10 perguntas para o escritor Antonio Nahud

1- Quais foram as suas primeiras leituras literárias?
O primeiro livro lido, talvez “As Mil e uma Noites”. Aos oito, nove anos, esses contos de formosura delirante me pareciam sublimes. Nessa época, mergulhei nas páginas benditas de Monteiro Lobato e Sir Walter Scott. Aos doze, treze anos, a vez de Jorge Amado, Adonias Filho, Victor Hugo. A seguir Dostoievski, F. Scott Fitzgerald, Faulkner, Thomas Mann, Kafka, Hemingway. A inglesa Virgínia Woolf, o alemão Hermann Hesse e o mineiro Autran Dourado foram os primeiros escritores que me tocaram profundamente. Resultando num chamado literário.

2- Foi nesse período que começou seu amor pelo cinema?
Possivelmente nasci amando cinema. Meu pai, advogado intelectual, fascinado por filmes de guerra, western e aventura; minha mãe, comédias românticas e melodramas hollywoodianos. Nossa casa grande, decadente e movimentada, tinha pelo menos umas dez pessoas circulando, entre familiares e agregados. Havia também muitos animais e fantasmas no sótão. Na hora da sessão de cinema na TV, meu pai ordenava que não se podia dar um pio, e assim acontecia. Eu e meus cinco irmãos meninos, em silêncio, olhos pregados na telinha. Assistimos “Rebeldia Indomável”, estrelado por Paul Newman; “Os Doze Condenados”, “Os Girassóis da Rússia”. Aos doze fui com um tio a um cinema de arte ver “Amarcord”, de Fellini. Paixão à primeira vista. Nunca mais abandonei o cinema. É uma âncora de sobrevivência.

3- Cite-nos alguns dos seus filmes preferidos.
Meu apetite cinematográfico é versátil. Tenho fases de identificação por determinados gêneros, países, cineastas ou atores/atrizes. Posso garantir que Ingmar Bergman é o diretor favorito. Filmes? São tantos. “Rocco e seus Irmãos”, de Luchino Visconti; “A Marca da Maldade”, de Orson Welles; “Fausto”, de Murnau; “A Noite”, de Antonioni; “O Sol por Testemunha”, de René Clement; “Rastros de Ódio”, de John Ford; “O Segredo das Joias”, de Huston; o brasileiro “O Padre e a Moça”, de Joaquim Pedro de Andrade; “As Troianas”, de Cacoyannis. E tem mais outros tantos.

4- Além do cinema e da literatura, que outra arte desperta seu interesse?
Artes plásticas me encantam. Antes de escrever, tentei ser pintor, fiz exposições e vendi algumas telas. Ao visitar o Masp pela primeira vez, percebi que não tinha talento, nunca mais voltando a pintar. Amo também a música, dança, teatro. Vi extraordinárias companhias teatrais em muitos países. Visitei emblemáticos museus inúmeras vezes. Passava tardes e mais tardes no British Museum no ano em que morei em Londres. Em casa ouço música o tempo todo, principalmente jazz, bossa-nova, erudita.

5- Nahud, você organizou um livro onde entrevista muitas celebridades internacionais, fale-nos de como se deu a construção dessa obra.
De 1994 a 2006 vivi na Europa, com intervalo em 2002/3 trabalhando na Petrobras em Salvador, passando alguns meses em Natal. Correspondente internacional dos jornais A Tarde, Folha de S. Paulo e O Tempo, de Minas. Como freelancer, colaborava com inúmeras publicações no Brasil, Portugal e Espanha. Circulava em festivais e outras premiações de cinema, bienais literárias, estreias de filmes com a participação do elenco e apresentações de artistas brasileiros. Ao passar essa primeira temporada em Natal, fui entrevistado, conheci gente interessante e terminei convidado por uma editora local, A. S. Editores, para publicar um livro de entrevistas. Foi tudo rápido. Não houve tempo para dedicação. O lançamento de “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”, numa galeria em Petrópolis, foi sucesso. Vendi mais de 300 exemplares.

6- Você recebeu o Troféu Cultura – RN em 2013, com o livro de contos “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano”, ficou feliz com o resultado do livro?
O mundo não deveria incentivar fronteiras. Sou como os índios ou os ciganos, cujo território em que vivem não é limitado, documentado, comercializado. A noção de terra sem fronteiras se apresenta na literatura de viagens. “Pequenas Histórias” fala do mundo, principalmente do mundo interior. É uma antologia de contos escritos ao longo da vida, muitos deles publicados em jornais e revistas. No livro, está o meu conto mais antigo, “Fúria”, e também contos mais atuais que gosto apaixonadamente, outros nem tanto. Parece comigo, além de escrevê-lo, defini a ilustração da capa, papel, acompanhei de perto a diagramação. Ele teve lançamentos concorridos em várias capitais nordestinas, mas a distribuição capenga exilou o livro.

7- O que você lê na atualidade? Quais são suas principais influencias literárias?
Fui um dedicado leitor a vida toda. Atualmente leio pouco. Praticamente releio. Tenho preferido biografias, história, filosofia, livros que tratam do universo cinematográfico. Este ano li o italiano Alessandro Baricco – que entrevistei em Milão; “Catarina Paraguaçu – A Mãe do Brasil”, de Tasso Franco; e “Rincões dos Frutos de Ouro”, de Sabóia Ribeiro. Na fila para os próximos meses, Marguerite Yourcenar e Paul Bowles. Tive (tenho) influências de autores completamente distintos na sua forma de escrever: Virgínia Woolf, Clarice Lispector, Hesse, Whitman, Hilda, Rilke, Tolstoi, Fitzgerald, Ítalo Calvino. Também fui marcado pelo imaginário homossexual de James Baldwin, André Gide, Jean Genet, Yukio Mishima e Christopher Isherwood.

8- Você tem acompanhando a literatura potiguar contemporânea? O que tem lido? Qual a sua opinião sobre nossos escritores?
Passei um bom tempo descobrindo a literatura potiguar. Conheci muita gente boa. François Silvestre, Myriam Coeli, Oswaldo Lamartine, Marize Castro, Iracema Macedo, Iaperi Araújo, Paulo de Tarso, Luíz Fernando Guimarães, Francisco Ivan, Nei Leandro. Ano passado li Câmara Cascudo, amando seus pequenos perfis biográficos; a biografia de Newton Navarro por Sheyla Azevedo; “Carla Lescaut”, do amigo Cefas Carvalho; Lívio Oliveira. Considero que a literatura potiguar tem personalidade própria. É uma boa literatura.

9- A poesia potiguar tem uma tradição de ter sempre bons nomes publicando poesia. Na atualidade você enxerga isso também?
O Rio Grande do Norte é terra de poetas, assim como a Bahia é de prosadores. Confesso não conhecer o trabalho da maioria dos poetas locais. Como o tempo é curto, leio preferencialmente amigos ou conhecidos potiguares. Gosto dos jovens Yuri Ícaro e Augusto B. Medeiros. Gosto da poesia de Myriam Coeli e de Paulo de Tarso, talvez o maior talento poético potiguar vivo. Gosto de Iracema Macedo e Marize Castro. Gosto da poética “enamorada do viver” do professor Diogenes. Gosto de Dorian Gray e Luiz Carlos Guimarães. O Rio do Norte não pode se queixar, conta com poetas expressivos. Na prosa, nem tanto, contam-se nos dedos.

10- Quem é a escritor Antonio Nahud?
Uma figura fascinada por diversas coisas, desde paisagens geográficas a fábulas imateriais, vivendo nessa intensa troca de sensações para continuar pulsando. Não é um coração excitado por ambições, sua vida não é um show ordinário, por uma questão de temperamento não desfruta do descartável. Tampouco é escritor humorado; é coração que denuncia, protesta, chora, questiona. De acordo com o mestre William Faulkner, um escritor precisa de três coisas: experiência, observação e imaginação. Sendo que duas delas podem suprir a falta da outra. Creio que o escritor Antonio Nahud tem tudo isso.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Arnoldo Maynard 9 de Junho de 2016 15:09

    Massa!

  2. Rita Macedo 13 de Junho de 2016 12:13

    Maravilha de escritor. Sou fã.

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