10 perguntas para a escritora Carmem Vasconcelos

1- Carmen Vasconcelos, fale-nos um pouco do seu mais recente livro, “Uma Noite Entre Mil”.
Uma noite entre mil é uma compilação de textos variados que começaram como uma tentativa de escrever em prosa, o que até então eu não havia feito. Mais do que tal tentativa, eles, os textos, também nasceram de uma necessidade de divulgação dos poemas, numa linguagem que as pessoas leem mais, e em um veículo de grande alcance, que é o jornal. Então, os textos em prosa são, em grande parte, filhos dos poemas que eu já tinha escrito ou estava escrevendo. Como os poemas, eles também conversam bastante com a arte que eu admiro e da qual constantemente me alimento. São textos que falam de arte e de vida.

2- Qual a sua gênero literário preferido?
Quanto a gênero literário, prefiro os poemas.

3- Qual escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?
Octavio Paz. Mas, na circunstância, preferiria um vinho.

4- Uma obra inesquecível?
A pergunta mais difícil. Se me fosse feita cem vezes, talvez cem obras eu citasse. Aqui, citarei um livro infantil, que li na infância e nunca esqueci: Soprinho, de Fernanda Lopes de Almeida.

5- Uma música?
Opa! Pensei que a pergunta anterior fosse mais difícil. Uma música? Uma só? Eu era um lobisomem juvenil, de Renato Russo.

6- Um lugar memorável?

Praga, na República Tcheca.

7- Se um ET surgisse na sua frente e solicitasse “Carmen Vasconcelos, leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ele já estaria diante do meu líder.

8- Carmen, de que maneira você analisa a nossa atual situação política? Existe saída para a crise, inclusive cultural, que enfrentamos?
Gostaria muito que a saída fosse pela esquerda. Acho que os conceitos de direita e esquerda nunca fizeram tanto sentido como agora, no mundo. Vejo, com muita tristeza, direitos e liberdades individuais vilipendiados pelo avanço de uma direita que pretende impor padrões de comportamento e crença para serem seguidos e praticados por todo o mundo, como se fôssemos uma manada, um rebanho. Politicamente, a direita assume agora porções de poder que ameaçam as singularidades, a diversidade, não só política, como humana. Quando digo que os conceitos de esquerda e direita nunca fizeram tanto sentido como agora, não quero com isso menosprezar as nuances e vertentes que existem em cada um desses, digamos assim, blocos. Também sei que há uma parte da direita liberal, que defende as liberdades individuais. Mas, no mundo e, principalmente, no Brasil (realidade da qual podemos falar com maior profundidade), a direita que avança e se põe no poder é conservadora, não só em termos de redução do Estado e da proteção social (com a ampliação do poder do mercado e do capital), mas também em termos de costumes e padrões sociais. A direita que toma a dianteira está imersa em preconceitos nefastos e perigosos para a liberdade do exercício de se viver o que se é e se quer. Também não quero menosprezar os erros que a esquerda tem cometido e que contribuíram para esse avanço da direita, incluindo aí a adesão ao sistema de poder que não prescinde da corrupção para existir. Tínhamos até pouco tempo um governo que começou como centro-esquerda, mas pendia para a aceitação de pautas impostas pela direita. Um não governo que estava paralisado e acabou derrubado por um desgoverno ilegítimo. O processo de Impeachment ainda não foi concluído, mas acredito que a situação hoje interina se torne permanente. Não tenho nenhum otimismo com tal situação. Torço pela vitória de um projeto de esquerda (devo lembrar que a esquerda é muito maior do que o PT) nas próximas eleições, mas acho difícil que tal projeto seja viabilizado a tão curto prazo pelo voto popular. Então, responder se existe uma saída é bem complicado. A história pode até ser uma sucessão de crises e superações, mas devo lembrar que somos autodestrutivos como espécie. Agimos como predadores da terra, que é nosso hospedeiro. Grandes crises são compostas de pequenas tragédias. Destruímos recursos naturais como se não houvesse amanhã, produzimos lixo alucinadamente. Alguns de nós agora inventaram uma moda de fazer selfies com animais marinhos que, nessas circunstâncias, acabam morrendo. Aqui, no Brasil, temos dificuldades de identificar o que significa cidadania e uma classe política que faz questão de que fiquemos ignorantes nesse quesito. Quanto à cultura, é deixada de lado como uma questão menor, diante da gravidade de outros problemas, ditos fundamentais pelos governantes. A resposta dos artistas a isso foi dada pela Banda de Rock Os Titãs, faz tempo: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Bem, cultura é arte e entretenimento, além de memória. Na arte, há essa transgressão intrínseca, esse fazer pensar, essa inquietação essencial diante do estabelecido, que só interessaria a um governo comprometido com a liberdade do povo, que não é esse de jeito nenhum. Ou seja, a tal “salvação nacional”, no caso da cultura, será direcionada ao entretenimento ou, pior, à satisfação de interesses religiosos travestidos de “tradições culturais”. Entretenimento dá voto, e religião mais ainda. À arte, portando sua atrevida tocha de luz, reservam-se a queda e a danação. Ou: a arte que se salve, se puder.

9- Como você observa a poesia feminina potiguar da atualidade? Em sua opinião, ainda mantemos a tradição literária de boas poetisas?
Sou meio cismada com a palavra tradição. Acho saudável a inovação, a quebra de paradigmas. Não sou crítica literária, não conheço todas as escrituras de mulheres que atualmente fazem literatura por aqui. Então, minha opinião é necessariamente incompleta. Li, por sugestão de Clotilde Tavares, os poemas de Regina Azevedo e achei inovadores, com um frescor e uma personalidade pouco vistos. Gosto muito do modo como ela escreve.

10- Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?
O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. José de Castro 1 de julho de 2016 19:46

    Gosto de Carmen Vasconcelos desde “Chuva Ácida”. Já devorei também “O caos no corpo”. Falta-me “Destempo” e esse mais recente de crônicas. Admiro muito essa escrita forte que ela tem. E quero parabenizá-la também pela análise rápida mas muito lúcida da política conteporânea. Infelizmente comungo do mesmo desencanto, da mesma desesperança que nos assalta hoje. Tempos difíceis, onde a encruzilhada em que nos metemos aponta para uma direita predatória, entreguista e pouco comprometida com os projetos sociais que bem ou mal vinham sendo tocados pelo governo “deposto” de forma vergonhosamente ilegítima, mas com toda a aparência de legalidade. Quero apostar em dias melhores para os brasileiros, um país que possa se tornar leitor, inclusive de poesia, essa linguagem universal tão bem exercitada pela poeta Carmen Vasconcelos.
    Sempre em frente, amiga… A poesia continua sendo urgente… Deixo aqui meu abraço de admiração…

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