“Era e é”: para continuar a ter beleza

(Recordações de Dona Nazaré de Souza,

cantora e dançarina de autos populares,
operária têxtil e passadeira na Escola Doméstica)*

Apresentação – “Falar, lembrar”: A beleza do pensamento.

Conheci Dona Nazaré através de uma reportagem divulgada no jornal natalense Tribuna do Norte, durante a semana do Natal de 1997. Além de ficar muito impressionado com o teor de suas recordações sobre participação em autos folclóricos e atuação como operária na indústria têxtil local do início do século XX, tive grande interesse em conhecer o presépio que, segundo o jornal, seus filhos tinham montado na sala de casa, naquele ano, rememorando tradições de tantas décadas atrás, quando ela dançava e cantava em Lapinhas e outros autos natalinos e juninos.
Dirigi-me à Rua do Areial, indicada naquela matéria jornalística, mesmo sem saber o número da casa, que a reportagem preservara. Perguntei por Dona Nazaré a alguns moradores da rua, até começar a receber indicações sobre sua residência. Bati palmas no lugar designado e, para minha surpresa, fui recebido por um antigo colega de trabalho no Hotel Internacional dos Reis Magos, em 1969/1970. Era Antonio, que, depois, entendi ser filho de Dona Nazaré. Ele não me reconheceu de imediato porque estava com problemas de visão, mas foi muito gentil assim que lhe expliquei a finalidade da minha presença. Perguntei-lhe sobre o hotel, e Antonio confirmou que tínhamos trabalhado juntos, acrescentando que seu irmão Salviano, também ex-funcionário daquela empresa, morava nas redondezas. Fui convidado a ver o presépio e visitar toda a casa.
Dona Nazaré apareceu pouco depois, pequena, magra, simpática, ativa e muito lúcida em seus 91 anos. Conversamos informalmente sobre o presépio e outros aspectos de sua vida. Eli Clemente, que me acompanhava na visita, fez algumas fotografias dela e da casa. No final, perguntei-lhe se aceitaria ter uma conversa comigo, gravada em audio-cassete. Dona Nazaré concordou muito simpaticamente, e combinamos um encontro para alguns dias depois.
Fui sozinho, na data acertada (29 de dezembro de 1997). Ela já me esperava, usando um vestido muito bonito – infelizmente, não levei a máquina fotográfica dessa vez. Conversamos durante cerca de uma hora e meia, com breves intervalos para manipulação do gravador.
Fiquei especialmente impressionado com a amplitude e as sutilezas das lembranças que ela foi desfiando. Nesse universo, Dona Nazaré evidenciava faces da imensa riqueza da cultura popular.
Dentre as referências mais marcantes de sua longa vida, observei a presença de local de moradia (Rua do Areial) e família ampliada (pais, primas, filhos, netos, parentes simbólicos dos festejos juninos – primos e compadres “de fogueira”), às vezes mescladas, indicando o peso de experiências na constituição da memória.
As recordações sobre a Rua do Areial e todo o entorno de sua infância eram especialmente expressivas dessa capacidade evocadora de minúcias significativas, como os índices de beleza natural daqueles arredores e da Cidade do Natal: brancura da areia, limpeza do mar, tipos de vegetação, animais criados nas casas, ou soltos nas ruas e no mato. Suas descrições chegavam mesmo à identificação de plantas, caso do oró e da salsaparilha, situadas num universo da experiência corporal (pisar e rolar na areia, encantar-se com o efeito de cores da natureza). Tudo isso veio envolto na emoção das belezas sentidas e perdidas, devido às mudanças do mundo. Havia nessas falas, portanto, um sentimento de beleza como necessidade básica na vida dessa mulher e de seus iguais.
Uma forte lembrança de infância de Dona Nazaré, que ela identificava ainda na experiência de seus filhos, era a do trabalho, associada à educação, que, com a idade, ia se tornando privilégio de quem não era pobre. O trabalho infantil foi valorizado por Dona Nazaré a partir de sua própria prática, desde os 11 anos, quando seu pai cegou, a mãe passou a garantir o sustento da família como cozinheira e costureira, e ela mesma se tornou vendedora ambulante de alimentos e ajudante do pai, que esmolava pela cidade. Essas modalidades de trabalho foram assumidas como atividades que não produziam vergonha e possibilitavam conhecimento de Natal, de seus bairros mais afastados da Rua do Areial. Assim, os limites da experiência espacial (Rocas, Ribeira, praias) foram ampliados para outros bairros, como Tirol, Alecrim e Carrasco, marcados pela pessoalidade dos donos e moradores de casas ali situadas.
Outras formas de pessoalidade podem ser observadas no relato sobre sua experiência de operária infantil, na indústria têxtil, desde os primeiros contatos, através de uma tia, aos 12 anos, até à apresentação de seus companheiros de idade no trabalho, multidão de meninos e meninas desempenhando tarefas que iam do recolhimento da “poeira” do algodão às atividades que exigiam subir num caixote, a fim de alcançar peças das máquinas, com o corpo infantil se submetendo à escala dos instrumentos de trabalho adultos. Nessa narrativa, destaca-se, ainda, a precisão do vocabulário na descrição de detalhes da produção fabril, englobando maquinaria e etapas, espaços especializados e localização da fábrica na cidade. Ela sugere uma Natal que podia ser percorrida a pé, no cotidiano da sobrevivência.
Junto com a multidão infantil na fábrica, Dona Nazaré identifica outro enorme contingente ali presente, as mulheres, e ela mesma, criança do sexo feminino, como que solda essas duas faces do trabalho, evocando a horizontalidade das relações, marcadas por sentimentos de serem iguais e solidários.
A dureza dessa experiência figura no registro de uma jornada de 13 horas diárias de trabalho, num mundo sem férias nem aposentadoria. O longo expediente se misturava com o espaço das relações domésticas, espaço representado pela mãe, que mandava o almoço para a filha, sem se diferenciar muito dos rapazes que trabalhavam com animais de carga, e iam para casa, ao meio-dia, a fim de darem o de comer a cavalos e burros e, eles mesmos, também, se alimentarem. Esse último tema evoca ainda a presença dos animais no dia-a-dia do trabalho, do transporte e da alimentação: cavalos, burros, bois, porcos, galinhas…
O tempo da vida de Dona Nazaré é por ela periodizado a partir de múltiplas referências: as práticas da sobrevivência, ao redor do trabalho, a vida religiosa, que englobava o cotidiano de missas e igrejas, as festas, muito ligadas ao calendário sagrado, a família de origem, e a constituição de seu núcleo familiar gerador – namoro, gravidez, casamento.
As referências de espaço, na memória de Dona Nazaré, abrangem principalmente a Rua do Areial, seus arredores imediatos na cidade (Rocas, Canto do Mangue, Santos Reis, Ribeira), a Igreja Católica, seus padres e fiéis. A ultima instituição reforçava rotinas sociais, com destaque para os papéis de mãe e esposa, como se observa no horário matinal de missas para as mães de família..
Dona Nazaré registra a reforma da Igreja do Bom Jesus das Dores, na Ribeira, elogiando o prédio modernizado, que substituiu a edificação anterior, de cunho barrocizante. Nesse sentido, ela evidencia a relação popular com o nascimento de novas tradições – o prédio maior, com mais torres.
No período de infância de Dona Nazaré, a Ribeira ainda era um bairro natalense de elite, donde famílias ricas ali residirem e freqüentarem aquela igreja, embora já comecem a figurar referências à catedral, na Cidade Alta, incluindo intercâmbios dos que freqüentavam os dois templos.
As procissões figuram, nessas memórias, sob a dupla carga do sagrado e do patrocínio pela elite local, tema desdobrado numa espécie de proteção aos pobres, que vinha tanto daqueles ricos (Dona Raquel, por exemplo) quanto dos religiosos (caso do Padre João Maria).
As relações de Dona Nazaré com a modernidade são ambíguas: tanto rejeita certas transformações (particularmente, as de natureza moral e da paisagem – o mar é referido como corrompido, nos planos da poluição e da moral, tendo conspurcado seu teor sagrado), como admira novidades, casos da vacina, da chegada do radio e da central ferroviária.
Sua evocação do namoro, incluindo as referências à linguagem das flores, guarda parentescos involuntários com a poética peça Dona Rosita, a Solteira, de Federico Garcia Lorca. As convenções sobre comportamentos sexuais de rapazes e moças são reafirmadas (experiências liberadas para os primeiros, exigência de virgindade para as moças), embora a regra fosse quebrada, como aconteceu com a própria narradora, que casou depois de ser mãe, sem perda de auto-estima e sentimento de dignidade.
Outra convenção apontada por Dona Nazaré diz respeito à imagem das dançarinas dos autos folclóricos, vistas como pouco confiáveis moralmente, sem que isso correspondesse à verdade – pelo contrário, sublinhou-se o respeito entre moças e rapazes. Um desdobramento dessa visão era o abandono dos autos pelas moças que casavam.
A cuidadosa descrição de autos e festejos é especialmente preciosa, tanto no que se refere aos participantes, quanto ao longo período preparatório (ensaios das Lapinhas desde junho, por exemplo), às modalidades de recompensa almejadas – além do prazer intrínseco do festejar, bebidas, comidas, convívio social, conhecimento de outros bairros. Essa preparação envolvia, junto com os ensaios de cantos e danças, a costura de roupas e o fabrico de adereços. Nas idas dos grupos às moradias, fica patente um sentimento de reciprocidade: danças e cantos apresentados têm por contrapartida a abundância de comidas e bebidas.
O ciclo de festas abrangia tanto uma ampla face sagrada (Natal, Semana Santa, São João) como o profano carnaval, lembrado com igual emoção.
No caso da Semana Santa, a pompa das procissões foi associada aos Passos, ligados, por sua vez, a moradias da elite e a instituições oficiais, com a Banda da Policia evidenciando elos entre Igreja Católica e Estado.
A religiosidade popular, representada nessas memórias, tem um teor fundamentalmente católico, abrangendo relações respeitosas com a Assembléia de Deus e a Igreja Presbiteriana, o que não se observa no que se refere ao mundo afro-indo-brasileiro – catimbós, macumba… Nesse sentido, a cultura popular surge marcada por tensões internas, longe de qualquer homogeneidade.
