10 perguntas para o jornalista e dramaturgo Paulo Jorge Dumaresq

1- Paulo Jorge Dumaresq, onde você nasceu e quais foram suas primeiras leituras literárias?
Nasci no Rio de Janeiro e com três meses de vida minha avó me trouxe para Natal, porque minha mãe precisou continuar a trabalhar na capital fluminense. A família, por parte de mãe, é potiguar. Então, o meu nascimento no Rio foi um acidente geográfico. Anos depois, lembro que Nanana me ninava, no balanço da rede, recitando poemas de Augusto dos Anjos. As primeiras leituras literárias foram na adolescência. E a Augusto dos Anjos, somaram-se Álvares de Azevedo, Vinicius de Morais, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Pablo Neruda. Sempre gostei muito de literatura brasileira. Considero a melhor do mundo. Mais adiante, descobri José Lins do Rego, Hermann Hesse e Carlos Castañeda.

2- Fale-nos um pouco da sua juventude. Por exemplo, como era a Natal do seu tempo de menino?
Na condição de filho único, tive uma infância reprimida. Mesmo assim, aproveitei bastante. Passei-a na rua Santo Antônio, na Cidade Alta, onde moro até hoje. Tudo era mágico. Eu era alegre e, supostamente, feliz. Frequentei bastante o convento Santo Antônio, mas nunca ajudei missa. As brincadeiras eram as mais diversas, como, por exemplo, “polícia e ladrão”, “caí no poço”, jogo de bola (era alucinado por futebol) e futebol de botão, tipo “cuscuz”. Gostava muito de carnaval, gibis de faroeste e seriados de TV dos anos 60 e 70. Nessas décadas, Natal era uma cidade encantadora. A população era mais amena. Hoje tem muito troglodita e ignorante, que não acrescenta nada à cidade. Amava o Grande Ponto.

3- E a fase como aluno universitário? Algum motivo especial o fez escolher cursar jornalismo?
Fui fazer jornalismo porque queria ser crítico musical. Na segunda metade da década de 70, o rock tomou conta da minha vida. E fui cursar jornalismo para aprender técnicas com a intenção de escrever críticas. Mas fiquei só no desejo. Quando concluí o curso em 1988, Natal não dispunha de veículos de comunicação onde eu pudesse exercer o ofício de crítico. Cometi algumas resenhas em fanzines undergrounds, fundados pelo jornalista Rodrigo Hammer e Carlos Leiros, mas de forma amadorística. Hoje em dia, esse desejo já foi exterminado.

4- Relate-nos um pouco dos movimentos literários, da sua geração, aqui em Natal, no final dos anos 80 e inicio dos 90. Quem eram os seus colegas que também gostavam de literatura?
Alcancei os estertores da Geração Mimeógrafo. Lembro que comprei no final dos anos 70, na rua João Pessoa, um exemplar do livro “Cárcere das Letras”, que trazia o poeta Aluizio Matias e mais três bardos, se a memória não me trai no momento. Tenho até hoje a obra. Acompanhei, ainda, a publicação do Delírio Urbano, de João da Rua, Carlos Astral e Afonso Martins; o nascimento d’O Galo e da Franga, de Abimael Silva, em contraponto ao “galináceo”, da Fundação José Augusto. Conheci, ainda, os poetas João Barra e Marize Castro. Fui, também, a alguns lançamentos literários de Flávio Resende.

5- E o seus textos dramatúrgicos, surgiram nessa fase? Você também dirigiu alguns trabalhos, correto?
Nunca pensei em escrever para teatro. Lembro que certo dia um amigo me apresentou o livro “Calabar – O elogio da traição”, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Folheei a publicação e devolvi. Achei muito esquisito aquele tipo de literatura sem narrativa. Apenas diálogos. Os anos se passaram e, numa certa noite de 1990, vi num jornal local que estava em cartaz, no Teatro Alberto Maranhão, a peça “A farsa do poder”, de Racine Santos. Não sei por que, resolvi ir ao teatro, e aquela noite mudou a minha vida. Saí do TAM em estado de graça prometendo para mim mesmo que a partir daquele momento, escreveria para teatro. Fui arrebatado. E desde então não parei mais. Como ninguém se interessou em encenar os textos de um jovem autor, eu fundei a Companhia de Repertório Do Riso ao Pranto e passei a dirigir minhas próprias peças. De lá para cá, são 23 textos dramatúrgicos encenados em diversos estados brasileiros, além de Portugal e Angola. A companhia não mais existe.

