“Pareço-lhe terrorista?”

Por Robert Fisk
Vi o Mundo

The Independent

Para EUA, União Europeia e Índia, ele é o homem mais procurado no Paquistão, fundador e líder do Lashkar-e-Taiba, o “Exército dos Justos”, culpado pelo assassinato em massa de 188 civis, 54 dos quais mulheres e crianças, em Mumbai em 2008, por três ataques em Delhi, pelas mortes de 211 civis em explosão de trem também em Mumbai, e pelo ataque contra indianos, por um suicida-bomba em Cabul.

Seu “exército” foi banido como “organização terrorista” por EUA, UE, Conselho de Segurança da ONU, Rússia, Índia, Paquistão e Austrália. Mas quando Hafiz Muhammad Said caminha para seu quarto-escritório numa casa de subúrbio em Lahore, é todo sorrisos, pequena toca branca sobre a cabeça, a barba negra encaracolada, estilo salafista descendo sobre a veste branca, convidando-me a partilhar os biscoitos e o bolo com cobertura de apricô que havia sobre a mesinha.

E sorri; de vez em quando, ri; tira os óculos, cansado, e os deixa sobre a cama; fala da necessidade de “libertar” toda a Caxemira[1], e produz arquivos copiosos para mostrar-me que a Alta Corte de Lahore não conseguiu provar que seria, sequer, homem violento; muito menos, que comandaria sozinho o ‍ ?Exército dos Justos”. De fato, diz, é líder, apenas, de uma organização de caridade, Jama’at-ud-Da’wah – o “Grupo de Orações” – uma das maiores ONGs de assistência humanitária do Paquistão, com 2.000 agências no país e vasta reputação como agência de socorro em áreas atingidas por terremotos e inundações.

Para homem tão odiado, Said parece tranquilo e acessível. Sou o primeiro jornalista ocidental a entrevistá-lo. Mas o homem alto, de olhos escuros – provavelmente seu guarda-costas – não se deu o trabalho de revistar-me quando entrei na casa. Excesso de autoconfiança? Ou, então, confia nos dois policiais paquistaneses uniformizados e armados com fuzis AK47, o terceiro postado atrás de uma metralhadora montada sobre uma pilha de sacos de areia. Não se sabe se ali estão para defender-se de um potencial inimigo do Estado, ou para protegê-lo. Said passa a maior parte do tempo – quando não está comendo no chão, ao meu lado – sentado na cama, no escritório, gritando para fazer-se ouvir acima do ruído do ar condicionado que ruge num canto a fastado.

“Logo depois que os russos se retiraram, depois de derrotados na guerra do Afeganistão, surgiram vários movimentos na Caxemira – 12 diferentes organizações começaram a operar naquele momento, 1990”, ele conta. “Lashkar-e-Taiba foi uma das organizações que se uniram à luta pela independência da Caxemira. Havia muita gente conosco e descobrimos que o pessoal do Lashkar-e-Taiba era gente honesta e mais trabalhadora que os demais.”

Mas Said não estava no Afeganistão? “Desde o início”, ele responde, “fomos muito fortemente contra a ocupação russa do Afeganistão – para nós, os afegãos estavam sob ocupação dos russos. Apoiamos os afegão que lutava contra a ocupação e os ocupadores. Sim, fui ao Afeganistão, visitei-os para ver a situação com meus próprios olhos. Mas não me liguei aos combatentes. Visitei-os porque os apoiava. Achava que [o grupo] Lashkar tinha razão na luta pela liberdade [na Caxemira]. E assim como acreditávamos que a ocupação do Afeganistão pelos russos era injusta, entendíamos que os EUA e a OTAN tinham de se retirar.”

E o senhor não se encontrou com Osama bin Laden no Afeganistão? “Vi-o uma vez, nos anos 80s, durante o Haj (em Meca, na Arábia Saudita). Vi-o só uma vez. Estive próximo dele durante as orações e nos cumprimentamos. Foi muito simples e muito rápido. Nada de muita conversa.”