O tempo de Dona Nazaré se refere fortemente a experiências do trabalho, como se verifica nos trechos sobre a Segunda Guerra Mundial, articulados a lavagem de roupas das pensões de prostitutas destinadas ao lazer dos americanos.
Todo esse tempo é marcado pelo teor sagrado do mundo, expresso inclusive na relação de se benzer quando se tomava banho salgado, ritual dificultado, ou mesmo impossível, no presente da água poluída.
Um trecho da Lapinha, evocado por Dona Nazaré, sintetiza essa sacralidade do mundo: “enchei os pobres da terra / dos prazeres mais profundos / porque nasceu Jesus Cristo / para a redenção do mundo”.
Os prazeres mais profundos: nascer, amar, sentir a natureza se fazendo, junto com os seres humanos, gerar nova vida, dançar, comer, cantar, beber.
As memórias de Dona Nazaré nos lembram como o pensamento pode ser belo, e como essa beleza é um patrimônio bem distribuído entre diferentes grupos sociais, apesar da cegueira dominante, que deixa de ver suas manifestações nas mentes populares.

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Meu nome completo é Maria Nazaré Gomes de Souza. Meu nome de solteira era Maria Nazaré Gomes Figueiredo. Nasci em 1906, no dia 16 de fevereiro. Me casei em 1931. Eu tenho que foi em 32, eu me casei, eu descansei primeiro do menino, o menino completou um ano, p’ra poder eu me casar. Batizou… o batizado dele e o casamento, o meu casamento.
O nome de meu primeiro filho é Manoel, Manoel Fernandes Souza. É… Manoel, Salviano – o nome de meu pai -, José Fernandes de Souza (que é falecido), Antonio Fernandes de Souza, Maria do Carmo.
Maria Salete morreu com um ano e pouco. Esse que é falecido, a gente dizia p’ra ele parar de beber, ele dizia que não parava não, a gente dizia que ele ia morrer desta maneira, bebendo daquele jeito, que ele tomava uma cachaça amuada. Ele dizia:
“Que não morro nada, ‘tá aqui, ‘tou vivinho, a minha irmã, morreu com um ano e poucos meses, só tomava leite, eu ‘tou com 39 anos e tomo cachaça.”
Ele morreu de uma queda mas era um rapaz muito trabalhador, forte. Era valentão, Virgem Maria! Era um siri dentro de uma lata! Ele deixou três mulher, no dia que morreu, chorava três mulher junto do caixão dele. Teve filho em três mulher! Ainda hoje, tem quem chore. Madalena, quando me abraça, chora. E Vanilda. Elas tudo gosta de mim
Tenho muitos parente que moram aqui perto, meus filhos, uma filha que tem uma filha casada, com quatro filhos, não é? – tem Ana Claudia, Cristina, Carolina e Felipe. A minha outra filha tem Robério, Rogério, Rosália e Maria Mires.
Sou nascida e criada aqui na Rua do Areial. Daqui, nunca saí p’ra canto nenhum. O Areial, quando eu era menina, era morro, oró, não vê falar em oró?, barba-de-bode… Oró é um mato que tem uma folha, ele tem três folhas com palma p’ra cima. Agora, sendo maior, ele rama que toma os morros, fica esverdejado. Eu penso que ainda tem aí no quartel, lá embaixo. Tem a salsaparilha, que tomava esses morros, fazia os morros muito bonito. Agora, nos vinha da beira da praia aquelas cercas, que era p’ra não entupir a barra, ‘viu?, que no meu tempo, entrava navio aí que a barra era limpa, eles tinham cuidado, era cheio de cerca, tinha não sei quantos, nem se conta os coqueiros, o coqueiral bonito que era uma beleza. Acabou-se tudo. A praia, mataram a praia, não tem mais beleza porque de manhã, a gente ia tomar um banho salgado, os morro era aquela areia alva, quando a gente pisava, chega rangia nos pés da gente, não fazia nojo você chegar, deitar e rolar naquela areia, cair dentro d’água, era aquela salsa verde, com aquelas flores assim roxa, chega!, era muito lindo, a praia chega brilhava, quando vinha saindo o sol, era aquele brilho por muita cor, tudo – eu nunca mais fui à praia!
Eu vou dizer uma coisa, eu achava melhor porque essas criançada, o povo achava ruim, estudava e começava a trabalhar de criança, como meus filhos. Com 11 anos de idade, eu não dei de vestir nem de calçar a meus filhos porque eles mesmos procuraram e estudaram. Não pude avançar porque eu era pobre, trabalhava na escola que eu, quando os tecidos parou, eu fui para a Escola Doméstica, me casei, passei os dois anos em casa, depois, eu voltei novamente para a escola, fui ajudar meu marido a criar os filhos que ele era marceneiro e apartou uns tempos e eu tive de trabalhar.
Eu tinha meu pai, minha mãe, meu pai era cego, meu pai cegou e eu estava com 11 anos de idade quando meu pai cegou.
O meu pai era soldado, era ordenança do governo, era obrigado, era o termo, acho que nesse tempo, o ordenança do governo chamava-se, tinha uma divisa, chamava obrigado.
No tempo que meu pai tinha vista, minha mãe nunca trabalhou. Agora, depois que meu pai ficou cego – meu pai chegou assim como ele, saíu um pouco, quando chegou, foi com a cabeça tremendo de febre -, ela começou a trabalhar, ela costurava p’ra fora e fazia cuscuz, fazia pé-de-moleque, fazia tapioca. Agora, ela enchia um tabuleiro assim, eu, menina, ia vender no Canto do Mangue, na chegada dos botes, chegava, me ajeitava, botava a roupa, botava o tabuleirinho nas costas, não tinha vergonha não!
Quando meu pai cegou, ele não recebeu nada! Nesse tempo, nem se falava, não se pagava pensão, não, não! Passamos a sobreviver com o trabalho de minha mãe e depois, ele andou pedindo as esmola, eu andei com ele, foi quando eu aprendi Alecrim, aprendi aquele mundo todo dentro das matas, Tirol, era só mato, Alecrim. Ali, onde é a Capela de São Sebastião, ali chamava-se Quilômetro 5, agora, chamava-se o Carrasco porque ali, só tinha parece que umas 4 casas, a casa do Zé do Pedro do Davi e a casa de Seu José, o pai de Anita. Ela trabalhava nos tecido. Agora, a capela e a casinha do lado, a casa deles, porque eles tomavam conta da Capela São Sebastião, dentro dos matos.
Meu pai cegou quando eu tinha 11 anos. Comecei a trabalhar na fábrica de tecidos, 12 p’ra 13 anos. Minha tia trabalhava e me levou lá. Havia muitas moças de minha idade na fábrica, meninos e meninas, eles apanhava o algodão debaixo das máquinas porque tinha as máquinas de fiação, caía aquela poeira do algodão e formava um nevasco. Então, agora, aqueles meninos ganhavam mil e quinhentos por semana p’ra apanhar aquele tudinho, inteirinho, aquele algodão, p’ra levar de novo p’ros bastidor p’ra tornar a fazer aquela esfiandeira de algodão de toda largura. E depois, era tarta, batedor, batedor grosso, batedor fino, a fiação grossa, a fiação fina e a espuladeira que era p’ra fazer o fio, p’ra fiar.
Ave Maria! Eu não contava naquele tempo da imensidade, era muita criança na fábrica, não, era!, chamavam Jovino Barreto de pai da pobreza porque ele era o dono, amparava todo mundo, os bons, é, não se via menino solto na rua, era tudo trabalhando. Ali, se fazia sacos, tinha mulher p’ra fazer sacos, tinha mulher p’ra apanhar algodão, tinha mulher p’ra tecer, p’ra fazer tudo, acho.
Havia mais moças e mulheres. Agora, os filhos daquelas mulheres que trabalhavam iam trabalhar também. Eu trabalhei porque uma tia minha trabalhava lá, tinha muito tempo, arranjou um lugar. Quando era p’ra eu passar o fio, ele me dava um caixãozinho assim que é p’ra passar o fio nos nichos. Ave Maria! Tinha tanta mulher velha! Viúva, sem marido, mulher solteira, tudo, tudo, era tudo misturado ali, ninguém tinha bondade nenhuma no fundo, não, era tudo um pelo outro.
A gente trabalhava de 6:00 às 11:00 hs., a gente parava p’ra almoçar. Entrava de 1:00 até 6:00 hs. da tarde, voltava p’ra tomar café, depois, entrava, trabalhava até 10:00 hs. da noite. Eu almoçava lá mesmo, mamãe mandava o almoço, iam levar o almoço da gente.
Férias, tinha não, tinha não! Quem arranjou isso tudo foi Café Filho. Nem aposentadorias, não tinha nada, não tinha nada! Ainda não se falava em nada disso.
A fábrica era ali na entrada da Ribeira, ali de frente ao Salesiano, perto da Estação Ferroviária. Tinha três galpão: tinha o galpão da tecelagem, de fiação, de carda, de batedor e descacoroçadeira, de tudo era completa a fábrica! Tinha saboeria, tinha atrás a fábrica de sabão. Agora, a fábrica de óleo era no – ah meu Deus, que eu já me esqueci!, sabia onde, ali, perto de Macaíba. Pertencia tudo a Jovino Barreto. Agora, depois que ele morreu, a viúva vendeu e a casa, ela deu de presente ao Salesiano.
No Areial, havia animais soltos nas ruas. O pessoal trabalhava, nesse tempo, não tinha caminhão, não tinha carro, carregavam carga era em cavalo, inda mais aqui, no Areial. Tinha um tal de Marcos, que era compadre de mamãe, trabalhava num cavalo, um cavalo bom! Também tinha Chiquinha Paciência, os filhos dela, uns vendiam caldo de cana no Cais Tavares de Lyra e outros trabalhavam em cavalo; e tinha Joaquim José, esse trabalhava com cavalo; tinha o pai de Artur Girósio, que trabalhava logo com 3 burras p’ra carregar carga. Isso tudo trabalhava, quando dava de 11:00 p’ra 12:00 hs., eles iam p’ra casa, desarreava, botava comer, os cavalos comiam, eles iam ajudar, quando acabava, novamente, voltavam.
