10 perguntas para a escritora Nivaldete Ferreira

1- Nivaldete Ferreira, recentemente seu livro “Memórias de Bárbara Cabarrús” foi reeditado. Fale-nos um pouco do que trata seu primeiro romance.
Romance ou contos com a mesma personagem, ou um “conjunto de narrativas quase independentes”, como bem observou Nélson Patriota. Começando por aqui, acho que, inconscientemente, segui Parmênides (séc. VI-V a. C.): “Pouco importa por onde comece, pois ao tema voltarei sempre”, algo um tanto psi. Aliás, eu deveria ter colocado isso como epígrafe. Agora, do que trata… Talvez de uma menina que nasceu e cresceu numa fazenda desses nossos sertões, no século XIX. Perguntava muito e, ao se tornar mulher, deixou de perguntar, passou a responder a si mesma, a questionar os outros e a desobedecer ao pai, um coronel, que a queria casada com um primo, forma de manter a riqueza e os poderes familiares. Sofre certa angústia da história, tem senso de justiça e vontade de saber do mundo lá fora. “Aqui também é mundo?”. E a avó responde: “Onde tem céu é mundo”. Mas ela vai…, depois de muito ter lido nos livros do irmão. Funda um jornal na capital, é demonizada pelas ideias desconformes, engravida (e aborta) de um cigano e vai a Portugal, em busca dos antepassados (descende de portugueses e espanhóis), mas desiste dessa busca a partir de uma carta de baralho Koan. Acaba voltando e admitindo que, enfim, poderá juntar sua vida à do primo, viúvo a essa altura. E o pai já não vive, assim não testemunhará a consumação, tardia embora, de sua vontade. A vontade é dela, agora. Mas sabe que é outra (pessoa), sendo a mesma. Outro ponto é a questão da culpa ou de como se pode engendrar uma acusação a partir de aparências. O tema retornou em outro romance que estou tentando concluir, e isso talvez tenha a ver com a culpa na cultura cristã. Jesus morreu pra nos salvar, está dito, e nós não prestamos atenção nisso, simplesmente não prestamos (risos), nos culpamos e culpamos os outros todo o tempo. Uma curiosidade: a ideia da concepção de Bárbara Cabarrús me veio depois que li um verbete sobre Teresa Cabarrús, uma espanhola do séc. XVIII que foi viver em Paris e, lá, tirando partido da beleza e da coragem, meteu-se na política, casou-se, divorciou-se, escandalizou…, e salvou, segundo se conta, muita gente da guilhotina. Diz-se também que uma carta sua provocou o infortúnio de Robespierre. Por coincidência, poucos dias antes ou depois do lançamento, aqui, de Memórias de Bárbara Cabarrús (set/2008), em Madrid a escritora uruguaia/espanhola Carmen Posadas lançava a biografia romanceada de Teresa Cabarrús (La Cinta Roja). Bárbara seria uma parenta dessa Cabarrús, que existiu de fato. Por fim, fiz uma ficção que rompe um tanto com a questão do gênero literário, mas segue a tradição no sentido do narrativo, só suspenso em algumas passagens. Um terceiro romance, quem sabe, jogará tudo para o alto, lá do alto do Pico do Cabugi…

2- O Rio Grande do Norte tem poucas mulheres romancistas, mas poetisas em abundância. Em sua opinião existe um motivo para esse fenômeno?
Numa tese geral, acho que há mais disponibilidade do espírito para a poesia, do mesmo modo que há para o canto. É difícil pensar uma pessoa que não canta pelo menos no banheiro ou que não diga alguma quadra poética vez por outra. Poesia e canto, aliás, sempre andaram juntos, até nas tarefas, basta lembrar os cantos de trabalho, em tempos passados. Mas pensando especificamente a poesia: ela é, aparentemente, de realização mais fácil, exige menos tempo. Embora poemas costumem ser retrabalhados, podem se resolver bem em dois versos, até em um, sem refazimentos. A ficção pede muito mais tempo, milhares de palavras, afastamentos e retornos, e há um envolvimento emocional considerável. Ora, as mulheres com mais acesso à leitura e apelo para a escrita geralmente trabalham, estudam, vão às compras, à cozinha, dão expedientes, às vezes têm filhos, e quando são professoras, então! O tempo que sobra para escrever, se sobra, é pouco para dar conta de um texto mais longo, a menos que se trate de alguém que tenha aptidão para uma escrita mais ou menos automática. Então acho que os dois fatores ajudam a explicar uma opção muito maior pela poesia, aqui e talvez no mundo.

3- Qual escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?
Diógenes da Cunha Lima, pela poesia e porque está ligado, via Zila Mamede, à minha vinda para Natal. Acho que ficaria bastante silenciosa, mas ele sabe provocar uma boa conversa, é cavalheiro, sensível. Então, daí a pouco eu pediria que cantasse uma das cantigas que fez para as crianças e que dissesse o terceiro poema da página 187 d’O Livro das Respostas, o da “janela galáctica”… Pronto. Por efeito da física quântica e da poesia, o café acaba de ser bebido numa mesinha cósmica, adoçado com açúcar que S. Jorge trouxe da lua.

4- Uma obra inesquecível?
Assim falava Zaratustra. Ainda tenho o exemplar da adolescência, tradução de Geir Campos.

5- Uma música?
Melodia sentimental, de Villa Lobos e Dora Vasconcelos. Bonita cantada por Mônica Salmaso, Ney Matogrosso ou Zizi Possi, e linda na voz de Betânia.

