“Romance é câncer da literatura”

Por Schneider Carpeggiani
carpeggiani@gmail.com
NO JORNAL DO COMMERCIO

Fernando Monteiro rema contra a maré, troca a ficção pela poesia e ataca as editoras brasileiras que tentam impor fórmulas de sucesso

O escritor Fernando Monteiro ostenta um novo alvo, desta vez a “sagrada instituição” do romance. Em entrevistas e palestras recentes, tem continuamente se referido ao gênero como o “câncer da literatura” e afirmado que, daqui para frente, pretende se dedicar à poesia. E estamos falando de um autor responsável por romances elogiados, como Aspades ETs etc., lançado primeiro em Portugal, em 1997.

“Neste momento, com a emergência do editor como protagonista principal – no cenário da literatura afinal dominada pelas leis de mercado – o romancista de hoje está seguindo fórmulas, esgotadas ou não, que pouco importam para as calculadoras & caixas de editores & livreiros do crepúsculo literário”, polemiza.

Segundo Monteiro, a crise mercadológica/conceitual do romance já é crônica no Brasil, com os autores recebendo verdadeiras fórmulas de bolo dos seus editoras. “Dona Luciana Villas Boas – que editou romances meus, na Record – abre sua caixinha de receitas para prescrever o ‘romance’ como o gênero a ser praticado pelos jovens escritores (nada de conto e, muito menos, poesia – ‘maldita’ por natureza, para o Deus Mercado) e surgem romancistas por todo os lados, com e sem aspas. Nesse cenário, anunciei uma atitude de nadador contra a maré, ou seja, em 2009 resolvi abandonar o romance, para retornar à poesia, como protesto contra as receitas de ficção e também em solidariedade à arte do verso.”

Apesar de ser lembrado sobretudo por sua ficção da última década, Monteiro começou sua carreira nos anos 1970 como poeta. Retornou ao gênero em 2009 com Vi uma foto de Anna Akhmátova, lançado pela Fundação de Cultura do Recife. Nesse longo poema, não se restringia a cantar o mundo – permanecia um escritor em busca de uma história. “Para mim essa é a forma de escrever ficção daqui para frente – remando contra a maré, repito. Esse é ao mal dos espíritos livres, no meio do rio poluído da cultura de massa.”

“A poesia precisa tentar recuperar o que Dámaso Alonso chamava de seu ‘contenido novelesco’. Isso foi responsável pela atraente forma narrativa que vigorou em outros tempos, e desde A odisseia, A divina comédia, O paraíso perdido. Nos poemas longos da tradição ocidental corre um fio novelesco em que – como no Anna – ‘algo está acontecendo’, em oposição à construção abstrata, em parte responsável pela esterilização da palavra poética. No Anna, eu proponho que os poemas mais do que nunca narrem, contem, relatem e, no final, ‘transcendentalizem’. A palavra de toque – em tempos de vulgaridade – é essa: transcendentalizar, ir mais além e mais fundo, na longa viagem para fora da noite do Mercado…”, continua Monteiro.

Apesar da sua crítica ao romance, faz questão de ressaltar que não existem formatos literários ideais que devem ser impostos aos escritores: “Não há formatos ideais nem gêneros ideiais, pelo menos para virem, ‘de fora’, a fim de serem colados ao mundo interior de um escritor. Não há receitas, como as do bolo de Dona Luciana Villas Boas. Há oferecimento do próprio pescoço, literatura de risco e verdade seguida até o fim: fora disso, tudo é bijuteria. Fora disso, é melhor se preparar pra ler os romances da ex-miss Vera Fischer, que já avisou ter mais de dez romances prontinhos da silva, todos tratando de personagens em viagens internacionais e outros luxos, porque a moça também confessou que não sabe ‘escrever para pobre’ etc. Sugiro que o prêmio Jabuti – que é muito feio – seja rebatizado prêmio Fixe (ou prêmio Ficha, marcada ou não) em prévia homenagem à qualidade dos romances ainda inéditos da Verinha.”

