10 perguntas para o escritor e artista plástico Novenil Barros

1- Novenil Barros, quais foram suas primeiras leituras?
Na infância, no Vale do Ceará-Mirim, gostava de sentir o vento e mar, as velas dos barcos, o sol e a lua, ver as nuvens e as estrelas e ler os livros da escola. Na juventude: muita conversa com os amigos, nas trilhas do mato, equinas e nos muros. Música de rádio, revistas, histórias em quadrinhos, Sítio do Pica-Pau Amarelo de Monteiro Lobato, o Caderno Infantil do Jornal do Brasil e Folha de São Paulo lidos pelo meu pai. Livros de Arte, Botânica e Poesia e também Religião. O desenho e a pintura também se manifestaram bem cedo. Lia muitos livros sobre história da arte, artistas, galerias e catálogos trazidos pela minha irmã. Tinha muita curiosidade com tudo que fosse diferente.

2- Relate-nos um pouco dos movimentos literários da sua geração, aqui em Natal, no final dos anos 70 e início dos 80.
Vim morar em Natal por volta de 1976. A poesia, na época era super praticada por todos nós, em publicações e recitais, cartazes, camisetas e muros, juntando-se às influências das vanguardas artísticas na música, teatro. no cinema de Glauber Rocha, no surrealismo espanhol e italiano. A Semana de 22 com o manifesto antropofágico, Tarsila, a tropicália, Hélio Oiticica. A pop art, dadaísmo, futurismo, a poesia visual, poema processo, arte postal, o concretismo e o neo-concretismo das novas linguagens, a semiótica de Falves Siva e Décio Pignatari, a pós-modernidade até o pós-tudo. Simultâneo a tudo isso, o mergulho no passado e nas tradições artísticas e culturais do mundo. A arte indígena e oriental. O minimalismo, o hai kai e o koan já nos anos 90, com Bashô, Issa e Leminsk. Tenho profunda admiração por Gabriel Garcia Marques, Guimarães Rosa, Gilberto Freire, Mia Couto, entre tantos. Atualmente e por sugestão do amigo Lívio Oliveira vou ler “A Utilidade do Inútil” de Nuccio Ordine.

3- Foi nessa época que você teve suas primeiras experiências como poeta e artista plástico?
Antes, na adolescência, já pintava toda a calçada da frente da casa em Ceará-Mirim e rabiscava desenhos e poesias que eu nem sabia de onde vinham. Em 1978, fiz minha primeira exposição em Natal, na Livraria Encontro, na Av. Rio Branco, me causando espanto e alegria, a curiosidade dos observadores, amigos e compradores. O Festival de Artes do Natal durante quase uma década foi fomento e espaço para muita experimentação ética, estética e política da nossa arte. A partir daí foram várias exposições, oficinas, atuações em diversos projetos e lugares do país e do mundo. Envolvendo a arte, a ecologia e a espiritualidade. Sempre.

4- Você participou de alguns trabalhos literários como o “Liquidação de Poemas” e “Vibrações Plin-fletárias”. Relate-nos um pouco desses eventos e da turma que participava.
Foram várias e simultâneas empreitadas artísticas na época, havia bastante participação dos artistas e poetas em uma mesma publicação e/ou acontecimento, alguns com menos, outros com maiores repercussões. Tanto o “Liquidação de Poemas” como o “Vibrações Plinfetárias” tinham essa riqueza e sempre anunciavam novidades que vinham de mim. João Batista Morais, Joís Alberto, Antônio Ronaldo, Jota Medeiros, Carlos Gurgel, Marize Castro, entre outros que se agitavam. Tínhamos o suplemento literário “Contexto” com Carlos Humberto Dantas no Jornal A República, Hotel das Estrelas com Véscio Lisboa, O Galo com Marize Castro. O livro “Natal Futurista” de Jota Medeiros e por aí vai. A Exposição de Artdoor de 1984, também foi um marco nas artes visuais da província.

5- Em sua opinião o que falta para o escritor potiguar romper com os muros provincianos?
Acho que um bom conteúdo e bastante ousadia, além de uma boa equipe de trabalho, sinergia, amigos aliados e gostar de viajar.

6- Além das artes plásticas e da literatura, que outra arte desperta seu interesse?
Todas as artes, acredito piamente que se completam e que deveríamos, se não as praticar, conhecê-las para melhoria da qualidade de vida e compreensão dos aspectos intangíveis da nossa existência. Educação básica. Na Índia, em certas castas os homens precisavam ter no mínimo 500 artes e as mulheres, 1.500. A palavra arte vem do sânscrito e quer dizer ‘fazer’ qualquer coisa bem-feita. Eu digo que a arte anseia as 24 horas.

7- A poesia potiguar tem uma tradição de ter sempre bons nomes publicando poemas. Na atualidade, você enxerga isso também?
Enxergo. Sempre observo o que acontece por aqui, fiquei vinte e poucos anos fora de Natal, viajando pelo Centro Oeste e Norte do Brasil, sempre observando. Tenho visto e lido coisas interessantes, mas falta arrebatamento, novidade.

8- E nas artes plásticas, temos nomes relevantes no momento?
Temos um panorama complexo, diverso e muito rico, não falta ousadia, novidades também. Existem muitas repetições e derivados, diluições e uma ausência de organização instrumental, institucional e de representação; faltam meios de produção, publicações e difusão das artes visuais e até mesmo de companheirismo da classe. O Grafite roubou a cena, é a bola da vez, está na moda, preenchendo um vazio na atualidade. A Exposição ARTELUZ, sob minha curadoria, propunha uma visão diversificada e holística da produção das artes visuais, local. Além dos projetos coletivos que atuo no Itajubá Memorial e Espaço Cultural, onde sou Curador e coordeno atividades e mantenho uma Residência Artística com a Oficina de Artes Visuais, realizo diariamente o meu propósito de criar: Lendo, escrevendo, pesquisando, desenhando, pintando e preparando as próximas exposições: Ossos do Ofício e O MANTO. Também atuo em projetos ecológicos onde, através da OPA oficina do papel, desenvolvemos atividades de educação ambiental, permacultura e produção de papel artesanal e derivados em espaços culturais, escolas, parques e comunidades.

9- Como anda a nossa situação cultural e literária, se comparada, por exemplo, aos anos 80?
Cada década tem seu jeito e deixa suas marcas. Quero ser otimista e acreditar que tem melhorado. Agora temos a tecnologia e isso muda muito a maneira de fazer arte e obter cultura.

10- Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?
O Delírio Urbano – coletivos de autores locais pode ser uma boa fonte de pesquisa do assunto em pauta, entre alguns outros poucos títulos que temos. Pessoalmente estou lendo o poeta Ferreira Itajubá, “neo-humanismo” de Prabhat Rainjan Sarkar e “Menino do Mato” de Manoel de Barros, entre outros.
Livro de consulta: I Ching (Oráculo Chinês).

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Cassia Koubemba 8 de Abril de 2017 4:37

    Notifique-me sobre novas publicações por e-mail.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP