“Chão dos Simples”, do livro ao palco

Quando o ator Lenício Queiroga se retirou dos palcos da vida, no dia 21 de fevereiro de 2009, aos 58 anos de idade, era, por ironia ou fatalidade, um sábado de carnaval. A data se esboroou nas névoas do tempo. Lenício, porém, deixou na memória de uma geração de natalenses as lembranças mais vívidas do que fora a dramaturgia nos tempos da cólera “manu militari”. Sua encarnação antológica da professora histriônica e autoritária na peça “Apareceu a Margarida”, de Roberto Athayde, na ribalta do TAM, alçaria voo para outros palcos em sentido descendente na geografia do país, conquistando prêmios e consagração popular. Atuou ainda no filme “Boi de Prata”, de Augusto Ribeiro Dantas (1980). Mas o cinema não era a sua seara. Logo trilhou outros rumos, agora por detrás das cortinas, encenando, dirigindo, escrevendo.

De fato, quando retornou ao convívio natalense no fim dos anos 1980, Lenício já trabalhava num projeto arquitetado duas décadas atrás: dar forma dramática a alguns contos do livro “Chão dos Simples”, obra do escritor Manoel Onofre Jr. que o impressionara deveras. A peça, portando o mesmo nome do livro, seria levada aos palcos do Teatro Alberto Maranhão no dia 24 de julho de 1997, com boa resposta do público, embora por curta temporada, como costuma acontecer com as iniciativas dramatúrgicas domésticas. No ano seguinte, a peça voltaria a ser montada no mesmo teatro por dois dias, sempre sob a direção de Lenício Queiroga. Lembremos ainda que o grupo Aquarius, responsável pela montagem da peça, foi idealizado e criado pelo próprio Lenício.

Única experiência “autoral” conhecida de Lenício Queiroga, “Chão dos Simples, a peça: adaptação dos contos de Manoel Onofre Jr.”, acaba de ser publicada, com justa razão, por iniciativa desse escritor. Antes de qualquer coisa, por se tratar de um trabalho criterioso, na medida em que verte para a linguagem presencial e vívida do teatro aquilo que era, até então (e assim permaneceria) pura matéria literária, tessitura estática e estética que só a imaginação do paciente leitor é capaz de animar.

O dramaturgo Racine Santos, num texto escrito à guisa de prefácio ao livro, observa: “A proposta de Lenício é moderna e audaciosa, fazendo com que a ação se passe no plano da memória, dispensando assim uma ação dramática linear e personagens condutores do enredo. As situações se desenrolam sem uma lógica aparente, numa sucessão arbitrária, como é o sonhar”.

De fato, com esse artifício próprio dos herdeiros da Cherazade das “Mil e Uma Noites”, os contos se encadeiam e dialogam entre si, numa lógica diferente daquela que rege a narrativa literária que lhes impôs Onofre Jr., cuja característica mais saliente é justamente o fato de serem estanques em si mesmos. Como a cada novo paradigma corresponde uma nova linguagem, só podemos convir que Lenício lançou mão de um recurso ágil e inteligente para dar corpo ao seu projeto longamente sonhado.

Dentre as histórias que animam o palco de “Chão dos Simples”, há farsa, drama, tragédia, alternadamente, o que garante ao espetáculo um dinamismo de telenovela, tal a velocidade com que as histórias se sucedem umas às outras, às vezes com apenas dois personagens em cena, como na Cena IV, “O Cigano João Garcia”, outras vezes com os seis atores do elenco, como na Cena X, “Dia de Juízo Final”.

Ao publicar esse texto, Manoel Onofre Jr. dá indiretamente uma contribuição singular ao repertório da dramaturgia potiguar, ao mesmo tempo em que retribui o esforço intelectual de Lenício Queiroga, retirando-o de detrás das cortinas do olvido para o centro do palco, onde os holofotes podem projetá-lo como protagonista, sem demérito para seu papel de diretor do espetáculo e, eventualmente, de ator e narrador.

Comments

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  1. Jarbas Martins 22 de Março de 2012 17:55

    Sem dúvida, um dos bons lançamentos do ano.Esta peça de Lenício Queiroga, baseada nos contos de “Chão dos Simples”, do escritor Manoel Onofre Jr., interessa-nos pela inventividade que o autor imprimiu a este trabalho, que marca sua estréia como dramaturgo. Racine Santos, com sua autoridade reconhecida Brasil afora, como homem de teatro,chama a atenção do leitor para a original tessitura da narrativa dramática. Lenício, com sua longa vivência como ator, nos palcos da vida, deixa-se levar, intérprete brilhante, pelo que existe de sonho, magia e o riquíssimo imaginário que pontuam os contos da obra adaptada.Uma adaptação que vai além da mecânica traslação desses dois gêneros, com estruturas próprias, bem diversificadas: o conto e a peça teatral. Hibridização de gêneros, pode-se falar, desta pós-moderna narrativa (perdão, para os que abominam o termo pós-modernidade e suas derivações) que inclui um terceiro co-autor: Carlos Lins Onofre, jovem escritor, arquiteto e mestrando na área de
    Designer, na USP. É desse talento novo que brota, para mim, uma das cenas mais dramáticas, de tons expressionistas, do livro.A capa e a contracapa da obra, de Carlos Lins, refere-se à cena do conto sobre o Juízo Final, onde o tom apocalíptico, próprio da cultura nordestina, chão de profetas, beatos e narrativas escatológicas, interage e harmoniza-se com a narrativa teatral de Queiroga e a contística telúrica de Manoel Onofre.A arte visual de Carlos Lins é uma síntese.Vale como um expressivo painel desse misterioso, despojado e ignorado mundo do sertão nordestino.

  2. Thiago 22 de Março de 2012 19:00

    Belo texto e muito justa a homenagem ao Lenício Queiroga, Chão dos Simples é um livro muito importante para a literatura potiguar. Vi a peça ( em vídeo ) e é tão boa quanto a obra original publicada em 1983 pela Editora Clima, com capa de Vicente Vitoriano. Amigo Nelson, tenho seu livro de contos, Colóquio com um leitor Kafkiano e acho um dos melhores do gênero no RN.

  3. Jarbas Martins 23 de Março de 2012 7:33

    Seja bem-vindo, Thiago Gonzaga – jovem pesquisador contumaz da nossa literatura – a esta seção de comentários.Estou providenciando meus livros e escritos que te prometi. Abraços.

  4. Thiago 23 de Março de 2012 12:56

    Caro amigo Jarbas Martins, muito obg pela atenção. Embora eu tenha quase mil livros de autores potiguares o destino ainda não permitiu eu ter um livro seu, por isso conto com sua ajuda (risos). Conheço muito bem sua obra graças a varias antologias poéticas que você participou e a generosidade do Manoel Onofre Jr que me emprestou 14×14 que acho um dos livros mais incríveis já publicados no RN.

  5. nelson patriota 26 de Março de 2012 16:44

    Caro Thiago,
    Manoel Onofre Jr. tem me falado do zelo e do cuidado que você tem pela literatura potiguar. fico feliz em saber que você gostou do meu “Colóquio”; fico mais feliz ainda em saber que você cultiva com seriedade e constância a nossa literatura, cujo destinatário primordial somos nós mesmos.
    caro Jarbas, sua intervenção é oportuna para se discutir um pouco o legado de Lenício Queiroga, um nome importante de nosso teatro que se foi prematuramente.
    abraços,
    Nelson

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