Tinha um curral ali embaixo, onde é a subida da Belo Horizonte, lá embaixo, ali, tinha um curral, tinha um curral de César Paulina, ali aonde é a Silva Jardim, assim, mais p’ra lá, tinha um curral que era de João da Cruz e tinha outro, tudo era curral de gado, dentro das ruas mesmo. Agora, quando amanhecia o dia, eles iam deixar esse gado lá por dentro dos matos, Barreira d’Água, Barreira Roxa porque tinha onde o gado comer, solta, agora é que não tem canto nem p’ra andar solto.
Tinha chiqueiro, chiqueiro. Porcos, o pessoal criava, tinha gente que tinha logo 2 ou 3 chiqueiros de porco dentro do quintal. Porco não criava solto, não? Galinha, a gente criava solto aí, à vontade. Mas porco, cabra, essas coisas, era cabra, era solto aí. Não tinha em nenhuma casa, era só cerca e oró, mama de cachorro, aí, soltava à vontade.
As casas eram tudo aqui no Areial e ali em Monte Carmo. A igreja dos três Reis, quando eu nasci, já existia. Somente. Agora, aquela capela foi construída em 1920 até 21. Quem construiu aquela capela foi um padre que nesse tempo, a Ordem do Bom Jesus era só dos padres, dos padres estrangeiros, padres da Sagrada Família, da América. Era Padre José, Padre Agostinho, Padre Zé Picinha, Padre Zé Pato, Padre Teodoro, Padre Carlos, Padre Juiz, Padre Frederico e o Padre André, Padre André e o outro que acompanha, que foi o que trouxe N. Sra. de Fátima, N. Sra. de Lurdes para o Rio Grande do Norte, foi o Padre André.
A minha Igreja principal foi Bom Jesus das Dores. Eu comecei a freqüentar ela com idade de 5 anos. Minha mãe gostava, ia muito à missa, ela ia mas ela não perdia a missa. Nesse tempo, os padres faziam a missa de 4:00 hs. p’ra mãe de família que tinha o que fazer em casa. A minha mãe ia p’ra missa de 4:00 hs., quando dava 5:00 hs., de 5:00 p’ra 6:00 hs., ela já estava de volta p’ra casa. Da manhã, da manhã! Escuro quando saía daqui, às vezes, chegava lá e a igreja estava fechada mas daqui a pouco, ficava aquele bando de mulher na porta, esperando a igreja.
Sabe quem reformou essa Igreja do Bom Jesus? Foi o Padre André. Ela só tinha uma torre, só tinha uma torre em 1913 p’ra 1914 quando chegou N. Sra. de Lurdes, eu ‘tava pequena. Aí, a Dona Inês Barreto, mamãe, a minha tia viva lá, tinha muito amizade e vivia com Dona Maria, trabalhava, era empregada com Dona Maria de Plínio Barreto. Aí, Dona Raquel falou p’ra Chiquinha de Absalão e a minha tia arranjar umas criança deste tamanho p’ra sair em traje de anjo na Primeira Procissão de N. Sra. de Lurdes em Natal, foi em 1915.
A Tavares de Lyra era a principal avenida de Natal, era e é, p’ra mim, não morreu não, está viva, a Rua da Palha, a Tavares de Lyra e ali, a Deodoro. Quem freqüentava essa Igreja era da Vieira Chaves, da Rua Sachet, da Rua Silva Jardim, ruas de pessoas ricas, da Santo Amaro, da Dona Maria de Serran, era Dona Julieta Reis, era o pessoal de Aluísio Alves, da família, as filhas, aquele pessoal dali, de Antonio Cordeiro, tinha pessoas que freqüentava.
Quem morava na Cidade Alta ia na Catedral e vinha às festas na Bom Jesus. É, às vezes, as cantoras da Bom Jesus iam cantar em festas na Catedral. Eu, mocinha muito nova, eu vivia na Igreja, era eu e um bando de moças que já morreram a metade, só quem está viva sou eu. A gente ia p’ra Igreja, a missa das 9:00 hs., mas lá p’ra cima, p’r’o Coro, ajudar o padre, ia ouvir o órgão, que era de cabo, era quatro moças, quando uma cansava, p’ra gente repousar, eu gostava demais, ajudei muito a cantar no coro como exercício, iam minhas irmãs também, que eram cantoras, tinha uma irmã que foi religiosa, uma morreu e a outra ainda está viva, está avariada de ouvir trovão, ela era superiora do colégio de meninas, por causa dos trovão, tão acostumada, nascida e criada aqui, Virgem Maria!, delirando, deu foi trabalho e agora está dando.
Havia muitas procissões, Ave Maria! Agora, não há mais!, o pessoal não gosta não, o pessoal não gosta. A Procissão de N. Sra. de Lurdes, a Procissão do Coração de Jesus, do Bom Jesus, a do Bom Jesus e o Santíssimo, o Pai, o Padre e o Sacristão, a Procissão de Nossa Senhora de Lurdes, a minha mãe. Dona Raquel tomou conta de mim p’ra fazer 30 enxoval, sair de traje de anjo, 4 anjos com 4 acólitos. O Dr. Vicente Farracho, esse que foi o primeiro diretor do ABC, nesse tempo, ele era ra…, meninote, era mais velho de que eu, ele era acólito, cada um tomava conta de um anjo. A minha mãe chorava, dizia que eu ia morrer. Ai, besteira do diacho!, aí, foi que eu criei…
Dona Raquel era a filha de Dona Inês, morava na casa dela, ali, onde é o Salesiano. Ela tinha a Dona Maria, que era casada com Pedro Velho, ela tinha Dona Raquel, ela tinha a Dona Maria Tarquínia, a Maria Marta, a Dona Consuelo e a Dona Dalvita. A Dona Consuelo foi a que casou com o Dr. José Bahia. Era rica, era, quem protegia os pobres daqui do Rio Grande do Norte mais era Jovino Barreto. Tinha o irmão dele, que era beato da catedral, que ajudava a missa com o Padre João Maria, era Sinfrônio, chamava Sinfrônio, que ajudava a missa com o padre.
Padre João Maria morreu em 1905 e eu nasci em 1906. Minha mãe contava que ele, no tempo das varíolas, aqui no Areial, que deu epidemia, ele vinha na desobriga todo dia, p’ra casa que tinha 3, 4 casos, ele fazia um mingau, p’ra dar de comer, ele confessar todo dia e ele passava em casa de mamãe, mamãe tinha gente doente em casa, a casa de mamãe tinha um alpendre na frente, às vezes, botava um tamborete p’ra ele se sentar, p’ra ele descansar, ele, com a bolsinha e o guarda-chuva. Ele ajudava muito, no fim, ele morreu, na epidemia, ele adoeceu e morreu, não sei se de varíola, minha mãe não me explicou. O meu pai explicava muita coisa à gente, ele dizia muita coisa.
Ah, meu Deus!, começaram a vacinar as pessoas em Natal foi depois daquilo tudo, a vacina é muito antiga aqui, eu ‘tava pequena quando minha mãe me vacinou, vacinou a nós três, eu e minha irmã, que ficou com a bexiga, só a bexiga mesmo, braba, de fogo, que inchou tanto o braço dela que só faltou rachar. Mas ela não pegou a doença, não, a vacina pegou mesmo que ela tinha de ter, a vacina pegou. Em mim, pegou muito pouquinho, saíu como uma catapora, porque tem a bexiga e tem a catapora, foi a unha de fogo e tem a lixa, que foi o que saíu na minha irmã, no braço, é uma pipoca assim, se sair muito, a pessoa não escapa.
As pessoas tinham medo de se vacinarem, aqui, não. A vacina era na pele, riscava assim, uma risquinha em cruz, e botava aquele, aquele pus, um líquido. Aí, a gente ficava ali, abatida, quem tinha de ter a varíola, dava frio, febre e aí, ia cumprir o resguardo porque a bexiga tem isso, a pessoa tem, se tiver bexiga, hoje em dia, o povo parece que brinca das coisas de Deus, não tem resguardo, mas mamãe deu o resguardo da gente, de carne, de toda comida carregada, seis meses, a gente não comia coco, não comia peixe carregado, carne de porco, era só carne fresca com feijão branco.
Nesse Areial aqui, não tinha nenhuma casa, sabe? Eu vou dizer uma coisa: isso aqui era uma mata. Sabe o que é uma mata? Quem botou isso aqui abaixo foi a Central, botou tudo abaixo, tirou algumas casas que tinha lá embaixo.
Ah, meu Deus!, eu me lembro de quando a Central foi instalada, sim, eu me lembro. Em 1913, esses galpão estavam em andamento, estavam construindo esta…, chamava-se rotunda.
Aquela estação da cruz, começaram a construir aquela estação, p’ra mim, foi de 1910 p’ra 1911, aquela estação e esta rotunda. Em 1913, me lembro bem que eu era menina, estavam cobrindo que quando deu uma chuva com muito trovão e caiu um corisco que foi uma zoada tão grande, a vista ficou luzindo, num instante enferrujou, não acabou-se mais nunca, um raio que caiu, justo que estava assim.
Esse trabalho foi feito pelos franceses e portugueses, tinha mais português aí do que francês, tinha o francês que veio e a gente chamava de, tinha Henri, Henrique e Thain, e tinha umas moças aqui no Areial (eu era muito curiosa, que eu tomei ela como madrinha, tinha madrinha, elas gostavam, toda vida, houve moça namoradeira), elas iam passear, iam conversar com eles e namorar. Minha tia, que eu tinha uma tia bonita, a gente ia olhar, era tanto barril de cimento ali, onde é aquela estação p’ra frente!
Tinha uns rapazes daqui que trabalhavam na construção da estação. Algumas moças namoravam com esse pessoal, que foi a primeira vez quando chegou essa GMC, fizeram doze garagem ali por detrás dessas casas.
Namoro? Eram uns namoros escondidos porque os pais não queriam, nem as mães, namoravam por aceno. As pessoas faziam gestos, passavam a mão na cabeça, passavam a mão no rosto, traziam flor no peito, tanto os rapazes como as moças. Quando o namoro ficava mais sério, o rapaz ia indo devagar, levava nome, coitado!, que as mães desconfiavam, ficavam bravas com as moças. A minha mãe me esculhambou! Quando ele passava na porta, arrastava o pé na calçada, já estava avisada, a gente já estava esperando. Eles ficavam lá numa esquina. Se ele queria falar com a gente, ele passava a mão na cabeça e enxugava o nariz, ah!, já estava se acontecendo. E quando mostrava às vezes um botão de rosa, um cravo, “Vou dançar hoje à noite”, Virgem Maria!, já estava acertado. E quando queria dar um fora, já sabe: era um botão de rosa-amélia. Se o casal quisesse um compromisso, resolvesse noivar, era um cravo. Aí, o rapaz ia falar com o pai da moça. Eu sabia, eu tinha um dicionário escondido, minha mãe pegou, p’ra poder ainda ter p’ra dar as provas, eu comprei por 5$000 numa livraria, dicionário que tinha de tudo, de tudo, de rosa. Eu sei que, de mim, que eu passei quatro anos namorando com um rapaz, virgem donzela, ele de lá e eu de cá.
As moças casavam virgens e as que não era virgem, no outro dia, era entregada aos pais. Não é que descobriu, é, se viu, se ela enganasse, porque tinha moça que enganava o rapaz, era ofendida e tinha medo de falar aos pais porque nesse tempo, não se falava em estupro não, era ofendida, agora é qualquer coisa, estuprou! Ave Maria! Elas não sabem o que que é estupro. Os rapazes, casavam já na moda, ‘viu? Às vezes, tinha rapaz que até 20 anos, ainda não gostava da devassidão, eram mais calmos mas as moças, a maioria das moças casava tudo donzela.
Havia casos, muito escolhido, de se casar grávida porque eu fui uma delas, porque o pessoal falava muito de mim por causa das brincadeiras, ‘viu? Quem dançava Lapinha, essas coisas, Virgem Maria!, não era mais moça, o povo falava demais, dizia tanta coisa! Então, eu namorei, namorei, depois, ajustei casamento com esse rapaz e foram dizer a ele que eu não era moça e tal e ele ficou me canigando, me canigando. Um dia, nós tivemos tempo, pronto! Aí, ele casou comigo, minha mãe soube porque eu avisei mas eu enganei quando eu disse a ela, apanhei tanto!, aí, meu pai disse assim:
“Maria, eu tomara ver você bater mais em nossa filha! Ela já ‘tá com 28 anos, ela já está na idade dela, ela quer amparo. E deixa meu neto nascer vivo!”.
Meu marido trabalhava no Beco da Lama, perto do Palácio Potengi, numa oficina, como marceneiro, ele era mestre da oficina. Depois, ele saiu, foi tomar conta da oficina de doutor Gentil, depois de nós casados, que a oficina era ali, onde é hoje a CAERN, o Doutor Gentil, que era o prefeito, ele foi trabalhar, nesse tempo, logo, os americanos era aqui. Aí, ele adoeceu. Antes, ele não tivesse ido. Ele rendeu de umas hérnia, fez operação, da primeira, ele aturou e da segunda, ele só aturou três meses. Ele faleceu em 61, em 60. Ele era uma homem tão forte, tão bonito, tão limpo, meu marido! Era um homem muito limpo, muito sestroso.
Ele também gostava dos festejos quando eu botei vontade p’ra casar, deixei tudo, abandonei tudo. Os festejos, era tudo de moça e rapaz mas… eu vou dizer a você, menino, se respeitavam uns aos outros, havia respeito! O rapaz respeitava a moça e a moça respeitava o rapaz. E a gente era amigo, colega, conversava mas tudo na simplicidade, tudo na delicadeza. Não era o que é agora, meu Deus, é muito diferente!
As pessoas que participavam dos festejos eram aqui do Areial, das Rocas, destes cantos. Eu brinquei Lapinha, Capelinha de Melão, brinquei Chegança. Eu olhei Congos, Cabocolinho, tudo isso havia no meu tempo… mas dos Congos, eu aprendi a primeira parte, Cabocolinho, não aprendi nada.
Tinha também Boi de Reis, Ave Maria!, nós morava aqui, no Areial, a gente dizia assim… Eu tinha um, que a gente era primo de fogueira, que neste tempo, na véspera de São João, se usava os primos, os compadres, mais os afilhados, era aquela folia. Aí, ele chegava e dizia, ele sabia que eu gostava muito, era eu, era Maria Passarinho, era um bocado de moça, ele dizia assim:
“Minha prima, vamos fazer uma vaca p’ra mandar buscar os reses?”
– Vamos.
Eram os reses. Quando não eram os reses, era cantor, cantador de viola. Mandava buscar p’ra gente passar a noite. Agora, ele era dono de bote, mandava… trazia aquela danação e aqueles avoador gordo e agulha p’ra mamãe assar, p’ra passar a noite comendo com farinha e bebendo cana, fazendo parede. Quem bebia mais eram os homens. Moça, neste tempo, não bebia cachaça, tomava um vinhozinho. Agora, eu nunca bebi nada. Neste tempo, moça não fumava cigarro, fumava cachimbo. Ave Maria!, que… a moça fumar um cigarro, era uma desmoralização neste tempo.
Os festejos de que eu participei eram mais de Natal e em São João, a Capelinha de Melão. Era a mesma, as pastoras mas era diferente, ‘viu?, era o nascimento de São João, era pouca jornada. Brinquei uns dois anos a Capelinha de Melão. A Lapinha, a gente começava a ensaiar quando, em comparação, hoje, é véspera de São João, esse mês que entra, a gente começava a ensaiar a Lapinha, já no meio do ano, porque tem drama, tinha duetos, tinha muita coisa p’r’as meninas aprender porque a gente brinca a Lapinha mas não aprende a Lapinha toda porque cada qual tem sua parte p’ra fazer. Apresentava na véspera, dava um ensaio geral na entre-véspera, faltando dois dias p’ra véspera de Natal, a gente dava um ensaio geral, que era p’ra preparar o presépio, preparar a casa e p’ra dançar. Qualquer canto que chamasse p’ra representar, a gente ia. Ficava representando até o final de janeiro. E adepois de janeiro, no dia 1º de fevereiro, a gente fazia o Queima. Pronto, o Queima era… umas duas jornadazinhas. É, essas palhinhas, a gente queimando e a gente dançando ao redor, tudo com um lenço, chorando; fazendo que ‘tava chorando, e a gente chorava mesmo.
“Adeus, adeus meu menino, / adeus que eu me vou, / até para o ano, / se nós guardou. / Adeus meu menino, / adeus São José, / até para o ano / se Jesus quiser”.
Entre o final da Lapinha e o recomeço dos ensaios, a gente ia cuidar de ensaiar Capelinha de Melão mas era mais poucos meses porque eram só umas duas jornadazinhas, só p’ra festejar, a gente fazia o altar de São João p’ra festejar e algumas famílias que gostavam diziam:
“Vocês vão brincar lá em casa”,
a gente ia, era… doze moça, era a mesma coisa de Lapinha. Todas de vestido branco e faixa encarnada, vestido branco e faixa azul, as faixas largas, os laços bem bonitos; era uma coisa bonita, vestido de folha… de folha ou de babadão, aqueles vestidos de cambraia branca, bem rodado.
Quando convidados para se apresentar nas casas, Ah!, a gente recebia era lanche p’ra fazer. A velha ia com uma cesta e trazia às vezes cheia de bebida, bolo… Agora, o pessoal que tocava era Tião, era Joaquim, Zacarias, era Antonio, às vezes Antonio Carolina, Enéias, Luiz Talquino, era quem tocava, gostava muito de tocar na Lapinha.
No carnaval, nós trabalhava no tecido. O senhor sabe que tinha a seção das mulheres, agora, das moças, era só nas espoladeira de tear, era só moça jovem de 16, 17, de 11 anos, de 14. Aí, quando ‘tava, era o Carnaval, a gente dizia assim:
“- Vamo… como é que tu vais fazer tua fantasia no dia? – Eu vou fazer meu avental verde e amarelo”,
a outra dizia
“Eu vou fazer amarelo e encarnado”.
A gente fazia aqueles aventais de cigana. Comprava aquelas esterlinas e botava numa diadema tudo em volta, cheia daquelas esterlinas, cada um brinco assim de esterlina, vinha própria p’ra o carnaval, p’ra botar nas orelhas. Agora, quem tinha o cabelo grande fazia duas tranças, como meu cabelo batia aqui, eu fazia duas tranças, botava um laço de fita de um lado, botava outro de outro e botava um lenço na cabeça, com as esterlinas. As esterlinas eram moedas douradas porque faziam mesmo já próprias p’r’o carnaval, que a gente comprava barato, comprava aqueles cordões assim e aquelas voltas de ajofre, sabe o que é ajofre? Era uma continha assim, amarela, que tu dava duas voltas no pescoço e aqueles aventais, aí, ficava tudo caprichado, ‘viu?
Aí, nós ia na praça, aquela, Tavares de Lira, era o posto, começava às 7:00 hs. os carros… Neste tempo, foi quando começaram a usar logo, não era carro, era automóvel nesse tempo, era tudo preto, os carros. Agora, em cima, aquele pessoal, aqueles rapazes, tudo em fantasiados, tudo com aquelas roda de selpentina e lança-perfume, sacudia quando a gente ia passando assim, tocando as marchas, um coreto lá em baixo e outro cá em cima tocando aquelas marchas e a gente naquele passo ali, Ave Maria!, era uma coisa doida. Era rapaz e moça. Aí, aí, isso aqui da gente chega a ficar queimado de lança-perfume, quando a gente via era a danação… Aí, a gente ficava ali bem uns quinze minutos, brincando lança-perfume e eles de lá, sabe?, laçando umas selpentinas, era muito bom e muito bonito e muito respeitado. Era…
Agora, a escola de samba, eu acho bonita a escola, meus filhos tudo é sambista.
