“pra escrever basta escrever”?

Buenas, Lívio e demais,

talvez seja de poeta (como dizia saramago “pra escrever basta escrever”?), mas eu não me sinto feliz com a maioria dos meus versos; são mesmo raros os casos, mas como diz minha amiga Marize: “mas você é corajosa, vc escreve, vc se lança e vc não joga nada fora”. Talvez por ser muito rigorosa com poesia, o que me faz gostar ou não sugerindo uma “qualidade”. Mas quando não me sinto feliz com um poema meu a pergunta que me faço é na linha do M.A.L.: qual a utilidade disso? isso transforma alguém em alguma medida? ainda que ao menos um pensamento como “nossa, isso não tem nada com minha realidade, se fosse assim ou assado…”

Lembro dos versos de Jean Cocteau: “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê…”. A verdade é que a poesia não tem utilidade nenhuma, se, buscamos nela um substituto da vida… e dessa epígrafe reencontro Fischer (A necessidade da arte, 1959): “No entanto, será a arte apenas um substituto? Não expressará ela também uma relação mais profunda entre o homem e o mundo? E, naturalmente, poderá a função da arte ser resumida em uma única fórmula? Não satisfará ela diversas e variadas necessidades? E se, observando as origens da arte, chegarmos a conhecer a sua função inicial, não verificaremos também que essa função inicial se modificou e que novas funções passaram a existir? […] A arte é necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo. Mas a arte também é necessária em virtude da magia que lhe é inerente.”

Numa visita a exposição de Vik Muniz, no espaço Cultural da Universidade de Fortelaeza/ UNIFOR, eu (e o João Damata, ecoé!) percorria as grandes galerias do segundo ou terceiro andar, de pé-direito bastante alto e paredes de concreto. Uma profusão delirante de recriações de, entre outros, Monet, que mais me instigou por explorar em minúsculos pedacinhos de papel em mosaico, as qualidades óticas da luz e da cor, e despertavam intensas emoções. As telas pareciam exalar os perfumes das paisagens que retratavam. Um pequeno descuido já nos deixava ouvir o cantar das cigarras nos campos de sol escaldante, ou o ruído silencioso dos rios margeados por arbustos em variados tons de verde e leves pinceladas de violeta e aquela ponte multicolorida.

A visitação seguia pelas muitas galerias fechadas, quando, no meio de uma das salas surge, surpreendente, uma janela que nos deixava ver, lá fora, o entardecer da cidade, tendo como fundo um céu azul cravejado por nuvens esparsas, recortado pelos pequenos prédios da Universidade e suas árvores. Postei-me diante da janela durante longo tempo e percebi que não estava só. Vários dos visitantes permaneciam estáticos diante dela, olhando para aquela paisagem como se observassem uma pintura, uma obra de arte. Afastei-me da janela, sentei-me em um dos bancos próximos e me ative à reação das pessoas, à relação que estabeleciam com a paisagem que surgia pela vidraça, enquanto pensava na faculdade da arte de nos sensibilizar, em como a contemplação daquela seqüência de quadros havia provavelmente estimulado os visitantes a lançar um olhar estetizado para o mundo lá fora, em como a relação com as obras propiciava, ainda que por instantes, que os contempladores fruíssem a existência como uma experiência artística. Os visitantes entravam e saíam daquela galeria; o movimento em direção à janela e a relação com a paisagem fortalezense repetiu-se por longo período, até que me retirei da sala e do museu, não sem guardar cuidadosamente na memória aqueles que para mim foram intensos e raros momentos. O principal aspecto, que gostaria de ressaltar, da relação dos visitantes com as obras de arte e com a paisagem vista pela janela, que me chamou a atenção foi, sem dúvida, a capacidade da arte de provocar e, porque não, tocar os contempladores, sensibilizando-os para lançar um olhar renovado para a vida lá fora.

Aí que, na tentativa de compreender a atitude do interlocutor, do leitor de poesia enquanto experiência educacional ou puramente estética, podemos recorrer ao enfoque sutil presente na alegoria benjaminiana, que sugere que o ouvinte de uma história – ao ouvi-la, ou ler, compreendê-la em seus detalhes e empreender uma atitude interpretativa – choca os ovos da própria experiência, fazendo nascer deles o pensamento crítico. A imagem de chocar os ovos da própria experiência está relacionada com a idéia de que o ouvinte/ leitor, para efetivar uma compreensão da história que lhe está sendo apresentada, recorre ao seu patrimônio vivencial, interpretando-a, necessariamente, a partir de sua experiência e visão de mundo. Ao confrontar-se com a própria vida, neste exercício de compreensão da obra, o espectador revê e reflete sobre aspectos de sua história e os confronta com a narrativa com a qual se depara, chocando os ovos da experiência e fazendo deles nascer o pensamento crítico; pensando reflexivamente acerca da narrativa, interpretando-a, e também acerca de sua história, do seu passado, revendo atitudes e comportamentos, estando em condições favoráveis para, quem sabe, efetivar transformações em seu presente, e – levando-se em conta a perspectiva de um processo continuado de exercício de sua autonomia crítica e criativa – assumindo-se enquanto sujeito da própria história, tornando-se capaz de (re)desenhar um projeto para o seu futuro.

Então, Marcos e eu e Paulo, chocamos a sua poesia Lívio com nossa existência: comovente, animadora? Se não o for o é de qualquer maneira, ainda que seja pra saber o que não me atiça. Lembrando novamente e ainda que, a arte, sobretudo a poesia, vai desenhando imagens em nossa cabeça que, de acordo com nossos sócius internos e história pessoal e de mundo particular, interpretamos segundo a matéria de que somos feitos, e se meu repertório é vasto, maravilha: não contento-me com o que me é oferecido e busco redesenhar meus roteiros e EU fazer melhor, trascender.

Acho que me alonguei demais, penso em continuar essa conversa lá nas minhas áreas… rsrs…

Beijos pra todos ;)

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