10 perguntas para o escritor José de Castro

caastr1- José de Castro, você por muito tempo você vem sendo reconhecido como escritor de literatura infantojuvenil. Fale-nos um pouco dos seus novos trabalhos, voltados, digamos assim, para um público mais adulto.
Na verdade eu me descobri autor de literatura infantojuvenil tardiamente. Sempre escrevi para adultos, principalmente humor, com uma grande admiração pelos mestres Millôr Fernandes, Max Nunes, Barão de Itararé, Stanislaw Ponte Preta, tendo publicado até mesmo em “O Pasquim”. Mas um dia resolvi experimentar a escrita para crianças e tomei gosto. Inaugurei-me com “A marreca de Rebeca” há quatorze anos, um livro de sucessivas reedições, hoje com a Bagaço/Recife. E vou continuar produzindo para esse público que adoro. Mas não posso deixar de escrever para “gente grande”. Foi assim que reuni uma coletânea de poemas no livro “Apenas palavras” e depois escrevi, em dois dias, o “Quando chover estrelas”, numa homenagem a Leminski. Estou com um projeto de prosa poética para adultos na gaveta, meio adormecido. E com mais um de humor já na agulha. E, além do mais, estou com o projeto de um livro de poemas minimalistas para adultos, no qual pretendo reunir haicais, poetrix e aldravias. E mais outro de poemas do tipo “algumas palavras a mais…” Aguardem.

2- Qual seu gênero literário preferido, em que área você mais se realiza escrevendo?
Pense numa pergunta de difícil resposta… Gosto de todos os gêneros e exercito muitos deles. Inclusive o cordel. Escrevo contos e crônicas. Gosto do gênero humor. Contudo, venho me destacando mais na poesia do que na prosa. Mesmo na literatura infantil há uma predominância dos livros com poemas. Mas a prosa que me aguarde… Estou afiando os dedos da memória narrativa… Quem sabe um livro de contos ou uma novela?

3- Existem no Estado, atualmente, outros bons autores de literatura infantojuvenil?
Com certeza, sim. Temos Salizete Freire, Marcos Medeiros, José Acaci, Juliano Freire, Clotilde Tavares, Antonio Francisco, Monalisa Silvério, Andréa Pernambuco Toledo, Dorinha Timóteo, Flauzineide Moura, Carol Vasconcelos, Roberto Lima de Souza, Gisele Borba, dentre outros. Assim, a alguns não mencionados, peço perdão, porque senão a lista ia crescer muito. Você que escreve para criança ou para adolescente, sinta-se valorizado, pois isso é quase uma missão. Tenho esperança que outros autores talentosos resolvam também escrever para esse público que é tão carente de boa literatura, seja em prosa ou em poesia.

4- Qual escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?
Manoel de Barros. Já pensou o grande privilégio, eu, ali no pantanal mato-grossense, a desfrutar da companhia desse poeta menino, meio árvore, meio passarinho? Seria demais para o meu coração… Eu tinha um projeto de ir até lá e abraçá-lo… “Poesia é voar fora da asa.”, como dizia. Pena que ele voou antes de eu conseguir realizar meu intento.

5- Uma obra inesquecível?
Pedro Páramo, de Juan Rulfo. É uma novela única, numa prosa que tange o poético. Um livro que nos leva a pensar na busca permanente que fazemos para descobrir nossas origens. De certo modo, todos nós somos um pouco filhos bastardos, um pouco deserdados de muita coisa, que gostaríamos de ter e que não temos. Como se o nosso presente fosse apenas um eco de todo um passado que desconhecemos e que nos faz trilhar para um futuro incerto. Nesse livro, as vozes dos vivos se misturam às dos mortos, como acontece também nas narrativas do mestre moçambicano Mia Couto, principalmente em “Terra Sonâmbula”. Na verdade, tenho mais que uma obra inesquecível… Como não citar “Dom Quixote de La Mancha”?

6- Uma música?
De novo, uma sinuca de bico. Posso citar duas, três, dez, quem sabe? Música é algo que marca épocas de nossa vida, desde a infância até os dias de hoje. Mesmo com toda a pobreza atual, ainda dá para se garimpar alguma coisa. Mas, na verdade, creio que o cancioneiro popular brasileiro está mais nos tempos idos, mesmo os não muito distantes. Marcou-me muito “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso. Uma música que, na época, foi inovadora e revolucionária, e que fala de um tempo que persiste. Todos nós, ainda hoje estamos um pouco “sem lenço e sem documento” e procurando descobrir como fazer pulsar o coração do Brasil. E também “Apenas um rapaz latino americano” e “A palo seco”, ambas do admirável poeta e compositor Belchior. Eu também quero que um canto torto feito faca corte a carne de todos nós. Para que sangremos a esperança de dias melhores. Pois a “Felicidade” foi-se embora… E “já faz três noites que pro norte relampeia…”

7- Um lugar memorável?
Porto de Canoas. Figueira do Rio Doce. Que são os dois antigos nomes da cidade que me viu criança, que é Governador Valadares, em Minas Gerais. E fico pensando na maldade e na falta de bom senso do homem em mudar o nome de uma cidade, no qual tem poesia, para o nome de um político, por melhor que ele tenha sido. Você já viu algo parecido? Acho isso o fim, que me desculpe o Benedito Valadares. Nasci em Resplendor/MG, nome bonito e significativo. Mas cresci no sopé da Ibituruna, em Valadares, por onde corre um rio largo, o rio Doce, onde aprendi a nadar. Ainda hoje suas águas cachoeiram em mim. Pena que uma mineradora (Samarco) quase o tenha destruído. Levará anos, mas ele se recuperará. Tenho fé.

