“Let it be” do The Replacements foi mais importante do que “Let it be” dos Beatles pra mim

Por Felipe Hirsch
O GLOBO

Mesmo com todos os números dessa coluna, mencionei pouco, e não falei de forma mais satisfatória, sobre grandes nomes da música popular independente, que habitam uma espécie de limbo da história, mas que não foram menos importantes na minha formação. Arthur Lee e Bryan MacLean, do Love (FOTO), são dois deles. Scott Walker é mais um. Mas, principalmente, Alex Chilton e Chris Bell da “preferida de todos os alternativos” Big Star e, um dos meus grandes ídolos, Paul Westerberg, do The Replacements. Recentemente, vi um show do The Hold Steady realizado num porão de Los Angeles, com um som capaz de arrebentar o tímpano de Pantagruel. Foi o show com o som mais alto que vi desde aquele dia “na cozinha com Morrissey”, em Curitiba.

No porão, o excelente Craig Finn (se você não conhece ainda, não perca a oportunidade) citava suas influências de Minneapolis, seu berço natal. E elas não passavam pelo Paisley Park de Prince. Todos ali, reunidos, cantaram uma versão pesada de “Bastards of young”, do disco “Tim”, um dos grandes do The Replacements. O Hold Steady, por sua vez, veio até o Brooklyn e al começou sua história, junto à forte cena dessa região, no início do século XXI. Já fizeram grandes discos como “Boys and girls in America”, e Craig Finn é, além de um grande bandleader, um letrista muito interessante, que fala lá de sua juventude no meio da cena dos Replacements.

Os Mats (como a banda de Paul Westerberg é conhecida) dedicou, lá no início da década de 1980, 20 anos antes da cena do Brooklyn, algumas músicas às suas influências maiores: a música do Big Star de Alex Chilton e Chris Bell. É só um pequeno exagero dizer que a música alternativa não existiria sem o The Replacements e, é claro, sem o Big Star. Peter Buck e Michael Stipe devem “Murmur” a essas duas bandas. Paul Westerberg fez uma música batizada com o nome de Alex Chilton que dizia mais ou menos que “milhões de crianças cantam com Alex Chilton, eu estou apaixonado, o que é essa música?, eu estou apaixonado por essa música (…) eu nunca viajo para longe sem uma pequena Big Star (grande estrela)”.

É quase constrangedor o que eu vou dizer, mas “Let it be” do The Replacements foi mais importante do que “Let it be” dos Beatles pra mim. Os shows bêbados e revoltados acabavam com pouco tempo e tudo destruído. Estes anteciparam em mais de uma década o show de “Reading”, do Nirvana. O momento que mais me comovia em “Trilhas sonoras de amor perdidas” era o início da última cena, já com três horas de peça, quando ouvíamos baixinho “Sadly beautiful”, do último disco da banda, “All shook down”, e Guilherme dizia: “Teve a noite da revelação (…) talvez fosse a hora de ir embora daquela cidade”. E então ele citava um trecho adaptado de “Love is a mixtape”, do Rob Sheffield: “Cada adeus veio com níveis diferentes de alívio, culpa e confusão, para lugares e pessoas, árvores e estações de rádio. De tantos em tantos anos, eu compro um disco do Big Star e penso, esses caras são ótimos. Aí eu chego em casa, aguento até a metade do lado A e depois arquivo na pilha do sei lá quando, porque eu tenho tantas coisas pra esquecer.

Talvez ano que vem, talvez não. Eu sempre presumi que eu nunca seria capaz de ouvir os Replacements de novo. Mas então eu fiz uma nova amiga que usava um elástico em volta do pulso com o nome do Paul Westerberg. A música favorita dela era ‘Unsatisfied’ (…) em pouco tempo eu estava amando a música tanto quanto antes”.

Sobre o Big Star vi, recentemente, os trechos do que dizem ser as únicas partes de filmes existentes da banda trabalhando junto. Numa cor de sol, Chris Bell e Alex Chilton, numa casa com paredes de tijolos, muito jovens, sorriem lá de 1971. A música que ouvimos é a bela “Thank you friends”. Depois disso, Chris Bell morreu tragicamente em um acidente de carro, só com 27 anos. É isso mesmo, ele é mais um do tal clube, de gosto duvidoso, dos que morreram aos 27. Como Hendrix, Cobain , Richey Edwards, Dave Alexander, d o The Stooges, Rudy Lewis, do The Drifters, Robert Johnson , Winehouse e outros. A diferença é que de Chris Bell muitos provavelmente ouviram falar pouco, outros nunca ouviram falar nada, e deveriam. Deveríamos ouvir falar todos os dias. E é por isso que até uma coluna como essa, dedicada a esses, demorou. Andei citando uma ou duas vezes, mas é pouco, muito pouco pro tamanho da beleza, do talento e da influência desses caras, como Alex Chilton (que morreu em 2010), do sofredor

Chis Bell, de Paul Westerberg e, por que não?, até de Craig Finn. Ouça “#1 Record” e “Radio City” do Big Star e comprove. Ouça músicas como “Thirteen”, “The ballad of El Goodo” e “September gurls” e se apaixone. Mesmo Alex Chilton sozinho em “Third/Sister Lovers” é extraordinário, cantando “Holocaust”. Suas influências foram o The Coasters, o The Zombies e… os Beatles. Talvez só os Beatles, talvez só o Velvet Underground tenha formado tantas outras bandas, como o Big Star formou.

E nós ouvimos falar pouco ou nada deles por esses dias. Inspiraram o Replacements e o R.E.M. E “Murmur”, do R.E.M., solidificou todo o mercado independente dos Estados Unidos, o que nos proporcionou a cena de Seattle do Nirvana. Você já ouviu falar em Nirvana?

Então compre um disco do Big Star.

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