“Memórias de Bárbara Cabarrús”, de Nivaldete Ferreira

Por A. Rodrigues Jr.

“Antes foi o nada, depois será o nada,
mas o momento retorna para perturbar o descanso
do momento por vir”
Nietzsche

“Sozinhos estamos todos […]mesmo quando nos abraçamos, mesmo quando um corpo penetra outro. Sozinhos porque nossos pensamentos não são águas que se misturem. […] acabei voltando guiada pela fumaça do passado… Mas uma chama recém-nascida, purificada, mostrou o meu novo lugar, que era o mesmo, mas era outro. Conjugaria o amor, sabendo-o mais-que-imperfeito em todos os tempos”
Bárbara Cabarrús

Estar consciente do momento presente é uma tarefa árdua. Com mais freqüência, é ao futuro e ao passado, determinados momentos de temporalidade, que estamos sempre projetando-nos em metáforas de tempo e espaço. (“Andar para frente” ou “para trás” são exemplos dessas metáforas; estamos, via de regra, em partida “para-” algo). Deixemos o futuro para seu tempo e focalizemos o tempo do passado, ou melhor, observemos a recordação do passado, a recordação via memória.

Para nós quanto ao passado nada como o sabor de uma lembrança divertidamente nociva. As “memórias são ácidos e brinquedos […] ardem divertem e queimam”. Quem não tiver alguma lembrança perniciosa ao nível da graciosidade de um pecado, que atire a primeira pedra. Assim, terá uma boa lembrança do gosto da “carne da vida”.

Essas palavras, marcadas em aspas, pertencem a Bárbara Cabarrús, protagonista das histórias que são frutos das suas memórias. À escritura “caligráfica” da poeta, Nivaldete Ferreira as “Memórias de Bárbara Cabarrús” (2008), personagem que apesar de revelar memórias, busca revelar-se que viveu o presente. Esse livro é um romance composto de 22 capítulos, publicado pela editora Letras Natalenses, nele está contido, entre outras coisas, um notável uso metafórico para a idéia de “memória”, “solidão” e “conformismo”. O que se seguirá se mostra apenas com uma possibilidade discursiva acerca da obra.

Me referi a escritura de Nivaldete como bela, em assonância com o dito platônico: “tudo que é belo é difícil”, isso se evidencia nessa poeta por utilizar de um minuncioso uso da linguagem verbal, aspecto de sua poética já revelado em outros trabalhos. Suas palavras ocupam lugares insubstituíveis na escrita que se “gera no vácuo” (Sertania, poema “Da palavra”, 1979), também em “onde é preciso/ que o açúcar dos signos/ arda/ mel fervente que cura” (Trapézio e outros movimentos: poema “Signos” ,1994) a reflexão, por vezes metalingüística prima por embelezar o inusitado com inteligência e elegância, transformando os desertos do humano em cenários sertanejos. Em escritura um deserto de solidão, silencioso campo da imanência do Ser humano, reverbera no que é do Ser um ser-para-a-solidão, bem como, para-morte, excluindo, assim de sua estética, a forma piegas e ultrapassada de retratar o sertão.

Isso é muito claro em Bárbara Cabarrús que herda-o em especial significância. Variando entre o amarelo apático no seu estado “mais-que-vazio”. Ao vermelho belicoso espanhol, insurge a coragem rubra dos toureiros, resultando na moça “luxuriosa demais”, mais escarlate que amarela, pois, o elemento paixão adiciona um tom Rubí com matizes violáceas. “Bárbra” (como é chamada pelos trabalhadores do sítio de seu pai) não se conforma em ser um animal domesticável, mas sim busca ser selvagem e perigosa, relembrando sempre a solidão do “nós” que ela própria diz estar “sozinhos” todos.

Uma das faces da memória é referir-se ao passado como um invisível e obscuro fardo. Ao se mostrar cármico, rememorar é arrancar do livro de Cronos uma página que se conservava no sigilo do peso da linguagem da submersa. Ao emergir lembranças incertas no pensamento, eis a máquina do tempo. logo, a memória aparece para dar à essa lembrança o veredicto daquilo que hoje aparece sob pena de morte. A criança difere-se do adulto porque não possui tantas lembranças passadas. O adulto, se falseia entre suas várias personas (suas máscaras) que forçam-no a assumir-las em seu cotidiano.

No entanto, se vivêssemos de esquecer seriamos simples “ovelhas” desmemoriadas que pastam, passam e de nada se lembram, e se conformam com a ordem do tempo, seu pastor e senhor. De qualquer forma, conhecimento traz sofrimento, para muitos é melhor ser ignorante. Porém, nos distinguimos das ovelhas (enquanto animais domesticáveis), justamente, por termos a capacidade de, através do que há de fixo em pensar produzimos memória, consequentemente, na linguagem da memória produz-se a história. podemos transformar os acontecimentos em narrativas históricas, estilizadas linguagens de outras memórias. Esquecer seria o melhor remédio?