É como admitir, de fato, que Said seria o líder do grupo Lashkar. Mas ele interrompe minhas perguntas. “Aí está uma das maiores falsidades, dizer que fui o fundador” – diz ele, zangado. “É resultado da propaganda indiana. A Alta Corte de Lahore investigou toda essa acusação e provaram que é falsa. Antes de 2001, o governo do Paquistão falava muito abertamente – politicamente e moralmente – com todas essas organizações que lutavam pela independência da Caxemira. Entre elas, o Lashkar-e-Taiba – tinha sedes aqui e em Multan e em Islamabad. Dia 12/1/2002, o Lashkar-e-Taiba e outras organizações, inclusive o Jaish-e-Mohammad (“Exército de Maomé”), foram banidas. Continuamos a trabalhar sob a bandeira de Jama’at-ud-Da’wah – nossa organização não foi banida e conti nuamos trabalhando sob o mesmo nome.”

É mais ou menos como o velho Sinn Fein: Sinn Fein é movimento político; o IRA é resistência armada; e os dois lados não têm contato. Mas Said sabe das acusações que recebeu de jornalistas e congressistas nos EUA. Esse mês, a revista Newsweek descreveu seu grupo Lashkar – “virulentamente antijudeus, doentiamente anti-indianos” – como “a próxima al-Qa’ida”, citando o diretor da Inteligência nacional Dennis Blair, que dissera que Lashkar já estava “apontando a mira para alvos europeus”.

Para Daniel Bergman, agente “antiterror” do Departamento de Estado, o grupo Lashkar seria “presença verdadeiramente maligna no Sul da Ásia”. O presidente da subcomissão de Oriente Médio e Sul da Ásia da Câmara de Deputados dos EUA, Gary Ackerman, anunciou que “esse bando de selvagens tem de ser esmagado. O grupo LeT [sic] é grupo de fanáticos mortalmente perigoso. Têm financiamentos, são ambiciosos e, o mais perturbador, são conectados com e aceitos pelos militares paquistaneses.”

Said está bem informado. “Você está aqui porque estou em todos os jornais pelo mundo. Estou na Newsweek e falam de mim no Congresso dos EUA. A maioria do que dizem é obtido da propaganda indiana. Tomam-me pelo maior e mais perigoso terrorista. Falam e falam, mas nenhuma corte julgou os que jornais e deputados acusam. Não há provas, não houve julgamento nem investigação – nenhum deles jamais foi julgado no Paquistão. Eu fui julgado seis vezes aqui. E seis vezes fui absolvido das acusações de terrorismo. No último julgamento, não encontraram uma única prova para apresentar contra mim.”

Nesse ponto, um auxiliar entra e entrega-me quatro pastas pesadas, com material sobre o trabalho de caridade da ONG Jama’at, gravações das audiências da Corte de Lahore do processo contra Said e uma colorida biografia do homem. É absoluta verdade que os homens de Said resgataram vítimas do terremoto na Caxemira em 2005, muitas vezes chegados antes das autoridades paquistanesas a locais onde houvera verdadeiro morticínio. A organização Jama’at orgulha-se de ter resgatado 183 vítimas com vida, de ter tratado mais de meio milhão de sobreviventes em seus hospitais de campanha, e de ter fornecido roupas a outras 12 mil vítimas.

Os documentos da Alta Corte de Lahore são leitura mais sombria. Registram provas recolhidas pela coordenação da Polícia de Lahore – trabalhando, ao que parece, sobre provas recolhidas também pela ONU – de que a Polícia “considerou comprovado que pessoas perigosas e desesperadas movimentam-se livremente (no Paquistão), instigando e promovendo lavagem cerebral nos jovens para a prática de atividades indesejáveis (…) e incitando o ódio e a violência contra diferentes segmentos da sociedade.” Os advogados de defesa declararam publicamente que Said estava sendo acusado do massacre de Mumbai e de ter laços com a Al-Qa’ida.