A primeira escola de samba daqui do Areial… aqui, tinha… ‘per’aí, começou… era “Dois de Ouro”, “Pinto Pelado”, “Remadores”, “Cabinda Velha” daqui do Areial, depois, esqueceram. A “Turma do Morro” foi a primeira escola de samba de dentro dos bairros das Rocas, em 48. Depois, no outro ano, foi a “Só Falta Você”, lá embaixo, na rua de São João. Quem era o presidente dessa escola… eu acho que era Belo, era Belo…
Ah!… a Semana Santa! Havia procissão todinha. P’ra começar, depois do carnaval, porque o carnaval era um princípio, ‘viu?, é, embora que o povo diz que é muito pecado mas tem que entrar na história porque é… é os judeus em procura de Nosso Senhor, tudo na folia, tudo na….só pode ser o carnaval, não é? Como na Semana Santa, a primeira procissão, antigamente, era só para os homens, era tudo de lanterna acesa, em volta da igreja, procurando Jesus e as, chamava-se a Procissão do Encerro. E depois, a Procissão do… do Senhor dos… dos Martírios, que descia aqui p’r’o Bom Jesus, se fazia em ca…, na porta de Adilon Garcia, fazia um passo, era um altar. De frente à grade oeste, era um altar na… na frente da… da Capitania dos Portos, era outro altar e outro no Palácio Potengi, outro na porta de ‘Zé Freire, que era o maior católico do Rio Grande do Norte, vocês ainda conheceram, ali, na rua Norte. E um na porta de Odilon Garcia, que era aí na Rua Sachet, era… era o primeiro.
Havia grandes procissões na Semana Santa, grandes mesmo. Ah!, representava os Passos da Paixão de Cristo tudinho. Apresentava a Verônica, São Miguel, Madalena, representava tudo. Agora, não acho que façam completamente, faz, parece que… Tinha Procissão dos Passos antiga, saindo daqui do Bom Jesus, subindo p’ra fazer o encontro, lá de frente ao Palácio Potengi! Ela ainda existe mas não é como antigamente, é diferente. E tem a do Senhor Ressuscitado, que era a procissão das 5:00 hs. da manhã, que ele sai na procissão. Meu Deus do Céu!, eu me lembro até do funeral, nem este funeral fazem mais, era
“Lararará Lará Lará / Lararará Lará Lará”.
Neste tempo, quem era o mestre da música era Felipe, era a Banda da Polícia, neste tempo, era muito boa, saía com todas as procissão; aqueles funeral penoso e a gente andava a procissão todinha naquele compasso. Não fazem mais as procissões do Bom Jesus, das Dores. Faziam a Procissão de Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora do Carmo, agora, os padres não querem mais fazer.
No Domingo de Ramos, tinha procissão ao redor da igreja. As pessoas levavam os ramos, o padre benzia, p’ra o padre benzer.
Eu fui católica demais porque… Uma, que eu tive duas irmãs religiosas. Minha mãe era muito católica, minha mãe era da família de Cundinho, um senhor que tinha uma loja de santos aqui. E ele era muito católico e a, a filha dele, é, era também do Colégio Imaculada Conceição, Edelvita.
Eu estudei três anos no Colégio Imaculada Conceição, no, Dona Raquel foi quem me arranjou no colégio das pobres de Maria Auxiliadora. Eu, depois, eu num pude mais que eu tinha precisão de trabalhar, minha mãe muito pobre, sozinha, meu pai cego, eu num pude mais estudar, eu tinha uma grande vontade de estudar mas não pude mais.
Eu estudei numa escola particular para aprender as primeiras letras, o ABC, e depois o colégio, lá, passei três anos no Colégio da Imaculada. Ele era ali na Avenida Deodoro da Fonseca, num tem o hospital? Era ali, junto do hospital das crianças, por detrás do Colégio da Imaculada Conceição, das ricas, porque tem o lado das ricas e nós era de Maria Auxiliadora, das pobres. Era só menina pobre, era separado, do lado de cá. Nós não pagava nada. Às vezes, a gente era até auxiliada por elas. Eu fiz minha primeira comunhão e quem me deu… quem fez todo o meu enxoval foi Dona Raquel, a filha de dona Inês Barreto. Ela gostava muito da minha… da minha tia, que trabalhava na casa dela, e gostava muito de mim. Depois, ela… foi transferida p’ra Manaus. Ainda depois dela estar lá, ainda escreveu três vezes p’ra mim. Mas ela morreu, Dona Raquel, Dona Carmita. Na casa, Dona Carmita, Dona Mocilene, Dona Maria e as três foi religiosas: a Maria Marta, Maria Matilde e a dona Raquel.
Os rapazes aqui do Areial trabalhavam em oficina, porque tinha oficina mecânica e tinha de marceneiro, aquela lá da frente, da entrada do lado de cá. Aquela ali, era… e, e aquele armazém que tem do lado de lá das docas, era almoxarifado de guardar ferramentas. Trabalhavam também no cais, antigamente, eram as docas. Aquilo ali… era um mar… e tinha o… o… o trapicho, que aonde encostavam os navios, que tinha muitos navios. Os navios de guerra ficaram encostados ali, como o Deodoro passou três meses, o Deodoro, a Bahia. O Benjamin, ‘teve aqui, o Benjamin Constant, ficou lá fora, p’ra, p’ra, pouco, n’é?, o Deodoro, o Bahia, e, e o Baruave, que era o rebocador, que era navio de guerra, o Rio Branco… E os… e os navios de casa ficava lá no cais, tudo ancorado. Eu tinha um filho que trabalhava de sapateiro a bordo, quando chegava os navios, vinham buscar ele aqui em casa p’ra ele botar meia-sola, p’ra ele ajeitar sapato. Tinha vez que ele passava dois, três dias, quando o navio ‘tava aí no porto, trabalhando lá.
O senhor ‘via um apito de navio, a coisa mais bonita da vida, navio que tinha apito de sereia. O povo, às vezes, duvida. Minha gente, eu sou nascida e criada aqui! Nesta barra, entrou toda qualidade de navio. Quem era o… o encarregado da… como é, meu Deus?… da Companhia Lloyd Brasileira era Odilon Garcia. O marido da minha tia chamava-se Antério, ele era português, era quem içava a bandeira quando os navios vinha lá fora. Ele… nós morava lá na… nós fomos morar… quando tiraram a casa de meu pai daqui, as primeiras casas que foi feito na Campos Pinto, foi uma de meu pai, lá em cima, junto do morro. A gente ia olhar, o navio vinha lá fora, ele olhava… a gente olhava p’ra, p’ra torre e dizia:
“Virgem Maria!, já ‘tá botando 52.”
Eu dizia assim:
Quanto é 52?
Ele dizia assim:
“É uma bandeira verde, uma amarela e uma encarnada e uma branca.”
Botar 52 era quando o navio vinha lá fora. Quando o navio estava perto da barra; ele me ensinava tudo porque ele ia descansar, p’ra eu ver, p’ra dizer a ele. Aí, quando eu… ele dizia assim:
“Quando botar 12, você me liga.”
Aí, eu olhava p’ra 12, ‘tava a verde, a amarela e a encarnada, era assim. Eu dizia:
Chega, Zazá, que já botou os 12.
Aí, ele se levantava e dizia, ia p’ra, p’ra, como é, meu Deus do céu, como era?
Nesse tempo, não tinha televisão, já tinha, quer dizer, quando eu me casei, já tinha rádio. Meu marido preparou uma radiola mas… a radiola de pé, ela deve ‘tar aí. de corpo grande, ele fez o móvel muito bem feito e acertou o gramofone. Lá na sala, tocava… Era com… tinha… era… era… era como uma gramofone, era… Pois era embaixo, era diafásico, era diafásico. Ainda tenho umas músicas na cabeça, algumas. De Carmen Miranda, parece que é de Carmen Miranda. Me lembro bem de… que tocava num…
“Numa noite de inverno / de mil coração / A quem uma ponta de luz / com um um Cristo na mão. / Olha a volta do bambalelê ,/ bambalalá, / a volta do elebambá. / Ai, minha titia, / como é sabida, / traga dinheiro p’ra pagar a bebida. / Ai minha titia / como estás zangada / traga dinheiro p’ra pagar a bicada”.
E a outra, O Jatobá, gostava muito:
“Quando, quando nós se namorava, / antes de nós se casar, / na rede nós balançava, / bem baixinho se largava, / ia indo, ia indo, ia indo sem pensar / lá, lá, lá, lá no pé do jatobá. / A rede velha comeu foi fogo / p’ra lá e p’ra cá / p’ra lá e p’ra cá”.
Eu cantava muito, balançando com os meninos, estas músicas. Gostava de cantar.
“Você está vendo esta casinha simplesinha, / Você está vendo esta casinha simplesinha, / dentro, um pé de cambucá?”.
Não, agora já me esqueci.
“Você está vendo esta casinha pequenina / junto ao pé de cambucá / porque ela…”
Me esqueci.
Depois que parei de trabalhar fora, foi muito difícil, eu deixei de trabalhar quando ele morreu. Ele não queria mas eu queria, que o senhor sabe que quem se acostuma a trabalhar desde criança, não pode ficar parado. Eu ‘tou nesta idade mas não posso ficar parada, os meus filhos brigam tanto comigo, não teve jeito. Até hoje, trabalho em casa. Gosto de lavar meus… minha… minha profissão quando eu deixei a fábrica de tecido, lavar e engomar, na escola. Na Escola Doméstica, eu lavava, na lavanderia, e engomava. Lurdes é quem passa agora, que eles não querem que eu engome mais.
Não aprendi a costurar, não. Mandava fazer, toda a vida paguei p’ra fazer as minhas roupas. As coisas que eu gostei de fazer foi fazer renda, anutilho, o rodapé de bordado, uma coisa assim, que eu aprendi no colégio; mas agora, não tenho mais vista porque se eu tivesse vista, eu tinha era renda à vontade p’ra fazer dinheiro. E anutilho.
Minha mãe botava nós p’ra fazer tudo, até p’ra torrar café, que é a coisa mais difícil é torrar café. Torrava o café, ela botava o caco no fogo e ficava, botava,
“Fica aí”,
e eu ficava mexendo. Ela vinha, olhava,
“Ainda não ‘tá bom de botar açúcar não.”
E eu, chega me dava suor, e avexada p’ra trás. Mamãe, venha reparar!, quando o café ‘tava bem rubro, ela
“Agora bota o açúcar!”, e ficava mexendo.
Aí, ia, quando ‘tava queimando, dizia
Mamãe, já ‘tá queimando!,
ela dizia
“Não está bom, não!”.
Fazia assim com a apalpa no café, ‘tava fiando aquele mel, aí, ela tirava o caco e eu ficava mexendo. Aprendi a fazer muita coisa, minha mãe me ensinou a fazer. Depois, a gente ia pisar no pilão, era pisando e peneirando aquele café tão gostoso. Ela dizia
“Agora, eu vou fazer um café donzelo”,
aí, botava a chaleira no fogo, com a água quente, o café donzelo, este quando se torra e que se pisa e que se faz o café. Mas não se côa, deixa o pó cair. Não, mas mamãe coava, mãe nunca gostava. Café com pó, ela dizia que ofendia. Ainda hoje, o café meu há de ser coado. Isso é, eu tenho uma filha que ela diz assim,
“Eu vou fazer café de rapariga”,
eu dizia, é, é o café que deixa assentar, é, ela que já ‘tá dizendo que é preguiçosa. Eu não gosto não. Eu tenho as minhas tias, não gosta de, não gostava de coar não mas mamãe gostava de coar demais. Toda a vida, ela possuiu um pano de café ou uma bolsa.
Tive oito filhos, oito riqueza, oito. Tive em casa, quase, bem dizer, no trabalho. Eu, bucho assim, descia p’ra escola, aí, quando ela dizia
“Mulher tu não vai, que tu vais…”, “Eu vou!”.
Quando eu dava fé, me dava as dores, aí, eu participava dona Amarilde. Um, eu tive, um foi no tempo de Dona Emiliana, outro, foi no tempo de Dona Alice, todas eram boas p’ra mim. E o derradeiro, o derradeiro foi no tempo da… Vinham me deixar em casa. Quer dizer que morreu três, ‘viu? Morreu José, o segundo filho, morreu a terceira filha, morreu a quinta p’ra trás. Eu perdi… morreu três filhas mulher e um filho homem. É eu vou dizer, eu tive meus filhos, ‘tá tudo sem saúde, menino. E eu dou graças a Nosso Senhor, eu num, num sou infeliz por isso não. Este aqui começou a brincar escola de samba com 14 anos, este parece que com 12 anos começou… Às vezes. só ali, ficava tudo na sala tocando violão, cantando frevo, de violão.
Ainda vou à igreja. Agora, estes dias, não fui porque este pé ‘tava muito inchado, me doendo, eu não podia andar daqui p’ra ali, só dentro de casa, aí, eu vou ali.
Falar, lembrar das coisas é um dom que Deus me deu. A vontade que eu tinha de ser, minha mãe cortou, não deixou eu seguir. Eu tinha vontade, quiseram me levar, uma companhia que ‘teve aqui, de teatro, p’ra que eu representasse, cantar, que eu sempre cantava. Aí, quiseram me levar para o teatro e minha mãe não deixou.
Sobre a festa de Ponta Negra, de São Sebastião e São José, Ponta Negra, nesse tempo, não tinha casa, era a praia, era a rainha do Rio Grande do Norte. Eu fui em Ponta Negra agora – arrasada! Mataram Ponta Negra, acabaram com o morro, acabaram com a praia que a gente sambava, dançava p’ra poder subir, p’ra ver lá.
A gente saía daqui a 1:00 h de pé, a 1:00 h da tarde. Era… A gente saia daqui a 1:00 h mas como a gente ia pagodeando, brincando, a gente chegava às 5:00 hs. da tarde. Às 5:00 hs da tarde, a casa do Migué Cocó era em cima, no alto, uma casa de alpendre, ele já ‘tava com uma panela deste tamanho de peixe bem apimentado, bem apimentado, p’ra gente.
Já tinha capela em Ponta Negra, aquela mesmo, perto do morro. Aquela capela era de São Sebastião. Era o primeiro santo que se festejava em Ponta Negra. E adepois de São Sebastião, era São José. Era sempre, que eu fui três anos àquela festa. Era Eduardo Medeiros, era Antonio Carolina, Enésio, Luiz Tarquínio, era meu padrinho João, era aqueles, madrinha Antonina, Luísa Tamanduá, Amália Corrêa, Severina Sabino, era Sebastiana Neves, era Laura, era moças à vontade nas festas de São João e a mais nova era eu, que ia nos bailes, Joana Dora, isso tudo nós ia de pé, aquele grupo, p’ra Ponta Negra.
A festa de São Sebastião era no dia, sempre no dia 20 de janeiro. E de São José, no dia 19 de março.
A iluminação da praia era aqueles feixo de vara, tudo bem juntinho. Era… aqui era um, acolá era outro, cheio daquelas funchas, aquando era de noite, tocava fogo, a rua ficava toda clara, até perto da igreja, um carvoreto, nas portas, lá um carvoreto nas portas. Ficava aquelas tochas, aquela soleira, aquela…, era muito bonito. Tinha uma casa aqui, tinha, aquela rua de casa mesmo, ainda ‘tá desde a Rua…
Ave Maria!, a gente ia p’ra cantar e dançar ao som da sanfona, clarinete, violão, violino, só não tinha esse negócio de batuque, não! Era violão, sanfona, clarinete, baixo p’ra… Porque já viu, n’é?, o Eduardo Medeiros, Luís Tarquínio, às vezes, José de Mamãe, tudo tocava junto.
A gente passava era a noite acordada, sambando pela rua, a rua… Pegava o sol com a mão, até 7:00 hs do dia. A gente passava às vezes três dias. Tinha vez que a gente passava uma noite acordada p’ra mode que no outro dia, vinha tudo embora, tudo ressacado, de praia afora. Quando a praia ‘tava cheia, ali nos pés da barreira, a gente passava por cima.
Agora, um tempo destes, eu digo: eu vou olhar Ponta Negra. Ah, Meu Deus!, o que fizeram de Ponta Negra é casa de recurso. A praia … a praia ‘tá acabada e o morro até vermelho ‘tá ficando. A areia era alva, já desmataram, já acabaram, já mataram a praia. Ela botava aqueles flocos brancos, bonitos quando vinha aquelas ondas. Era uma coisa linda, Ponta Negra, aquela praia limpa.
“Ponta Negra de antigamente / Aqui me vês sempre abalar / Passo na praia com a cor da agenda / De espumas alvas da beira-mar”.
Este foi de Eduardo Medeiros. Ele fez a música da, da “Canção do Pescador”, que é mais conhecida como “Praieira”, e a letra é de Othoniel Menezes. Conheci eles dois, conheci. Eu tenho poesia até de Itajubá, eu recitei ele, eu recitei duas poesias, não sei se saiu na Tribuna do Norte. Saiu uma parte, O Fidalgo e a Fidalga e uma de Othoniel, era a roedeira que a mulher, dizem que ela foi fácil a ele e ele bebia demais. Só sei que ele namorava com uma colega minha, e nós ia p’ra lá, p’ra Central, que ele trabalhava na Central, quando o tecido parava, que a gente saía p’ra almoçar, a gente se danava p’ra lá p’ra Central, p’ra conversar mais ele.
Ora, aqui no Rio Grande do Norte, tinha os grandes poeta, um era Othoniel Menezes e o outro era Itajubá! E a mais bonita de Itajubá é de Othoniel… tem Pedro Piloto, tem Santo Filho, tem Diomédio mas as poesia mais bonita é desses homens. Eles declamavam e a gente apanhava nos jornais. Saía n’ O Prego, nesse tempo tinha O Prego, que era o jornal dessas coisas da cidade, chamava-se O Prego. E a gente aprendia…E nas festas, elas eram declamadas.
Essas coisas de Candomblé, no meu tempo, não se falava não, era só… se falava numa parte de uma religião que eu ‘tou cansada de dizer a Presbiteriana e essa… Assembléia de Deus, que é as religiões mais antigas do Rio Grande do Norte. E adepois, haja religião p’ra cima!, de toda qualidade que eu, ah!, eu era moça, eu gostava, que eu dizia, eu dizia e digo, aonde tá o nome de Deus, ele está presente.
Eu assisti parte da Assembléia de Deus e da Presbiteriana, tinha uma vizinha que dizia assim:
“Marica”
– que ela chamava mamãe Marica -,
“Marica, deixe as meninas ir mais eu para o culto.”
Mamãe dizia:
“Elas vão, vão, vão se preparar.”
A gente se preparava e ia mais dona Maria de seu Vítor. E p’ra Assembléia de Deus, a gente ia mais dona Olindina, depois, ela passou p’ra religião Católica, morreu na religião Católica novamente.
Eu nem me lembro nem nunca assisti estas coisas de terreiros de catimbó, não gosto não. Sabe de uma coisa? Não dou valor, não. Não dou, não. Eu tenho esse camarada, meu filho Manuel, que ele gostou disso, isso, esse aí gostava de uma macumba, ah, macumbeiro!, mas eu nunca gostei. Não gosto não, porque os filho da gente, a gente tem que dar regime de pequeno, a gente bota no caminho. Agora, depois de homem, eles seguem o caminho que quer, ninguém pode proibir, não é? Eu botei tudo p’r’o meu caminho, todos eles são batizados, fizeram a Primeira Comunhão, a inspetora, teve uns que foram até de Congregação mas adepois de desenvolver, cada qual procurou seu destino, um quer ser espírita, outro quer … e o outro não quer ser de nada, pronto!
Meu pai ficou cego com 35 anos. Quando meu pai cegou, p’ra sobreviver, minha mãe trabalhou. Ela mandava comprar duas cuia de milho, nesse tempo, nesse tempo, sabe quanto era? Era dez litro de milho, um pilão desse tamanho, da boca grande, duas mão de pilão assim. Ela tirava a palha daquele milho, tanto que meu pai…. ela tirava a palha daquele milho…Ele, como cego, tirava a palha daquele milho todinha, ela sacudia. Olhe, parece que, não sei, meu Deus, parece que era Deus que dava aquela resistência, força p’ra ela. Aí, a gente, uma sentada aqui, outra ali, outra acolá, cada uma com uma urupema tirando de grão em grão, catando, tirando o ouro. Tirando ouro. Quando era mais tarde, ela lavava aquele milho todinho, quando acabava, botava numa panela assim e cozinhava. Aquela água quente, botava dentro e encobria. Quando dava 12:30, ela não se levantava às 12:00 em ponto que ela dizia que as almas ‘tavam fazendo penitência, p’ra num ‘trapalhar as almas, deixava passar a hora de 12:00. Quando passava às vezes 12:00, dava 12:30, ela, papai dizia
“Vamos, Maria, ‘tá na hora, as almas não ‘tão mais… o galo já cantou, levanta!’”
