“Nihonjin”, uma saga japonesa de nossos tempos

Para além de toda a polêmica que cercou a premiação do livro “Nihonjin”, de Oscar Nakasato, com o Jabuti na modalidade romance, este ano, surpreendendo e preterindo uma autora conhecida e admirada, como Ana Maria Machado, além de autores como Wilson Bueno e Domingos Pelegrini, a escolha desse escritor paranaense é perfeitamente defensável, abstraídos os demais concorrentes. Trata-se, em primeiro lugar, de uma obra que coloca em cena um assunto que há muito faltava à literatura brasileira: a imigração japonesa, acontecimento dos mais singulares na história de nosso país mas que, por razões que não cabe discutir aqui, continuava, salvo poucas exceções, à parte de nosso romance. Vale lembrar que o Jabuti não foi o único prêmio obtido por “Nihonjin”; antes, conquistou o Prêmio Benvirá de Literatura, entre 1932 concorrentes.

Em defesa desse escritor, pode-se dizer mais: é Professor de Literatura e Linguagem na Universidade Tecnológica do Paraná e teve contos premiados em concurso literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná e em festival universitário de literatura, promovido pela Xerox do Brasil e pela Editora Cone Sul. Enfim, dá para se perceber que não se trata propriamente de um calouro, mas de alguém que fez por merecer ocupar um lugar próprio na literatura brasileira de hoje.

Três gerações de japoneses e descendentes desfilam nas páginas de “Nihonjin”, com suas crises de identidade, seus projetos de voltar ao Japão, suas decepções e expectativas frustradas, mas também suas descobertas e o despertar da necessidade de se integrarem à sociedade brasileira através do trabalho e da acumulação de riquezas.

Por outro lado, trata-se de um texto novelesco que, sem enveredar pelo gênero épico, traduz com enorme competência literária alguns acontecimentos marcantes que cercaram a mais que centenária migração nipônica no sul do Brasil. Salta à vista que, à medida que avança sua leitura, aumentam simultaneamente a qualidade e a intensidade dramática da narrativa, como se esta sofresse um paulatino e depurado aperfeiçoamento textual. Os episódios descritos nos capítulos 5 e 6, tratando respectivamente do amor e da morte, são especialmente marcantes. O primeiro, variação do tema do romance proibido entre uma nihonjin (japonesa) e um gaijin (não japonês) tem desfecho surpreendente e capacidade de se reinventar, quando parecia plenamente resolvido e seus protagonistas, acomodados a papéis menores.

O capítulo 6 trata de um tema explosivo: o choque entre duas gerações de imigrantes divididas por cisões ideológicas irreconciliáveis, oriundas dos acontecimentos gerados pela Segunda Guerra. A primeira geração, presa aos valores tradicionais do Japão, mesmo quando se mostrem contrários à razão, rechaça qualquer possibilidade de que seu país tenha sido derrotado naquele conflito militar global, e passa a se congregar numa facção terrorista que persegue e mata aqueles membros da comunidade nipônica que professem o contrário. O personagem Haruo, filho de Hideo, nihonjin avesso a tudo que diga respeito à mudança, encarna uma nova geração de descendentes que defende a integração com a sociedade brasileira. Em torno dessas diferenças se estabelece um conflito insolúvel, envolvendo toda a comunidade nipônica constituída no bairro da Liberdade, em São Paulo, capital.

Como que fazendo o caminho inverso ao de seus antepassados, o narrador anuncia, no sétimo e último capítulo do livro, sua resolução de voltar ao Japão para trabalhar como operário, embora já tenha no Brasil uma profissão definida, mulher e filhos. Falta, portanto, uma razão premente para essa viagem extemporânea, único capítulo titubeante do livro, que ficaria melhor sem ele. Os seis capítulos precedentes, porém, justificam plenamente as premiações referidas e que servirão no mínimo para despertar a curiosidade e o interesse de novos leitores para esse autor que passa a integrar nosso cânone literário. Sob esse aspecto, o Prêmio Jabuti cumpre seu principal objetivo, que é o de revelar novos autores.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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