Said eleva a voz ao falar dessas acusações. “Somos paquistaneses e nossa organização trabalha sob as leis do Paquistão”, diz. “Apesar de sempre respeitarmos a lei paquistanesa, houve acusações tão graves, que fui preso. Muita gente que vive em torno da minha casa também foi presa. Restringiram meus movimentos. Minha liberdade de expressão foi cassada. Todas essas limitações me foram impostas por pressão de governos estrangeiros. Pouca diferença fez que eu seja cidadão paquistanês e que não tenha violado qualquer lei paquistanesa. Fui preso e ainda sofro impedimentos e restrições exclusivamente porque a Índia deseja que assim seja.”

Mas há triunfo na voz dele. “O governo paquistanês processou-me e perdeu. Ainda estão em andamento dois processos contra mim na Alta Corte de Lahore. Os dois me acusam de ter participado dos ataques em Mumbai. No total, foram seis processos. Um chegou agora à Suprema Corte. Os norte-americanos e os indianos querem nos indispor com nosso governo. São íntimos do establishment paquistanês. Mas acreditamos firmemente que não devemos lutar contra as autoridades paquistanesas.”

Quem é Said? Nasceu durante a carnificina da Partição[2]: seus pais estavam fugindo para o norte, para o novo Estado do Paquistão. Atualmente, é professor de Engenharia na Universidade de Lahore; antes, foi catedrático do departamento de Estudos Islâmicos; conta que visitou a Inglaterra em 1995, ond e deu aulas sobre a Caxemira e violações de resoluções da ONU, em centros islâmicos em Londres, Birmingham e Rochdale. É pai de duas filhas e um filho.

Há imponente parágrafo na abertura de seu Curriculum Vitae que tem de ser reproduzido na íntegra, para que se constate o que diz dele mesmo um homem acusado internacionalmente de assassinato em massa: “Professor Said. Professor. Guia. Filantropo. Agente humanitário. Advogado da tolerância, da liberdade de pensamento e culto e dos mais altos valores morais. Não pode defender (ing. Can’t stand for [sic]) fanatismo religioso, atos de violência, opressão e matança de inocentes, de gente desarmada de qualquer tipo”. Foi um choque ver o emprego errado de “desarmado”.*

Quando se autoapresenta, é um pouco menos autolaudatório. “Sou um simples muçulmano, que por acaso dirige a organização humanitária Jama’at-ud-Dawah; minha missão é educar e instruir as pessoas sobre o Islã, como religião da paz”, diz, como se pregasse aos discípulos. “Tento obedecer ao que manda o Islã. Todos merecem conhecer a verdadeira paz do Islã. (…) Falamos sobre os direitos do povo. Não fechamos os olhos ao que acontece na Caxemira e na Palestina e falamos sobre os direitos dos muçulmanos em todos os momentos e onde estejamos. Não falamos exclusivamente sobre a religião…”

Pergunto se o grupo Lashkar emitiu uma fatwa contra o papa Bento XVI por ter criticado o Islã em discurso em Regensburg. Na resposta, zangada, ele confunde Lashkar com Jama’at – e o discurso do papa com os desenhos publicados num jornal dinamarquês, caricaturas do profeta Maomé. “Fizemos questão de mostrar com força nossa reação àquela declaração (do papa). Declaramos que foi gravíssimo insulto ao nosso profeta Maomé. Mobilizamos e manifestamos enorme protesto (…). Quando alguém insulta o Profeta, levamos muito a sério. Cremos na santidade de nosso profeta. Quando Jesus foi insultado na Índia, condenamos os insultos. Que justificativa poderia haver para vocês insultarem nosso Profeta? (…) Pensam que aqueles desenhos foram publi cados em nome de alguma “liberdade de expressão”? Quando nós (sic) respondemos – e se, infelizmente, houve alguma violência –, então, somos ‘terroristas’ e extremistas. Que fizeram os governos europeus para deter aquilo? Aquilo, sim, pode levar à violência e ao extremismo. A Europa está brincando com as emoções dos muçulmanos.”