A série de acontecimentos e reflexões da personagem clarifica em cores fortes, o olhar inquieto e questionador daqueles que não se contentam em pastar como ovelhinhas cevadas de capim e conduzidas por esteio. A escritora instiga o leitor a questionar o que vale a pena para si, que verdade pode-se construir em si, e não nos,- ou através dos-, outros. A sabedoria é perceber-se a ponto de querer saber, e do ventre de si a “sabedoria, apenas a que eu extraísse de mim mesma não do que lera ou fora levada a pensar”.

Dizem que o verdadeiro poeta carrega consigo o peso da tradição, o peso do passado literário. Apesar de Nilvaldete Ferreira respeitar o contexto histórico do Rio Grande do Norte daquela época[1], ela apresenta a força subversiva da leitura e da literatura, atrelando-os ao discurso da arte como a “louca da casa”, aquela que não se conforma com o socialmente estipulado em sua forma ideológica, e recebe o veredicto de estado de loucura. Igualmente, essa é uma das características mais marcantes de Bárbara Cabarrús, curiosa desmistificadora da “poética da mentira”.

[1] No livro de Nivaldete Ferreira encontramos muito material etnográfico: as relações entre casa os donos do sítio e seus moradores, o poder do coronelismo, os artefatos campestres, os diálogos, os personagens passageiros, aboiadores vaqueiros, ciganos etc. Fato é que outros livros de memórias, referidos ao mesmo período da história desse romance que, no entanto, ainda não estão inseridos nesse âmbito, mas que encontramos, praticamente o mesmo tipo de registro etnográfico. São os casos, por exemplo, dos livros “cartas da infância” de Leda Gurgel, “Oiteiro” de Magdalena Antunes “Meninos de sítio” dos irmãos Bezerra Aman, constituintes de um rico corpus etnográfico pautado no memorialismo.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 23 de janeiro de 2011 0:21

    As memórias de Bárbara Cabarrús – corrigido

    Um livro de memórias é uma reconstrução mental. Um ajuntar de peças dispersas. Muitas vezes, uma invenção …. Um livro de memórias de um poeta é diferente. Ele colhe ventos, cheiros, matos e solidões. Se re-inventa.
    Os livros da biblioteca podem ser queimados, mas os escritos no ventre jamais serão esquecidos, disse o Sr Kabir nas páginas das “Memórias de Bábara Cabarrús”, escrito pela poeta Nivaldete Ferreira em 2008. Talvez o mais belo livro escrito no Rio Grande do Norte na última quadra da primeira década do século XXI pós- nascimento de nosso senhor Jesus

    Um belo livro que se lê gostoso num fôlego. Livro escrito por uma intelectual e por isso mesmo com muitas citações e reticências. Mais reticências que certezas. Cervantes começa a escrever o Quixote na prisão e Nivaldete, no hospital lendo uma Enciclopédia
    Bárbara vem lá de Trás e Évora-Montes e chega ao nordeste do Brasil onde encontra A Donzela Teodora, O Lunário Perpétuo e toda a novelística ibérica. “A mulher era a viagem, a montaria…”

    Mas, Bárbara não que ser só mais uma mula para receber esperma e procriar feito os de sua Terra. A mulher se rebela e denuncia. Sabe de muitos segredos do pai e enfrenta-o. Muitos irmãos de Bárbara foram paridos em outros ventres…

    Bárbara vive entre mortes. Carrega o peso da morte do filho de Fausta. E o filho de Fausta é o seu irmão que morreu na miragem de um poço.

    Bárbara são muitas, perdidas dentro das entranhas de Nivaldete. Bela poeta das nuvens. Ela, em si, já e um poema. Flutua feito uma garça. Escrevendo memórias quer ser tudo:

    Mulher solteira põe fogo ao corpo
    o rebento virou cinzas,
    mulher sabida feita a Donzela Teodora,
    mulher que namora o primo e o cigano,
    mulher vestida de nuvens que sai a colher brisas nas madrugadas,
    Medéia, sem-terra toma banho nua nos regatos de um mundo branco.
    “ Onde tem céu é mundo…”.

    Bárbara traz os desvalidos para junto de si, Dar comida, Ensina a pescar…
    A liberdade é a cosia mais importante da vida. E , Bárbara ensina, tem um odor mais agradável que o cheiro da alcova.

    Bárbara sai de Quebranto dos Matos e vem para a cidade polis do sol Sólpolis. É o destino!. E Bárbara tem destino? O destino faz “ rir essa carmelita louca”.

    Nivaldete escreve poesia. Nivaldete escreve história infantil. Nivaldete escreve histórias que parecem com a gente. Sem escrever não vive. Sem brincar com os Calungas de Nivaldete a literatura de Natal Sólpolis não tem graça. Alboreia…

  2. Jarbas Martins 22 de janeiro de 2011 18:51

    ni val de te, quatro monossílabos, pontos luminosos num céu de verão.

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