“Meninos de Sítio”: uma etnografia…

Por José Antônio Rodrigues Júnior
Para Pedra e Lisane

“Meninos de Sítio”: uma etnografia do sertão através da memória feminina.

O livro se constitui de um recorte com um corpus preciso, deixando claro ao leitor o conteúdo apresentado, enquadrando-se no gênero literário memorialístico. Os livros dessa categoriam inscrevem-se nesse gênero, mesmo quando os autores buscam imprimir no texto certo grau de objetividade. Essa literatura, que enfatiza bastante o eu, acontece pela necessidade de preservar e repartir o vivenciado, que se deseja conhecido.

O texto memorialístico organiza em seu corpo toda uma série de informações concernentes a outros domínios: psicologia, etnografia, que entram como informações subsidiárias ao discurso na primeira pessoa, fazendo com que a obra passe a também se constituir como documento de uma época ou lugar específico.

Escrever memórias é um ato testemunhal. O livro “Meninos de sítio” cumpre essa tarefa na medida em que os autores, ao contarem suas experiências, narram também um pouco da história da sua terra, nesse caso, o Rio grande do Norte, o Seridó, na primeira metade do século XX.

O livro “O povo Brasileiro” do antropólogo Darcy Ribeiro apresenta a formação do sentimento de nação, e como isso se dá nas diversas partes do Brasil, expondo exaustivamente os diversos brasis na história em um capítulo dedicado a falar das culturas brasileiras: cabocla, caipira, crioula,  sertaneja e sulista. Com relação ao Brasil sertanejo, o autor explica a importância da saída dos holandeses para a mudança do pólo econômico, do açúcar ao gado, e como isso foi basilar para as mudanças e ampliação dos costumes dos habitantes dessa extensa área mediterrânea. As relações familiares, sociais e econômicas mudaram. O senhor de engenho agora é Coronel, passando a ser padrinho dos agregados; a propriedade rural, de lavoura e de gado, tende a ser obrigatoriamente autosuficiente para a sobrevivência da família que continua patriarcal. As relações sociais se davam nas feiras, onde se conseguia o que era necessário. Dinheiro quase não havia, a palavra detinha valor mais acentuado, o que hoje em dia não acontece mais. Por diversas razões o homem deixou de ser palavra e passou a ser número, o que resultou no arcaísmo de certos valores da sociedade e da família tradicional.

Tudo isso também é retratado no livro “Meninos de sítio”. No decorrer de seus capítulos, os autores plasmam em seu texto a vida do sertão: a seca, a alegria que vinha com a chuva, as pessoas e suas faces, seu cotidiano. Idealizam com bastante nostalgia o saber e o labor da família sertaneja que recebeu forte influência da cultura medieval, cuja herança fora advinda da colonização européia.  As festas eram as comemorações católicas como o Natal, São João, festas de padroeiros, etc.

O capítulo intitulado “Dia de feira” denota, na figura da criança, a sabedoria de usar a criatividade para adaptar-se a qualquer situação, bem como a ingenuidade de sentir-se feliz com o que os adultos lhe obrigam a fazer, ou ao menos apresentar-se dessa forma. Se, por um lado, “A seca” se mostra com “O desespero da previsão”, por outro lado, “A chegada das chuvas”, marca o espírito da abundância em detrimento da escassez de recursos das mais variadas ordens. A chegada das chuvas anunciava a transmutação: começava ao nascer do dia, mas chovia normalmente à tarde ou até mesmo à noite, alterando durante algum tempo o modus vivendi sertanejo. Lê-se que “A luz vem com clarões azuis, lilases até, acompanhados de uma sonoplastia de dobrados que ecoam nas grotas da serra. Um espetáculo cenográfico e emocional que não há sol sozinho que produza (…) Pessoas do litoral não fazem idéia, do que são corpos e almas suplicados a espera de uma solução liquefeita, capaz de lhes restituir a vida.”

“Quando criar é viver” apresenta-nos a importância da criatividade para a sobrevivência e continuidade dos ofícios laborais da vida do sítio, o que influencia a questão da técnica do sertão no qual a fazenda tem de ser autosustentável. Encontramos no livro também amostras da maneira como se dava o ensino familiar, época da palmatória, em que a distância entre a escola e os indivíduos propiciavam espaço para um ensino familiar e hierárquico (seguia uma linha do patriarca aos filhos mais velhos e, por fim, a filha mais jovem); a “sabatina” era o dia do argumento ou o dia da prova oral e escrita, era cativo de sansões aquele que obtivesse um resultado não satisfatório.

As casas eram construídas nos arredores dos açudes, no capítulo “As casas e seus moradores” nota-se que além da demarcação geográfica, a casa e a saudade comprovam o milagre do pensamento na literatura como fator eternizante das coisas e das ações do passado e assim é descrito “Não sei quais dessas, quais desses resistem às transformações que se sucederam. Sei que estão aqui agora, habitando estas páginas, escritas para dar sobrevida ao chão, ao tempo, às pessoas…”

Além do que foi dito, os autores do livro reservaram um espaço para Peti, que era quase-mãe-quase-escrava; ela cuidava das crianças, não possuía quase nada e reflete bem a imagem da relação ambígua de poder que se estabelecia na grande maioria das fazendas daquela época, onde os agregados foram condicionados a saber qual era o seu lugar, reproduzindo os valores da Ideologia da aristocracia rural.

Observa-se que existem diversas dimensões presentes na narrativa: sociológico, etnográfico e do imaginário encontrados no livro “Meninos de Sítio: falando de cultura sertaneja”, especialmente nos capítulos “Mascates e ciganos e Dia de feira” etc. O livro composto por Celina Maria Bezerra, Laércio Bezerra e Safira Bezerra Aman, representa bem a vida sertaneja na primeira metade do século XX.

Enfim, uma das compreensões que se pode ter do livro é a que busca compreender como se configuravam essas representações, desde sua relação com os sabores da infância às perspectivas dos costumes sociais daquela época, o que visivelmente é  analisável em outras obras do mesmo caráter, tais “Cartas da infância” de Leda Gurgel e ”Oiteiro” de Magdalena Antunes. Considerando a herança cultural legada pelo século XIX, o livro aqui tratado, de caráter memorialístico, constitui uma abordagem subjetiva que revela aspectos histórico-sociais do sertão do Rio Grande do Norte no início do século XX.

José Antônio Rodrigues Júnior. Graduando em Letras pela UFRN, bolsista PIBIC de iniciação científica da Pro – Reitoria de Pesquisa. 

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jonas Fialho Becker 23 de abril de 2010 20:12

    Me parece uma pedra bruta a ser trabalha, mas, o autor, já possui notável talento. O texto aborda de maneira eficaz diversos planos de análise sem perder sua unidade no plano central: memória. Procuremos, então, saber se o livro referido, possui o mesmo sabor de sertão, ou se o artigo, aqui apresentado, não se passa apenas de um engrandecimento científico em moldes de intensa ficção de investigaçar.

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