Quando o galo cantava a primeira vez, ela dizia que as almas passavam aí. Papai ia ficar, mas de repente, parece que era Deus que ajudava, quando dava 5:00 hs da manhã, aquela, aquele milho tava virado todinho. Agora, ficava aquela… aquele xerém… fino Agora, daquele xerém, ela botava p’ra cozinhar, fazia bolo de xerém. Fazia aquele panela, mexia, mexia, chamava-se arroz de milho. Ai, o povo gostava muito! Ela botava açúcar, botava erva-doce, ficava cheiroso, gostoso, a…
Ela vendia em casa mesmo e a gente ia levar, eu… ia p’ra detenção com um tabuleiro assim. A detenção era aqui, já tinha aquela freguesia, saía com um tabuleiro as 6:00 hs da manhã. Era esquisito, ô, tão esquisito, que quem vinha me buscar era um soldado, todo tinha por obrigação, vir me esperar na boca da mata p’ra atravessar, p’ra ir lá p’ra detenção, todo dia, todo dia.
Na fábrica, tinha muita moça, muito rapaz, muita viúva, muita mulher casada, marido. Trabalhava mulher casada, marido, os filhos tudo, à vontade, era p’ra Deus e o mundo. A gente saía… chegava às seis da manhã saia às onze p’ra almoçar, entrava às 12:30, 1:00 h e quando era 6:00 hs, a gente saía p’ra tomar café. Entrava novamente e saía às 10:00 da noite. Tinha mestre, tinha gerente, tinha tudo. E desse tempo, quando se dava um desastre, tinha que cortar um pé ou uma mão, o tratamento era dentro mesmo no escritório, tinha enfermeiro, tinha médico, tinha tudo. Tinha dentro mesmo de trabalho, tinha um escritório do médico.
Da Guerra de 1914, 1918, eu tenho lembrança que o marido da minha tia trazia as revista assim, amostrando os aviões de toda parte da Itália, amostrando o povo brigando, ela tinha já uma ruma assim, que a gente trabalhava. Ambrósio, ele era… marido, era estivador e trabalhava com… Ele era sinaleiro.
O pessoal não tinha medo de que a guerra chegasse aqui não porque… ficou três, ficou três criatura, três embarcadiço, que a maioria dos embarcadiço era quase tudo aqui das Rocas. Sisteme, Canafú, Mário de Aquino. Manoel Ceará, Elfídeo, um sobrinho de Câmara Cascudo, tudo ficaram na América, os navios ficou preso, passaram, foi… foi cinco anos, durante toda a guerra.
Na outra guerra, esse menino aí ‘tava com dois anos. Porque, eu aqui… proibiram a….quando tinha o black-out… Era um aqui, outro p’ra banda do pátio, só sei que eles proseava, era… era muito bonito. A gente tinha que apanhar, a polícia andava de porta em porta, p’ra ver a casa que tinha luz acesa. Nesse tempo, não tinha luz elétrica, era… de querosene. Eu… ele era novinho, foi em ‘42. Aí, eu botava num frasquinho assim, enchia de gás e botava, não tem essas… essas bocas de garrafa de… de cerveja? Pois menino, furava o buraco, eu botava um pavio, botava na boca do tinteiro, enchia de gás, botava dentro de uma lata de gás, emborcava assim o lado p’ra parede, p’ra ele não ‘tar no escuro, porque ele era pagão… ainda.
A gente tinha medo de que houvesse bombardeio aqui em Natal porque o primeiro porto era aqui e todos… e todos acessórios. Aqui tinha… parece que três ou quatro batalhão, aqui, tinha o… o quarenta e nove, tinha o… o batalhão de Pernambuco, tinha o de Ceará, tinha o daqui mesmo, porque a Maternidade, não estava acabada, servia de quartel, aqui, na Maternidade, e o Forte.
Da presença dos americanos aqui, eu me lembro que, sabe de uma coisa?, que eu lavava a roupa das pensão, as pensão era cheia deles. Quando dava férias na escola, eu ia tirar roupa das pensão. E chegava lá, eles ‘tavam lá, as mulheres dizia assim: respeita minha velha, respeita minha velha. E eles, com aquela linguagem, com o maior respeito. Eles moravam no quartel, agora, quando eles ‘tavam de folga, eles ia. Tinha as mulheres próprias p’ra eles. Ah!, a mulher nesse tempo luxava, aqueles americanos… No Wonder Bar, aonde foi o….o primeiro palácio do Rio Grande do Norte.
Só podia ficar com os americanos as mulheres de pensão, as mulheres bem tratadas porque, bem tratadas porque as madame, todas as quinta-feira, elas tinham que ir p’r’o Centro de Saúde fazer exame. Era tudo examinada, todas quinta-feira iam lá. Na igreja, tinha os bancos separados p’ra elas ouvirem missa. Da pensão Estrela, da Balalaica e da Wonder Bar, que era as pensão… Lembro que às vezes, eu ia p’ra missa, elas ‘tavam tudinho, tudo decente, com aquelas roupas de senhora que ninguém dizia que eram mulheres… Neste tempo, as mulheres tinha respeito mas agora, nem elas tem, andam tudo nua aí. Vão p’ra igreja, não respeita a igreja, com aquelas roupas nojenta, ô coisa triste!
Meu pai dizia assim, ele se sentava num banco, ele queria muito bem à gente, sentava Mercedes de um lado e eu de outro. Ele dizia assim :
“Minha filha eu não vou alcançar não mas vocês vão alcançar. Um… um homem se esconder de sete mulher atrás dele e ele se esconder porque num dá vencimento, as mulheres vai ser mais do que os homem. As mulheres vai andar como gato e cachorro.”
Eu dizia assim:
Como é papai que gato e cachorro…?
” – Menina, como é que gato e cachorro anda, é assim que as mulheres vão andar é nua no meio da rua.”
Eu dizia assim:
Deus me livre, eu tenho fé em Deus que eu não ando nua nunca!
Ele dizia assim:
“Você não vai andar não, mas vai alcançar. Eu não alcanço mais não. Vai alcançar os ferro falar, voar.”
Eu dizia:
Vôte, como é que os ferro vai falar?
Ele ainda alcançou. Ainda alcançou gram…, a garacunfone, que neste tempo chamava garacunfone, era fonógrafo, depois, começaram a chamar fonógrafo, depois começaram a chamar radiola. Ele alcançou ainda, tudo é ligado às maravilhas e avião. Aí, ele dizia assim:
“Eu não lhe disse, Nazaré, como era, já sabe como é que o céu fala?”
Aí…
Nessa época da guerra, desciam aviões ali perto do Canto do Mangue? Eles já ‘tavam preparando essa base aérea, que o meu marido ainda foi transferido p’ra Parnamirim mas ele aturou pouco tempo, foi o tempo que ele adoeceu. Ele começou no hangar. Quando botaram esses… esses tanques de óleo aí, incendiou o mundo, queimou muita gente, aí, nos Santos Reis, em frente à casa de uma conhecida minha que se chamava Margarete. Quando ela foi saindo, a golpada veio, encobriu ela dos pés à cabeça, queimou, ela caiu. Isso já foi bem depois da guerra.
Essa Igreja dos Reis Magos, essa igreja percorreu ali três cantos, era quase… o Forte era como aqui e ela como lá no fundo do meu quintal. Um pé de coqueiro bem na frente, que era mode maré cheia, não sei bem… que quando bateram, tiraram, botaram ela num alto, a frente era p’ra lá. Aí, inventaram a botar esses tanques de óleo e tiraram ela e botaram ali onde está. Agora, a frente é p’ra lá mas a frente dela era p’r’o mar…
Aquele Forte, inda tem as casas. Aquele Forte era bonito, era limpo e da véspera de Reis p’r’o Dia de Reis, o baile ‘tava formado ali na casa de Chico de Castro, que nesse tempo era o faroleiro, ele gostava muito de samba de carnaval, se ajuntava ele e Amália Pinheira e levava a gente p’ra lá e a gente passava a noite dançando, uma pipa deste tamanho, cheio de vinho, o barril, a gente dançava, era um baile.
O Forte não tinha aquela passarela que existe hoje em dia , aquilo ali… aquilo ali matava um afogado. ‘Tá enterrado, ‘tá tudo enterrado. Tiraram as salsa, tiraram as cercas, tiraram os morro, botaram casa, o vento chegou. Até a Barra, que… que hoje em dia tem… aqui, nunca entrou navio, aqui? Nunca entrou! Ai meu Deus!, meus filhos alcançaram navio entrando, navio entrando aqui. De manhã bem cedo, aqueles navio…
Na época da guerra, a derradeira turma de soldados brasileiros que foi a que foi noivo, que foi o noivo da minha irmã, era noiva, era noiva, era noiva de um militar quando ele foi p’ra… Monte Castelo. Ele passou dois anos. Ele agora é pracinha. Ele era Procurador de Minas. Mas, esses homens veio tudo doente, ‘viu? Ele não teve mais saúde não, ele tem angina, trauma de guerra.
No tempo em que o Djalma Maranhão foi prefeito de Natal, bem poucos festejos ele fez, que ele não teve tempo, não. Abafaram logo ele. A campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, fez uma lá nas Rocas, na esquina de frente aonde era o Café Veloso, na entrada da rua São João, fez uma casa, aqui, ainda tem aquela casa, num tem? Achava aqueles festejos bem feito. Djalma Maranhão, eu era muito pequena mas eu vi ele rapazote e vi jogando futebol. Olhe, ele foi um dos fundador, porque… é, eu num gosto de falar não porque…. pode ser que digam que é minha mentira mas ele foi um dos fundador do ABC de Doutor Vicente Faracho, que não se fala mais nesses homens. É… foram os fundador do ABC, foi Djalma Maranhão, foi Zé da Serra, foi Dr. Vicente Faracho, Nazinho de Goró, Manoel Pé-de-Ouro, gente, uma porção deles, deve conhecer tudo.
Me lembro do tempo em que ele foi prefeito, o meu menino era que cantava na posse dele. Ele cantava na campanha. Fernando Tovar cantava nas campanhas de Aluísio Alves e Djalma Maranhão. É meu filho.
Os festejos natalinos ‘tá tudo morto, não há mais, o que eu achava mais bonito que era no canto assim do meio da rua, todo mundo olhando à vontade, era Congos, era Capelinha de Melão, Reis das Moças, meu Deus!, era um bocado de moça e rapaz, tudo tocando violão, na casa dos conhecidos já sabia, fechava as portas, quando a gente chegava tocando e dançando, cantando aquelas toadas:
“Essa casa tá bem feita / por dentro, por fora, não / Por dentro, cravos e rosas, / por fora, manjericão”. Aí, se a gente chegava, a porta estava fechada: “Ô de casa, ô de fora, / mangerona, quem está aqui, / é o cravo e a rosa, / e a flor do bugari”
A mesa já ‘tava lá dentro, posta, era tudo prato de barro. A comida era bolo preto, era sequilho, era raiva. Neste tempo, se usava uns cacetes assim, com essa comida e a mesa estava ali à vontade e as garrafas de vinho. E a gente batia na porta, quando abria a porta, a gente dizia:
“Essa casa tá bem feita por dentro / por fora não. / Por dentro, cravos e rosas, / por fora, manjericão. / Por dentro, cravos e rosas, / por fora, manjericão”.
Quando a gente chegava na mesa, era que sentava:
“Essa mesa bem cheia / é p’ra se comer, / essa mesa bem cheia / é p’ra se comer, / os copos com vinho / é p’ra se beber, / os copos com vinho / é p’ra se beber. / Nesta família animada que nós ‘tamos / vamos alegre cantar, / quem não canta, quem não toca, quem não bebe / não sabe a vida gozar. / Não haja tristeza, / não haja tristeza, / não haja tristeza, / vamos pandegar”.
Chamava-se Reis das Moças. Aí, quando nós saía, ia p’ra casa, já dançava toda qualidade, era coco-de-roda, era embolada, era contradança, era xote, era valsa, fazia aquela mistura, bambelô.
Na Lapinha, nós cantávamos:
“Dançamos e bailamos / hoje, neste dia, / em louvor do filho / da Virgem Maria”.
Agora, aparece a incrédula. Aí, a incrédula, eu só sei uma parte, a parte era da outra minha irmã, Elza, que eu já tinha combinado com ela, p’ra ela vir fazer comigo, que ela fez a parte do anjo, ela é quem sabe. A minha é só essa:
“Não posso crer no Messias, / não posso crer em Jesus, / e agora, fecundada, / então, refulgente de luz, / o seu nascimento esta noite, / sobressalto me causou / mas eu não posso acreditá-lo / porque tão incrédula eu sou”.
Eu sei até aí, a minha parte. Agora, faltava a dela, que era p’ra ela, a parte do anjo. É porque ela não acreditava no nascimento de Jesus. Penso que, depois do anjo, ela acredita.
Aí, chega os Três Reses, a parte dos Três Reses, e diz:
“A mística do galo / solta a voz maravilhosa / anunciando a Belém / cidade muito ditosa / porque nasceu Jesus Cristo, / filho da mística rosa. / Oh, milagre santo, / prodígio sem par! / E agora, vamos datar / um grande nascimento / do santo dos santos / em tão belo dia, neste Natal”.
Agora tem outro, meu Deus eu… “O tempo tão venturoso”, ai, é a entrada dos Reses.
“O tempo tão venturoso / o filho já era chegado, / que os profetas de Israel / já tinham profetizado, / enchei os pobres da terra / dos prazeres mais profundos / porque nasceu Jesus Cristo / para a redenção do mundo. / Ao ver Jesus no Oriente, / partiu os três reis apressados, / que por aquela nova estrela / foram à Judéia guiados”.
Aí, vão oferecer as ofertas:
“Eu trago camisas / para ofertar / a Jesus menino / lá em seu altar”.
Aí, responde o outro:
“Eu trago os paninhos / para enfaixar / A Jesus menino / lá em seu altar”.
E o derradeiro:
“Eu trago incenso / para defumar / a Jesus menino / lá em seu altar”.
Aí, cantam:
“Vamos, vamos companheiros / Vamos a Jesus apegar. / Com prazer e alegria / vamos todos festejar”.
Aí, já nas derradeiras partes da Lapinha, aí, cantávamos os campos:
“Pastoras belas, / colhei as flores, / enchei capelas, / os ananás, / abacaxis, / as melancias, / os sapotis, / gostosas frutas / nós também comemos / e lindas flores / neste presépio / nós também ornemos”.
Aí, chega a cigana:
“Somos cigana agreste / porque viemos a Belém / a louvar o Deus menino / a louvar o senhor também. / Ô meu senhores e senhoras, / prestem bem atenção, / quem não tem dinheiro / não vem à função. / Nós que viemos de longe, / cansadas de caminhar, / trazendo lindas frutas / e na praça vamos rematar”.
Aí, entra a arrematação das frutas. Agora, os dos ramalhetes.
“Quem quiser comprar eu vendo / ramalhetes de alecrim / que foram colhidos hoje / em meu amado jardim”.
E entrega aí.
“Já tenho os partidários” , p’ra o caso, a gente leva alfinete p’ra pregar logo, quando é assim, já está no bolso. Antigamente, se usava. São os namorados, vai ver, nem era namorado, era até colega. Agora, ali, ele reconfessa de um jeito que ele tem.
Eu comecei a namorar com o pai de meus filhos na Chegança. Ele gostava de olhar. E eu andava mais uma prima dele, que morava aí, nesta casa, Amélia. Ele vinha na casa dela. Eles se queriam muito bem, Manoel Otaviano gostava muito dele. Aí, eu comecei a namorar com ele. Aí, eu desprezei toda a brincadeira. Eduardo Medeiros perguntava:
“Salviano, cadê Nazaré?”
Papai dizia:
“Morreu!”
Ele dizia:
“Morreu sim, Eduardo, morreu p’r’o mundo”.
As moças quando começavam a namorar, abandonava tudo, as que gostavam de dançar – era eu, era Antonia de Horácio, Lúcia Dantas -, tudo isso casou, tudinho, tudo moça, deixavam toda a brincadeira. Agora, se a gente queria era os rapazes – a gente brincar junto, não podia mais namorar, não. Tinha que abandonar.
Se precisar mais de alguma coisa, se tiver tempo pode vir que do Rio Grande do Norte, ainda tem muita coisa. Tem muita coisa que dizem ai, que num é do jeito que dizem, é diferente. É que nem a “Praieira”, num tem quem cante “Praieira”, na música, e não tem quem cante o estrofe dela todo, quem sabe sou eu. Porque eu era colega do poeta e do músico, que era Eduardo Medeiros e Othoniel Medeiros. A “Praieira” foi nova em 1923. A “Praieira”, aquela música de Álvaro de Souza, “Astros Celestes”, aprendi tudo num tempo só. Eu gostava muito, gostava às vezes deles tocar, às vezes eles faziam uma farra, chamavam a gente, a gente ia. Na casa do Aluizio Tamanduá, na do Luiz Antonio, tinha um pátio lá de capim, um banco grande, a gente sentava ali, de frente à capela da Sagrada Família. Ali, era a casa de Maria e a casa de Rita Tamanduá, e a casa da minha comadre, a madrinha de Manoel, com o Carlinhos. Tiraram aquelas casa dali, p’ra frente da capela ficar livre. Luísa foi morar na Rua de São Jorge.
Eu não acho beleza, não. Nunca mais eu fui na praia. Eu? Tomar banho imprensada? Que antigamente, as ondas sacudia, chega subia o morro, botava dentro das salsa, quando a água aqui arrastava, a gente saía embolando, embolando, naquela areia alva, limpa, não fazia nojo. Mas agora, eu tenho é nojo, meu Deus me perdoe, o mar é sagrado, o povo não respeita! O povo não se lembra que o mar é sagrado, eles não respeitam mais nada. Toda safadeza fazem lá, um pecado. Eu fui numa praia uma vez, foi no tempo de Djalma Maranhão, quando fizeram aí, a Avenida do Presidente. Eu cheguei na praia, ‘tava uma vala ali, p’ra quê? E eu digo:
Olha, tão fazendo vala.
Que eu fui olhar, ‘tava um homem e a mulher, acolá dentro, eu digo:
Virgem Maria!
Eu voltei p’ra… mas antes não tivesse visto na beira d’água.
Na minha juventude, se tomava banho salgado, não era de folia não, era remédio. A minha mãe dizia assim:
“Eu vou dar uns banhos salgados em vocês, quando eu me desocupar.”
A gente ficava pulando de contente, pegava a gente e ia p’ra praia, ali, no Morcego. Ela chegava e dizia assim:
“Vocês se benzam quando for entrar dentro d’água.”
A gente dizia assim:
“Mar, doença eu trago, saúde quero levar”
e bota três golpes d’água na boca e se benze, p’ra poder ir tomar banho. Mas agora, Deus me livre!, aquela água não pode porque… por causa de tanta porcaria que eles fazem!
Eu vi três moças, vi três morte ali, nessa entrada aí, quando eu era solteira. Duas do orfanato morreram abraçadas mas agora, não dá mais p’ra o povo morrer não porque ‘tá tudo enterrado porque tinha uma correnteza assim, que entrava p’ra dentro, não houve quem tirasse essas moças. Tiraram elas já depois de mortas. As duas irmãs, Rita Madruga e Maria Madruga, lá do orfanato. Foi um Deus nos acuda. Depois, a freira, ‘tava olhando lá, acolá em cima, aí, bem de frente a Brasília teimosa, não tem aquele poço?, não tinha aquela laje de arrecife ali? Ali, ela caiu, irmã Balesta. Carminha andava num passeio nesse tempo, junto com ela. Ai meu Deus!, foi um Deus nos acuda, chegou no colégio já morta.
Agradecida fico eu de vocês terem me enxergado.

(Texto publicado no livro “Câmara Cascudo, Dona Nazaré de Souza & Cia.”, de Marcos Silva, EdUFRN).

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Eduardo Alexandre 30 de dezembro de 2011 12:41

    Tácito,

    esta foto é da antiga Escola Doméstica de Macapá.

  2. Marcos Silva 18 de julho de 2011 7:44

    Tácito:

    Obrigado pela bonita foto da Escola Doméstica. Lembrei, também, da pintura magnífica de Degas sobre passadeiras francesas do século XIX, apresentando o cansaço provocado por essa ocupação feminina.

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