“Natal é uma cidade escrota”

Por Sérgio Vilar
NO DIÁRIO DO TEMPO

Quando escutei a história relatada abaixo lembrei do pesquisador Leonardo Barata me dizendo: “Natal é uma cidade escrota”. É mesmo. Fosse outro lugar o trabalho de Barata seria respeitado, incentivado. Mas a frase serve também pra Zé Dias – aquele cara expansivo, entusiasta da música local, batalhador, competente, bocudo e honesto.

Zé Dias merece respeito. A classe artística dessa cidade também. E em função da incompetência (pra não dizer sacanagem) das gestões públicas, esse profissional responsável em suas atividades foi humilhado essa semana. Zé pediu off no caso. Mas autorizou alguns dados revoltantes.

Com pagamento de condomínio, colégio entre outras contas atrasadas, Zé Dias paga pelo atraso de quase R$ 60 mil em dívidas da prefeitura e do governo com ele. Vamos discriminar: R$ 10 mil do Natal em Natal; R$ 10 mil dos shows do Reveillon; R$ 10 mil de uma ajuda financeira aos artistas; R$ 8 mil do show no Mês da Mulher; R$ 9 mil dos shows no carnaval; e R$ 10 mil do Praia Shopping.

Zé chegou a viajar ao Rio de Janeiro recentemente sob a promessa municipal de pagamento de R$ 4 mil dos R$ 8 mil referentes ao valor do show no Mês da Mulher. Chegou lá, conferiu o extrato da conta e não foi depositado um centavo. E nesse caso me sinto mais confortável em dizer: isso não é incompetência ou irresponsabilidade; é sacanagem.

É duro escutar essas coisas. Sério. Fico indignado. E pior é ser trabalhador honesto nessa cidade-madrasta dos seus talentos; essa cidade escrota que não consagra, nem desconsagra e só humilha.

Comentários

Há 12 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 31 de maio de 2011 16:01

    Meus caros,

    Esse texto foi escrito quando do fechamento da kliterion e creio ainda mantém sua atualidade.

    Vivemos numa cidade maravilhosa sobre muitos aspectos, que não é o cultural. Somos novinhos, ainda é tempo. Tempo de sonhar e lembrar. O que Phelan comenta não é prerrogativa de Natal, mas da maioria das cidades do Brasil e do mundo. Veja o crápula do Belusconi na Itália. Um Bush. Veja o ministro japonês bêbado e delirando. Veja o cara do FMI. O mundo passa por um esgarçamento do seu tecido existencial. Uma detioração do seus valores. A crise é sobretudo moral e cultural.
    …..

    O Brasil elege o pior para sua representação. Veja o caso Sarney saído dos porões mais tenebrosos que esse país produziu. Filho de um regime ditatorial e mandante de um dos estados mais pobres do Brasil. Em Natal, temos uma “ elite” cultural bastante controversa , mas não somos únicos nessa mazela. Outras coisas mais importantes acontecem nessa cidade e ninguém comenta. Meu amigo Luis Damasceno, o maior livreiro dessa cidade, aposentou com mais de 40 anos de livraria e ninguém comentou nada. Luis é uma instituição. …

    ps Luis nao anda bem de saúde e precisa da nossa atenção

  2. Jamaveira 30 de maio de 2011 21:03

    Natal, cidade de atrativos diversos onde quem procura acha, nas madrugadas espelhadas pelo belo Atlântico, tanto os que convivem com a nostalgia tem seu lugar como também aqueles que querem o mundo mudar sem se importar se certo ou errado, daí os “governantes” deveriam se preocupar impondo normas mais rígidas e equipando melhor a vigilância… * Nada lá é diferente das grandes cidades. Jama

  3. Carlos de Souza 30 de maio de 2011 16:20

    escrevi um texto comentando esse assunto, mas na hora de enviar para a revisão recebi a mensagem de que não poderia postar. aí deu um branco e eu perdi tudo que tinha escrito. fiquei puto, xingando o SP como se fosse uma criança emburrada e perdi a tarde, cara!!! mesmo assim gostaria de dizer que natal é escrota, porque não tem identidade, porque as elites são burras, porque maltrata seus melhores filhos. mas eu amo essa porra de cidade, mais ainda do que a cidade onde nasci. aqui vez ou outra ainda sou tratado com respeito. isso me basta.

