“Espelho quebrado”: romance ou outro gênero?

A especificidade do romance não se resume a uma questão numérica. Assim, não basta que um autor escreva um texto ficcional de 200 laudas para transformá-lo automaticamente num romance. Um romance comporta aprofundamento dos seus caracteres centrais, quer em termos psicológicos, quer em suas contradições, vacilações, apostas existenciais etc. Comporta ainda sucessão temporal, idas e vindas, mudanças, digressões, experiências e aprendizados, acertos e fracassos. Histórias de vida, enfim. Mas histórias singulares, portanto únicas, embora guardem semelhanças com outras. Romance é, portanto, complexidade, interação, busca e conflitos. A leitura do livro Espelho Quebrado, de Lima Neto (edição do autor, 2010, 200 páginas) suscita esta questão: estamos realmente diante de uma narrativa de ficção, ou de um experimento literário diverso, o que quer que isso signifique?

Há um evidente propósito narrativo na tessitura de Espelho Quebrado, por si só uma metáfora que ambiciona resumir, na relação estabelecida entre essas duas palavras, o significado central do livro. E logo surgem obstáculos que o texto propõe ao seu leitor. Por exemplo, é possível contar a história de um adolescente abstraindo por completo a figura do seu pai, ignorando o papel central que um pai sempre exerce sobre a vida de um filho? Casos pontuais de pais falecidos – como o do livro –, não costumam anular, antes recrudescem os questionamentos pessoais dos filhos, relegados à condição de filhos sem pai, filhos em oposição ao pai, mas não de filhos sem referencial paterno.

Não é o caso, porém, do protagonismo de Gabriel (nome adequadamente angelical, como mostrará a narrativa), jovem de classe média que atravessa as agruras da primeira adolescência sem qualquer conflito interior, dificuldade de ordem material, crise de ordem metafísica ou dúvida psicológica sobre suas origens biológicas, seu lugar no mundo. No máximo, permite-se momentos de melancolia por razões às vezes explicitadas, outras vezes não. Afora uma paixão juvenil não correspondida, nada acontece de excepcional na vida do melancólico Gabriel. Mas, adolescente, não resistirá aos encantos de Renata, jovem de classe média, como ele, a essa altura um bem-sucedido executivo de uma firma próspera. Predestinado a obter placidamente tudo o que lhe agradar, Gabriel não enfrenta qualquer dificuldade na conquista da sua “cara metade”; pelo contrário, ela parece corresponder plenamente ao seu desejo. Embora à sua descrição escape qualquer elemento erótico, porque o mundo de Gabriel parece ser assim…

Sucede que Renata logo apresenta uma grave enfermidade cardíaca e só um transplante poderia salvá-la. Ora, Gabriel, o anjo, ouvira de um médico que “doar órgão é um ato de amor”. Resolve então de si para consigo que doará seu coração a Renata como prova a mais inconteste de seu amor. Como executar esse plano? Gabriel se ausenta da narrativa e logo surge um coração doado anonimamente para a enferma, salvando-lhe a vida.

Como esse estratagema foi executado? O cândido Gabriel teria cometido suicídio? Sua mãe, sogra, seus amigos não ventilam essa hipótese. Trata-se, então, de uma “licença poética” que precisa ser aceita pelo leitor, agora cúmplice de um jogo que deve ser visto apenas sob sua roupagem “romântica”: aquela que conta de uma autoimolação romântica.

Por trás de toda a trama, remanescem questões candentes não resolvidas: o egoísmo do protagonista, o sacrifício de toda uma vida de sua mãe que, embora empresária bem sucedida, não resolve a sua vida, vivendo sempre à sombra do filho único, depois de ter perdido o marido e o primogênito. Gabriel não receia dar esse golpe fatal em sua mãe, roubando-lhe, por meio de seu suicídio bem século XIX, o único filho que lhe resta, que é ele próprio? Relatos assim ficam mais bem colocados em formas narrativas sucintas, como ocorre naquele conto do hondurenho Augusto Monterroso, esgotado num único parágrafo: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Nada mais precisa ser acrescentado, porque a partir cada leitor circunstanciará os elementos narrativos ausentes. Um romance os descreveria.

Afora essas questões intrínsecas à estrutura romancesca, “Espelho quebrado” apresenta problemas não menos graves no que tange às questões de linguagem, como tautologias, formas verbais esdrúxulas, preciosismos, incorreções ortográficas etc. Essa dupla convergência de problemas torna o seu texto um verdadeiro antirromance, quer do ponto de vista narrativa, quer da linguagem.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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