6- Um lugar memorável?
Algés, no estuário do Tejo, a 10 km de Lisboa.

7- Se um ET surgisse na sua frente e solicitasse: “Nivaldete Ferreira, leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Não sou chegada a líderes, mas levaria a Osho, um rasgador de cortinas ao alcance de todos/as. Assuntos de ego, eu autêntico, religião, morte, vida, amor, solidão, dinheiro… Mas não escreveu nada, fazia palestras, respondia a questões que lhe faziam e alguém gravava tudo. Era leitor de Nietzsche, inclusive. Até diz que a falha desse pensador foi ter filosofado com raiva. Claro, era um grande defensor da meditação, prática que faria muito bem se fosse adotada em todas as escolas desta pátria, onde a ira/violência tem tido tanta prontidão, sem falar em outros sentimentos/sofrimentos desastrantes, uns até idiotas, mas que geram as pequenas misérias cotidianas, como uma pessoa, em meio às outras, ter medo de faltar oxigênio para si, mesmo a céu aberto, então empurra quem está perto, para aumentar seu próprio metro quadrado… Mas a meditação não é pra amansar nem santificar, é pra dar lucidez com serenidade, pra libertar. Ajuda a sair da ‘caverna de Platão’, da ‘matrix’, versão contemporânea/futurista da ‘caverna grega’.

8- Alguns dos leitores talvez não saibam que você é prima de Zila Mamede, considerada a maior poeta do Estado. Nos conte um pouco da sua relação com ela, e se a poesia de Zila influenciou, de alguma maneira, a sua forma de fazer poesia.
Zila era prima legítima de minha mãe pelo lado materno (nasceram no mesmo ano e mês). Quando cresci mais, comecei a ouvir comentários de admiração, de amoroso orgulho pela sua vida, feitos principalmente por sua afilhada e também prima Marizinha. Quando Zila foi à Nova Palmeira, após muitos anos de sua partida para o RN, com a família, eu devia ter uns dez anos. Foi como um feriado da padroeira, encantamento geral… O tempo passou e, em 1972, resolvi escrever para ela, dizendo do meu desejo de vir para Natal, estudar e cuidar dos gerais da vida. Respondendo de pronto (ela estava em Brasília, no Instituto Nacional do Livro), disse que eu procurasse o presidente da Fundação José Augusto. No caso, o poeta Diógenes da Cunha Lima. Vim logo. Fui lá. Resumindo, comecei uma experiência enriquecedora na gráfica. Cheguei a dobrar capas de livros na oficina, junto com os operários, que às vezes tiravam a camisa por causa do calor. Eu, tão atraída por livros, assistindo agora ao nascimento físico de deles, vendo o espírito da palavra ganhar corpo… Uma experiência inesquecível. Depois fui para o Museu do Sobradinho e, finalmente, para a Biblioteca Câmara Cascudo, lugar que amei -e que se encontra, hoje, em vergonhosa e injustificável decadência. Pude, então, ter acesso à poesia de Zila. Primeiro, Salinas, um exemplar já amarelado, fininho. Anos depois, com Navegos (1978), conheci os outros livros e a produção mais recente dela, até então. Grande poesia, sim, no seu todo, levando em conta cada tempo histórico em que foi desenvolvida. Eu havia lido outros poetas, mas nada demais admitir que Sertanía (o acento no “i” é pra evitar que o corretor ponha “Sertânia”…), meu primeiro livro, tem influência da poesia dela, que por sua vez tem influência da de João Cabral, em alguns momentos, e por aí vai. Mas, no meu caso, só quanto ao modo de dizer, pois a temática da terra era de todo inevitável, já que, àquela altura, eu não tinha outra coisa de que falar, algo que me ocupasse tanto o espírito quanto as vivências em Nova Palmeira, e o afastamento se acompanhou de uma espécie de mormaço íntimo que queria sair pelas palavras… Foi assim. E no lançamento de Sertanía, no auditório da Reitoria da UFRN, ela fez um discurso bonito, o que me deixou particularmente feliz. Foi em 1979 e ela estava morando aqui de novo. Fui visita-la algumas vezes, mas não foram estabelecidos maiores laços. Ela tinha o mundo dela, eu tinha o meu, estava casada, fazia faculdade, o primeiro filho tinha nascido, essas coisas. Resta a minha gratidão a ela e a Diógenes. Para sempre.

9- Você é autora de livros de poemas, teatro e literatura infantil, além de pintar, desenhar, compor e fotografar. Que tipo de arte mais desperta a sua atenção?
A literatura. Foi e é, por assim dizer, o primeiro amor, o mais constante e trabalhoso, como costumam ser os amores. As outras linguagens estão para encontros também amorosos, porém esporádicos (sem traição). Quando sinto necessidade de criar formas visíveis, pinto/estrago uma tela, desenho alguma coisa, e tudo bem. Um apelo meio orgânico, talvez pra descansar das palavras. Gosto também de fotografar, mas ando me questionando sobre essa necessidade de querer reter tanto a imagem das coisas. Estou me restringindo às fotos familiares e de alguma coisa especial, como o desenho que a sombra de uma planta faz no chão, lembrando um perfil humano, por ex. O mais está à minha disposição a todo momento, não preciso capturar.

10- Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?
Navegos, de Zila Mamede.

Comments

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  1. Anchella Monte 4 de Agosto de 2016 20:41

    Prazerosa a leitura de sua entrevista, Nivaldete. Quando crescer quero ser como você: múltipla, conhecedora das coisas dos livros e da vida (redundância minha), sensível. E que nos venha sempre a sua poesia.

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