8- Se um ET surgisse na sua frente e solicitasse “José de Castro, leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Posso citar dois? Queria citar mais. Um deles seria Bartolomeu Campos de Queirós. Já estive face a face com ele várias vezes antes de sua partida para outras esferas. Tenho profunda admiração e respeito por esse escritor tão grande e tão humilde ao mesmo tempo, despido de vaidades totalmente. “Ciganos”, “O olho de vidro do meu avô” e “Até passarinho passa” (existem outros que gosto) são livros dele que moram no meu coração pela extrema delicadeza e profundidade narrativa, algo que nos desnuda a alma. Outro seria José Paulo Paes, que não conheci pessoalmente. “Poemas para brincar” é primoroso, pois é exatamente esse modelo de escrita que almejo: o brincar com as palavras e fazer delas um objeto de fruição mágica, como se fossem matéria de sonho, magia e encantamento.

9- José de Castro, de que maneira, como escritor e jornalista, você analisa a nossa atual situação cultural? Existe saída para a crise cultural, que enfrentamos aqui no Estado, com as sucessivas mudanças de gestores da Fundação José Augusto?
No Brasil de hoje vivemos uma grande instabilidade política que gera uma profunda descontinuidade administrativa. E aqui no RN não é diferente. Cada novo gestor nomeado nos tais cargos de confiança, em geral, faz questão de desconhecer os projetos da administração anterior. E recomeça novos projetos, em nome de uma espécie de síndrome da desconstrução ou “minha administração vai fazer melhor”. E assim os projetos culturais não avançam, ficam travados. E os problemas de sempre continuam sem solução. Geralmente o gestor de plantão atende aos interesses de sua clientela. É urgente que a cultura seja vista para além de casuísmos e de componentes ideológico-partidários. Falta um projeto de cultura abrangente para o Rio Grande do Norte. Que contemple todas as suas vertentes, todas as suas formas de manifestação. Na literatura, por exemplo, seria necessária maior valorização do autor potiguar de todos os gêneros, inclusive da literatura infantojuvenil, que é a base da formação de bons leitores. E cuidar com mais carinho das bibliotecas. Precisa haver investimento nesse setor, com a multiplicação de espaços de leitura e atualização permanente com acervos de qualidade, tanto de autores locais quanto nacionais e da literatura universal. Precisa-se estimular a leitura dos clássicos de todos os tempos e lugares. Fazer do Rio Grande do Norte um estado de leitores já seria um primeiro passo. Um passo importante e que precisa ser dado com urgência.

10- Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?
Isso é covardia. Apenas um? Difícil… Meus olhos já percorreram tantas páginas, percorreram tantos mundos, próximos e distantes, de Pasárgada a Macondo, passando por Comala e pelo país de São Saruê, Terra do Nunca e pelas Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino. Mas vou indicar um que tem a ver com as minhas raízes mineiras: Grande Sertão: Veredas. A narrativa de Guimarães Rosa é única, inventiva, provocativa. Um caudal inexaurível de pensares, dizeres e sentires. ”Eu sou eu mesmo. Divêrjo de todo mundo… Eu quase que nada sei. Mas desconfio de muita coisa.” Quem nunca teve o seu dia de mistério, de incertezas? Quem nunca cismou feito um (a) Diadorim? Nas veredas de Rosa a gente se perde e se encanta. Há muita leitura para se desbravar em puro estado de alumbramento. Arre! Ipe!

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Anchella Monte 25 de Julho de 2016 20:34

    Castro, bom ler sua entrevista neste dia do escritor. Dedicado às palavras, à valorização da leitura literária, à criação, tem meu respeito e admiração. Das músicas que citou, gosto de todas, inesquecíveis, para sempre fortes. Abraço.

  2. Anchieta Rolim 25 de Julho de 2016 21:01

    Thiago, valeu por nos trazer mais uma ótima entrevista. José de Castro, é seu dúvidas um dos nossos grande Poetas. Avante, sempre…. Abraços!!!

  3. Carmen Vasconcelos 26 de Julho de 2016 11:29

    Porto de Canoas. Figueira do Rio Doce. Cada nome é mais bonito que o outro. Tô de coração partido com a mudança para o nome de Valadares. Que maldade infinda. A propósito, uma coisa me tem intrigado há tempos. Diminuíram os ventos de Caiçara, aquela que, segundo muitos, tinha o nome mais lindo das cidades do país. Antes Caiçara do Rio dos Ventos, o nome foi poeticamente empobrecido. Agora é Caiçara do Rio do Vento. Uma perda de força imagética e simbólica evidente e, para mim, injustificável. Por que, hein?

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