Monteiro aponta que sua produção ficcional é herdeira direta de um momento chave da produção brasileira recente, formada por autores como Osman Lins, Caio Fernando Abreu e João Antonio. “O romance é, ou deveria ser, um salto no escuro pós-joyceano, ou seja, uma aventura rumo ao centro da terra literária, e não o rebaixamento para o que ‘vende mais’), com e sem olhos verdes buarquianos – literatura apenas mediana premiada como grande – e todo esse sub-Leblon que baixou sobre a ficção do país de um criador do porte de Guimarães Rosa…”, conclui.

Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. Alberto Lacet 28 de janeiro de 2011 7:46

    UMA ANTOLOGIA DE CONTOS É COMO UMA EXPOSIÇÃO COLETIVA DE PINTURAS: CADA PINTOR CONVOCA SEU LEQUE DE RELACIONAMENTOS A PARTICIPAR DO EVENTO, E NO CASO DE LIVROS, ISSO SE TRADUZ COM UM SOMATÓRIO DE LEITORES EM POTENCIAL CAPAZ DE GERAR RECEITA PARA A EDITORA, QUE, NO CASO, SABE DISSO, E AQUI E ALI ABRE UMA CONCESSÃO PUBLICANDO COLETÂNEAS DE CONTOS. MAS QUANDO ISSO ACONTECE DEVE SER PRA COISA
    NÃO FICAR TÃO NA VISTA.

  2. Pingback: Tweets that mention Substantivo Plural » Blog Archive » “Romance é câncer da literatura” -- Topsy.com
  3. Pingback: Tweets that mention Substantivo Plural » Blog Archive » “Romance é câncer da literatura” -- Topsy.com
  4. Donato Assis 27 de janeiro de 2011 9:49

    Lucidez — e Coragem.

    PARABÉNS.

  5. Lívio Oliveira 27 de janeiro de 2011 7:25

    O debate, por si só, já é essencial.

  6. Cassionei Petry 26 de janeiro de 2011 20:15

    Engraçado que a editora Record teve com um dos seus grandes lançamentos recentes uma antologia de contos.

  7. Marcos Silva 26 de janeiro de 2011 16:41

    Amigos e amigas:

    Que bom ouvir uma voz que não é o eco do mercado. Alegria!

  8. Fernando Monteiro 26 de janeiro de 2011 15:41

    Nas respostas às perguntas (de Schneider Carpeggiani) que geraram esta matéria, referenciei a expressão “câncer da literatura” etc, embora isso não apareça na forma final dada pelo jornalista, certamente pela falta de maior espaço para o contexto todo das informações etc:
    “Desde 2001 o francês Henri Meschonnic (autor de uma vasta obra de teoria literária) já identificava uma “pandemia romanesca” que provavelmente levaria o gênero a se tornar o que ele chama, agora, de “o câncer da literatura”, nas águas das técnicas de storytelling que podem ser perfeitamente assimiladas àquela “reportagem universal” de que falava Mallarmé no final do século XIX.
    Ou, como colocou o português Antonio Guerreiro, em artigo publicado recentemente no jornal EXPRESSO:
    “O que se tornou hegemônico e pandêmico (as livrarias aí estão para confirmá-lo), não é o romance como forma aberta a todos os discursos e de certo modo indefinível como gênero, mas as variações infinitas e a mediocridade mimética a que Paul Valéry, no princípio do século XX, passou uma certidão de óbito ao dizer que já não era possível seguir o modelo narrativo do tipo daquele que está implícito numa frase como “La marquise sortît à cinq heures”.
    Foi isso o que acabou por chegar ao Brasil, nos últimos tempos, através do protagonismo dos editores por sobre a figura do autor, passando eles a ditar “receitas” para os jovens escritores, conforme para os jovens escritores, conforme fez Luciana Villas Boas, em edição recente da revista da Livraria Cultura, dizendo em claro e bom som que os jovens não deveriam “perder tempo com o conto e, muito menos, com a poesia”, sob pena de “venderem pouco e ficarem mal vistos pelos editores”.
    Ou seja, a diretora-editorial da Record deixa muito claro o que interessa à sua Record: o barulhinho-bom nas caixas registradoras”…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo