10 perguntas para o escritor e ensandecido Plínio Sanderson

1- Plínio Sanderson, onde você nasceu e quais foram suas primeiras leituras?
Nasci no sertão do Seridó num Caicó quase arcaico. Desvendei os códigos da leitura antes de meus colegas de escola. Iniciado por HQ’s e uma coleção de histórias clássicas infantis – que não se perderam no baú de memórias. Lembro que ficava ansioso quando chegava às quartas-feiras, dia que meu pai trazia livros novos da banca.

2- Quando você veio residir na capital e quais as suas primeiras impressões da cidade na época?
Migrei pra capital final dos anos 60, tinha quatro anos. Guardo apenas vagas lembranças de Caicó, incluindo o medo de papangu que nutro como pertença. Fui morar no Tirol, não existe céu azul como aquele em contraste com mata atlântica, vigiada pelas antenas de comunicação. Rememoro os cheiros. Até hoje sinto as épocas, estações, solstícios e/ou equinócios pelos cheiros fugidios nos ares de minha aldeia – toda metida e comprometida, quase pólis. O Atlântico, como miragem, sempre impregnou a paisagem. Falava pra amigo poeta soteropolitano Alberon Soares, queria ver a cidade com seus olhos de forasteiros. De quando em vez, ainda saio absorto, vagando olhares pelas avenidas, ruas e becos com admiração, tentando mirar sensações; quando o texto impresso nos cenários são desvendados tudo parece ser mais nítido, mas o encanto do olhar permanece à vista. O grande Othoniel chamava Jerimulândia, o carma de haver nascido na esquina atlântica do continente. A cidade me tem.

3- Relate-nos um pouco dos movimentos literários, da sua geração, aqui em Natal, no inicio dos 80. Quem eram os amigos mais próximos que também gostavam de poesia?
A poesia me escolheu. Foi uma necessidade de catarse. Comecei a frequentar os lugares que a galera tinha pra se comunicar, com certeza a “Galeria do Povo” na praia dos artistas foi canal de abertura para aquela Geração. Lá conheci meu Gigante, Dunga. Vi as primeiras edições da Poesia Alternativa/Marginal. Os meninos do Aluá, capitaneados pelo irrequieto Venâncio, Dorian Lima (esse diz ter se arrependido de ser poeta), Aluísio Mathias, João Barra; a galera da Poesia Suburbana, como amigo musicista Cleudo Freire. Os Festivais de Arte, a princípio do Forte (Fortaleza dos Reis Magos), foram catalizadores desse Movimento da chamada Contracultura de Natal, um dia chamada de Londres Nordestina. A eclosão da COOART no prédio do Centro de Cultura, hoje Memorial Câmara Cascudo, tentou organizar essa massa que se manifestava através das linguagens artísticas, notadamente literatura (leia-se poesia) e plásticas. O grande legado com certeza foi a consolidação do 14 de Março, Dia da Poesia no calendário da cidade, tonando-se referência de resistência em todo país. Na história dos Dias da bendita Poesia vislumbramos happenings/performances memoráveis.

4- Você, inclusive, chegou a publicar alguns trabalhos poéticos nessa época, correto?
Então, ao vivenciar as primeiras edições da Poesia Alternativa/Marginal, reuni alguns amigos que também escreviam e fomos à batalha: resmas de papel, estênceis e lugar pra imprimir os livretos em mimeógrafo. Juntamo-nos em um grupo: Kátia Leonila, Moura Neto (jornalista que um dia já foi América Pinheiro), O Tronxo (onde andará Dom Tronxo?), Marcellus Bruce, Wellington Dantas. Publicamos dois livros: “Ainda Estamos Vivos”/79, “Cio Poético’/80. Com outra Galera (Jota Medeiros e América Pinheiro) publicamos com Anti-Livro “Fanártico”. Ainda publiquei individualmente: “Atresia – uma penetração através dos poros”/83 e “Afetart”/85. Detalhe, todas às vezes que ia lançar um novo livro, queimava exemplares dos anteriores, ao ponto de não ter nenhum. Tenho 3 livros para publicar: “Panaroma no Kaos – um ex-tudo da Polética (livro que exercito a melopeia, logopeia e fanopeia do Pound e mais artigos publicados em jornais sobre política cultural), Um livro de hai-kais e um livro que relata ciclo expedição de fiz entre Baia da Traíção/PB e Canoa Quebrada/CE – pedalei sozinho todo litoral da antiga Capitania do Rio Grande, onde abordo questões históricas, geográficas e etnográficas ocorridas nessa franja litorânea.

5- E a fase como aluno universitário? Algum motivo especial o fez escolher cursar Sociologia?
Sempre que meus filhos – tenho três – vão prestar concurso (vestibular ou Enem) me perguntam sobre o que fazer e eu digo que não represento bom exemplo. Em minha vida estudantil sempre tive boas notas, aliás, disputava com amigo poeta Carito as primeiras colocações, podia passar em qualquer curso. Quando decidi fazer Ciências Sociais meu pai ficou possesso e vaticinou: te dei educação da melhor qualidade pra você fazer isso que não serve pra nada e não tem futuro, por quê? Respondi crédulo: quero saber como o homem explora e é explorado pelo outro. Enfim, nos anos loucos de 80 a UFRN era um palco (de siglas ideológicas) divertido. Decepcionado pela caretice marxista que imperava na época, ajudei a fundar o Movimento Anarquista na UFRN, como o saudoso “Pelas Efervescências, SONRIZAL, não vote, revolte: ARROTE”. Liberamos o uso de bermuda na universidade. Com o Sociólogo e historiador João Gothardo Emereciano (fundador do alternativo Jornal Potiguar) inauguramos o MAN (Movimento Ativista Nada) nos corredores do setor 2, era um espaço de comunicação bem interativo que teve repercussões e causou grande desconfiança e inveja aos militantes dos partidos. Terminei depois de quase 10 anos o curso de Antropologia. No início do século XXI voltei à UFRN para fazer Geografia.

6- Além da literatura, que outra arte desperta seu interesse?
Tenho artrite crônica. Todas as nuances me seduzem. Atualmente, vou a quase todas as peças de teatro dos grupos daqui e que passam por aqui através desses projetos de circulação nacional. Não compro mais livros (aliás, só se for sobre o RN, quando vou aos lançamentos dou-os pra namorada que adora) e discos; só adquiro obras de arte (plásticas), tenho uma “plinacoteca” com perto dos 300 trabalhos. Arte é antídoto contra o “tódio” do mundo. Um dia disponibilizarei todas em um espaço de ambiência cultural.

7- Em sua opinião o que falta para o escritor potiguar romper com os muros provincianos?
Nossa ociocidade tem problema letal. Seria a famigerada maldição cascudiana? Com os meios de comunicação de massa e a massa da comunicação, não tem explicação plausível para isolamento, nem barreiras. Imagine se a Banda Du Souto tivesse eclodido em qualquer outro lugar? Já teria explodido no mercado nacional. Sou/estou com uma abnegação intrínseca, divulgar os valores e potencialidades do nosso “Rio Grande Sem Sorte” (saudades do poeta chumbo grosso: Boscopeta). É uma luta quase quixotesca. Com advento do ENEM, perdemos o pouco que restava de conhecimento sobre nosso estado, só vemos história/geografia do RN nas primeiras séries do ensino fundamental. No vestibular ainda tínhamos algumas escolas que colocavam na grade de disciplinas, hoje, nem isso. Quanto mais inserido na “globarbarização” mais apartado de nossa própria história. Não me seduz o estrelato de veleidade nacional. Acho mais interessante nos desnudarmos, um exercício essencial de identidade e pertencimento. Temos que ter a consciência de nosso lugar nesse planeta. Chega de estupros culturais. Economicamente, mesmo que saísse além dos fronts não mudaria a vida de ninguém, seria apenas para polir os arroubos da vaidade.

8- A poesia potiguar tem uma tradição de ter sempre bons nomes publicando poemas. Na atualidade, você enxerga isso também?
Natal cresceu, aquela cidade acabrunhada de fazenda mal iluminada, não existe mais, ou como disse o padre que aqui passou, não há tal, mitificou-se no passado. Temos uma plêiade de novos talentos nos arrabaldes citatinos. Uma galera nova, principalmente de jovens meninas com produção interessante. Aquele ditado popular: “Rio Grande do Norte, capital Natal, em cada esquina um poeta…” parece estar bem atual, em cada rede social se reproduzem poetas… Acho que as leis de incentivo (Câmara Cascudo e Djalma Maranhão) estão equivocadas. Deveriam ser direcionadas para produção e divulgação dos escritores/poetas e não alvo de grupos que se perpetuam em projetos – cadeiras cativas? Deveria haver uma maior pulverização de projetos com valores menores que contemplasse uma gama maior de produtores; não projetos com valores astronômicos que ainda cobram entradas. Fiz especialização em gestão pública e meu objeto de estudo foi justamente: “A Lei de Incentivo Câmara Cascudo é um Instrumento Norteador de Política Cultural no RN?”. Escrevi também texto publicado na coluna do Serejo: “Na lei, um Cascudo”.

9- Como anda a nossa situação cultural e literária, se comparada, por exemplo, aos anos 80?
Acredito que os escrachados e desbundantes anos 80 tinham aquela áurea onírica. Talvez seja um delírio mítico ou até lugar comum, pensar: aquela geração (nossa) era diferente, mais inspirada etcétera e tal. Hoje, não há espaço para romantismo! Pra ser artista (e ter sua obra mostrada, exibida, publicada) tem que ter Projeto, a era do artista-projétil! Ainda paira aquele insight poético: “falta cultura pra cuspir na estrutura”. Cada época com suas vicissitudes, limitações e agonias.

10- Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?
Pornopopeia, do Reinaldo de Moraes. Zé Carlos é meu alter ego…

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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