem, da natureza e do cosmos. James Joyce revoluciona a literatura em 1922 com a publicação do Ulisses.

Segundo Wanderley o médico- poeta- patriótico dos naufrágios e do poema “Na Brecha” lido em Natal com muito fervor patriótico na despedida dos soldados para combater Canudos:

“Soldado chegou a hora / De triunfar ou morrer… / Se é grande o vosso heroísmo / Maior é o vosso dever! ? Bravos, leiais brasileiros, / Correi às armas, ligeiros, / Pra libertar a nação, / Que à sombra do fanatismo / Oculta-se o banditismo / pregando a restauração / … “

Murilo Aranha o poeta “romântico-cor-local” de grande lirismo (Poetas do RN, Ezequiel Wanderley (pp 235-36):

“Tu- brônzeo coração das cathedraes esguias,
Compassado. vibrando às emoções constantes.
Comoves o nosso “eu” nessas tardes sombrias,
Em que soltas ao vento as notas ressonantes…

Henrique Castriciano o poeta e teatrólogo cosmopolita. Seu melhor livro é – segundo Tarcísio, Vibrações. “Um poeta consciente da modernidade e ás voltas com as grandes indagações da ciência” (pp 217-218). De seu teatro literário pode-se dizer como observa Machado de Assis no teatro da época, é uma fantasia do espírito.

A Belle Époque foi pródiga em contendas literárias. O escritor e crítico literário sergipano Sílvio Romero (1851 – 1914) foi um dos maiores escritores brasileiros da Belle Époque brasileira. A vida literária era,
para Romero, uma eterna arena. Em 1909, encerrou uma polemica de três anos com o também crítico José Veríssimo. Atacou Castro Alves e Valentim Magalhães, quando da posse de Euclides da Cunha na Academia Brasileira de Letras.

No livro Belle Époque na esquina está bem documentada a famosa contenda entre o poeta Segundo Wanderley e o crítico Antonio Marinho. Wanderley é duramente criticado e apela até para a sua ascendência batava. Dele escreve um outro Wanderley, Berilo. “A poesia de Segundo Wanderley
possuía eloqüência, mas sem a imaginação que o gênio de Castro Alves aliava para seus vôos de condoreiro. Onde o estro de Segundo Wanderley mais se aproxima do de Castro Alves, pela eloqüência de expressão poética e pela força de colorido descritivo, é no poema “

Imortabilis Dies”, em que o poeta pinta com algumas pinceladas a seca que queimava o Ceará (in Rumos- Revista do d.a. Amaro Cavalcanti Ano I – No 1 1958);

Um dia a luz da fé sumiu-se no horizonte, / Eu vi o Ceará curvar a larga fronte / ao latejo fatal do cataclisma atroz; / A seca – o mausoléu sombrio da miséria,/ A boca escancarou, e a sanie deletéria / Do vício corruptor se difundiu após/… No centenário da morte do poeta Manuel Segundo wanderley a Academia Norte- Rigrandense de Letras lhe dedicou uma Revista (ano VIII No 6) com artigos importantes do Rômulo Wanderley, Palmira Wanderley, Ivo Filho que destaca o teatrólogo, e outros importantes depoimentos sobre o médico- poeta que faleceu precocemente aos 49 anos de idade.

Não é possível falar de Belle Époque no Brasil sem falar dos escritores Euclides da Cunha, Coelho Neto e Raul Pompéia. Senti falta de um capítulo especial no livro sobre a grande escola literária do Recife na Belle Époque, onde brilhou o grande crítico Artur Orlando e o escritor Tobias Barreto.

A literatura da Belle Époque teve historiadores da envergadura do Brito Broca (A vida Literária no Brasil 1900) fartamente referenciado no livro de Tarcísio e Lúcia Miguel Pereira, não mencionada no livro. Memorialista do porte de Luiz Edmundo que escreveu o importante “O Rio de Janeiro do meu Tempo”.

Termino essa breve resenha sobre o livro Belle Époque na esquina evocando o grande escritor e cronista João do Rio (João Paulo Alberto Coelho Barreto). Um dãndi e flâneur das ruas do Rio de Janeiro que ele descreve como ninguém. O autor da Alma Encantadora da Rua e Religiões do Rio tem o humor e a ironia de Eça de Queiroz e a elegância do escritor inglês Oscar Wilde. Autor imitado e muito lido pelo maior cronista da Belle Époque, João do Rio.

João não era um erudito, mas descreveu com muita verve os bastidores das ruas e granfinagens da Belle Époque. Uma écriture artiste a la Jean Lorrain, ou Paul Duval que inspirou o célebre barão de Charlus da recherche du temps perdu do Proust, que por sua vez influenciou toda a nossa literatura da Belle Époque.

A experiência do passado ilumina o presente sem eliminar o que foi sofrido. Não se produz uma nova cultura, que é resultado de uma experiência com o tempo, se não se muda a relação com o tempo e não se altera a sua percepção da história (Susana Scramim).

Recortar o tempo numa Belle Époque é anacrônico. E Tarcísio sabe que sem rompimento o novo convive com o arcaico.

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Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Marcos Silva 7 de abril de 2010 11:20

    João:

    O bom livro de Tarcísio é tema adequado ao SP. E seu comentário deu conta das qualidades que ele contém.
    Precisamos abordar assuntos e autores desse nível, “deixando o ruim de lado”.

    Marcos Silva

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