Said repete a versão paquistanesa já amplamente desmentida e comprovadamente falsa do massacre de Mumbai: que teria sido ação de um movimento interno da guerrilha indiana. “Pouco depois dos ataques de Mumbai”, diz ele, “uma organização chamada Deccan Army declarou-se responsável. Mas imediatamente depois a Índia passou a culpar o grupo Lashkar-e-Taiba; e a Índia nem considerou o que o Deccan Army dizia. Essa ‘prova’ não foi aceita na corte (do Paquistão). Descobriram que não havia provas contra nós (…). Logo depois dos ataques de Mumbai, convocamos uma conferência de imprensa. Dissemos que não estivemos envolvidos naqueles ataques. Condenamos os ataques.”

Mas e quanto a um sobrevivente do grupo que participou dos ataques em Mumbai, Ajmal Amir Kasab, que declarou estar a serviço do grupo Lashkar-e-Taiba? Pausa. Said fala lentamente. “Ele contou várias histórias diferentes. Na corte, disse isso. Disse tantas coisas, não se sabe. O senhor acha justo basear todas as suas conclusões no que diz um homem preso?” É possível que Said tenha percebido que não estava me impressionando.

“Para entender, o senhor tem de entender a precisa situação que há entre Índia e Paquistão. O conflito é profundo. A Índia sempre apoiou os separatistas no Baluquistão. E há tantos grupos guerrilheiros na própria Índia, dividindo e fracionando o país. A Caxemira sempre lutou para libertar-se.

“Apoiamos os povos muçulmanos. O que acontecerá no futuro? Tenho algumas esperanças. Ver o Afeganistão livre de todos os ocupantes estrangeiros. O Paquistão também deve livrar-se da influência estrangeira. A Caxemira será independente. Esperamos que haja liberdade nessa área muçulmana – e liberdade de direitos. Falo da Índia, do Paquistão, de Bangladesh. O senhor sabe que nessa região vive a maior população muçulmana do mundo? Que são 500 milhões de muçulmanos?”

Fiz a Said a mesma pergunta que fiz, antes, a Osama bin Laden. Tem medo de ser assassinado? Evidentemente, Said já havia pensado no assunto. “Creio firmemente que minha vida e minha morte estão nas mãos de Alá. Enquanto Alá quiser que eu viva – e que prossiga, cumprindo minha missão – estou nas mãos Dele.”

Bin Laden fez melhor que isso. Bin Laden não escondeu o medo. Explicou precisa e claramente sua decisão de destruir os EUA. E sempre tinha à mão, durante as entrevistas, o fuzil AK-47. Em Lahore, só os policiais, do lado de fora, estavam armados. E Said só fez anunciar intenções pacíficas.

Os EUA acreditam que, em Hafiz Muhammad Said, o Paquistão teria criado um monstro à Frankenstein. Talvez. Mas Said não é Bin Laden.

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[1] Sobre a Caxemira, há bom verbete, com mapas, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Caxemira (NT).

[2] O Paquistão é um dos dois Estados resultantes da partição da Índia Britânica, dividida em 1947. Por quase 25 anos depois da independência foi constituído de duas regiões, Paquistão Leste e Paquistão Oeste. Hoje, só há o Paquistão Oeste; e Índia e Paquistão disputam a região da Caxemira, disputa que já levou às guerras de 1949, 1965, 1971, 1999 e permanece sem solução até hoje. Para mais dados sobre o país, ver, dentre outras páginas, http://www.infoplease.com/ipa/A0107861.html (NT).

* Há nesse parágrafo um possível ‘erro’ gramatical, ou lapso, intraduzível. O adjetivo que aparece no texto é “armless” – que significa “[gente] desarmada”. O uso de “armless” por “harmless” (aprox. “[gente] inofensiva” e/ou “sem ferimentos”) é erro gramatical considerado grave em inglês, mas muito frequente e explicável entre falantes de outras línguas. Fisk parece ter-se deixado impressionar mais do que o justificável, ante o talvez lapso ou ‘erro’ (NT).

Tradução de Caia Fittipaldi

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