  4. nina rizzi 30 de maio de 2011 16:01

    Tácito, o senhor pode, se faz favor, me levar também a tais desbravuras?

    sgualdrina

    quero me reconhecer, quando os meus não
    me houvem; me olvem.

    eu quero ter uma tarde com ela;
    eu quero ser a bela da tarde.

    mas chegava ser uma daquelas que deixam o lenço
    sobre a panturrilha, a acenar banguelamente pra o sonho.
    dallas no cambalacho de papai ou nas janelas do chateau de nilda.

    • Tácito Costa 30 de maio de 2011 17:22

      Nina, você é convidada de honra, sentará nos bancos da frente do ônibus, ao lado do nosso guia o poeta Jarbas Martins.

  5. Rilke Vieira 30 de maio de 2011 14:03

    Enfim, uma proposta decente por aqui! Só isso para me tirar do meu amado desassossego.
    Prezado editor, não quero perder essa excursão por nada desse mundo, por isso peço encarecidamente que reserve uma vaga nessa van ou ônibus ( com as greves em Natal é arriscado irmos a pé, por mim tanto faz) que levará o Monteiro pelas festivas esquinas da nossa Natal. Minha sugestão é que o guia dessa troupe seja o grande poeta Jarbas Martins.

  6. Fernando Monteiro 30 de maio de 2011 12:27

    “Mas adianto que não tenho preconceito contra a prostituição. Sempre fui chegado às esquinas. Em algumas delas fui feliz.”

    Foi anotada a reveladora frase do “Sedutor de Natal”, muchacho de extremo bom gosto no seu trabalho — inclusive — de editor fotográfico etc.

    “Sedutor”, responda aí::
    ESSA esquina é QUAL?…
    (E a moça, sabes se ainda se encontra trabalhando lá?)

    Assinado:
    Seus admiradores interessados — na moça, é claro.
    [Em vosmicê, As interessadAs são, já, fartAs, fellinianAs etc etc.]

    • Tácito Costa 30 de maio de 2011 13:29

      rsrsrs… Fernando velho de guerra, na próxima vez que vieres a Natal eu e alguns pluralistas ilustres (declino o nome para não comprometê-los) o levamos para conhecer melhor a cidade e suas esquinas.

  7. João da Mata 30 de maio de 2011 12:11

    Meus Caros,

    Concordo com o Phelan, mas estamos estrebuchando.
    Aqui mesmo nessa tribuna denunciamos muitas falcatruas.
    Escrevemos tambem sobre a “merda” ( Olha o Trigue ) , De Uma Natal que não existe, maquiada e perversa.. Dos buracos , etc.

    Aqui mesmo lutamos quando da eleição da atual prefeita.

    Ainda lembro muito bem de alguns jornalistas defendendo Micarla em seus jornais, televisões e outras mídias.

    Seria bom que eles, agora, se pronunciassem. Não ficassem escondidos.

  8. Charles M. Phelan 30 de maio de 2011 11:36

    Sérgio,

    Natal é uma cidade sem personalidade; dominada por despreparados; enfeitada por patricinhas, mauricinhos e invejosos.

    Só numa cidade sem personalidade permite-se que estrangeiros venham, dominem, desrespeitem e, sem muito esforço, tomem nossas praias belas (Ponta Negra e Pipa, dentre outras) impondo seus comportamentos abjetos, suas praticas esdrúxulas no tocante a prostituição, drogas, lavagem de dinheiro, etc.

    Só uma cidade sem personalidade permite o desempenho patético de uma prefeita e de uma governadora de estado, sem pulverizá-los de suas funções. Enquanto isso, outros gozadores (políticos, juízes de direito, babões, etc) podem ser vistos no velho Midway, acalentados por seus entourages qualquer dia da semana, dia ou noite, confraternizando com suas patotas, enquanto o sistema cai aos pedaços.

    Os otimistas que me perdoem; isso jamais mudará, na cidade sem personalidade….

    Abs,
    Charles

  9. Lucia Helena Girardi 30 de maio de 2011 11:01

    E o que é que a foto tem a ver com o texto? “Preconceito contra a prostituição feminina”, presente em qualquer esquina do mundo?

    • Tácito Costa 30 de maio de 2011 11:23

      E eu que achei que tinha tudo a ver! A escolha da foto remete a imagem de uma outra Natal, sem glamour nenhum, mais para zona, despudorada, com dirigentes sem o menor respeito ao povo. Reconheço que, texto e foto, podem levar a uma outra leitura, como foi o seu caso. Mas adianto que não tenho preconceito contra a prostituição. Sempre fui chegado às esquinas. Em algumas delas fui feliz.

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