6- No inicio dos anos 90, você publicou “Parnamodernia”. Fale-nos um pouco da sua obra de estreia, e qual a visão que você tem dela hoje, passados mais de 25 anos do lançamento?
A poesia e a dramaturgia praticamente nasceram juntas. No tocante à poesia, percebi que podia cometer versos. Daí reuni um bocado deles no “Parnamodernia”, edição do autor. Hoje, eu não o publicaria. Creio que tem pouca densidade poética. Passados cinco anos, publiquei “Faltam sinais em versos cálidos & outras abstrações”. Mas o melhor da minha poesia não foi publicado. Atualmente, cometo poucos versos. Estou muito enfronhado no audiovisual. Virei um poeta bissexto. Fico pasmo e até admiro quem escreve poemas num mundo tão caótico como o de hoje, com o Estado Islâmico degolando crianças, por exemplo. Não consigo ter inspiração nesse cenário de terror.

7- Como dramaturgo você tem várias peças montadas, poderia destacar algumas?
A minha peça mais montada é a primeira, intitulada “Repouso do Adônis”. É uma comédia nordestina nos moldes de Ariano Suassuna e Altimar Pimentel. “Bocas que murmuram”, a segunda na sucessão, também foi bastante montada. Em 2011, a Fundação José Augusto reuniu em livro essas duas primeiras experiências dramatúrgicas, com a chancela do selo da Coleção Cultura Potiguar. Foi um grande presente que recebi. Destaco também “Os patrões”, “Os idos de março”, “Jorges – A poesia de Jorge Fernandes no palco”, “Ladra que furta ladra não merece pancada” e “A cloaca”.

8- Como anda a nossa situação cultural e literária, se comparada, por exemplo, aos anos 90, ano que você atuou em vários projetos? Aproveito e ainda pergunto, o Rio Grande do Norte tem bons dramaturgos na atualidade?
A especialidade literária de Natal é a poesia. Teremos sempre bons poetas. Já o tivemos no passado (Jorge Fernandes, Zila Mamede, Myriam Coeli, Newton Navarro, Luís Carlos Guimarães) e o temos no presente (Jarbas Martins, Nivaldete Ferreira, Marize Castro, Carmen Vasconcelos, Iracema Macedo, Carito Cavalcanti). Na dramaturgia, destaco o dramaturgo Junior Dalberto. Ele realmente está investindo em seu ofício de forma perene. E isso é muito bom. Dos dramaturgos potiguares vivos, Dalberto é o mais atuante nos dias de hoje. Eu não aprecio muito a novíssima dramaturgia contemporânea, que não é o caso de Junior. Fujo dela. Creio que a palavra sempre será a força motriz do teatro. Há quem discorde, mas é a minha opinião.

9- Como você observa as constantes mudanças, na direção, da Fundação José Augusto, por fatores políticos?
Isso prejudica a nossa cultura?

Vejo com muita preocupação a constante troca do presidente e de diretores de núcleo na Fundação José Augusto. Não há política de Estado na cultura potiguar. É sempre a política de governo que dita as regras. Diante disso, o órgão não pode planejar ações perenes e dar continuidade a bons projetos, que devem existir. Perde a cultura do Rio Grande do Norte, os artistas, intelectuais e a população. Historicamente, a Fundação sempre foi usada como moeda de troca em promíscuos acordos governamentais. É uma lástima que isso continue ocorrendo.

10- Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?
Nossa! São tantos e inumeráveis. Bom, mas se a proposta é citar um, fico com o “Hamlet”, de Shakespeare. É a obra que resume a trajetória daquele que é considerado o maior escritor de todos os tempos. Um bardo que influenciou até Sigmund Freud. Nunca ninguém foi tão fundo na alma humana como o vate de Stratford-upon-Avon.

FOTO: JOHN NASCIMENTO

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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