10 perguntas para a poetisa Anchella Monte

1- Anchella Monte, fale-nos um pouco do seu mais recente livro, publicado pela Editora Sarau das Letras, “Entre Tempos”. Do que tratam a maioria dos poemas?
“Entre Tempos” trata de transformações, maturação. Fala do tempo, claro. Da infância que nos doa toda a sinestesia da vida. De quando a infância vai embora. De atitudes, como ocorre com Sidarta, um dia príncipe e no outro mostrando o quanto somos todos iguais sobre e sob a terra. Das palavras que ferem e iluminam, iluminam e ferem, modificando a maneira como alguém se vê. De barcos que navegam em busca de liberdade, posto que a história das pessoas que ali estão levou-as a rupturas, a mudanças radicais. De ter crianças no colo e depois vê-las vagando em labirintos. Disso trata “Entre Tempos”, creio eu.

2- Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Procuro a concisão. Desejo a beleza (rebelde a beleza, difícil, difícil, permanente desejo). Sinto a responsabilidade de dizer algo que seja significativo não só para mim. Dia desses Alexandre Abrantes expressou um pensamento que me deixou plenamente feliz: “Anchella, gosto dos seus poemas mesmo quando não entendo (muito obrigada, Alexandre, mesmo)”. Acho que é esse o caminho: penso que poesia deve envolver. Tenho uma amiga que vivia me trazendo poemas de Zila para interpretar com ela. Isso me enlouquecia, não leio poesia assim. Leio com todos os sentidos.

3- Qual escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?
Do presente, muitos. São vários os poetas queridos, gente boa, inteligente, energia positiva. Do passado, gostaria de tomar um café com Manuel Bandeira. Poeta do meu coração, gosto demais de ler as histórias que envolvem Manuel e seus amigos. Adoro o episódio em que Jaime Ovalle caiu em pranto ao ver que o poeta preparava seu próprio café. Como resposta, Manuel Bandeira escreveu um poema que amo, “Poema só para Jaime Ovalle”, no qual se reporta a essa atividade solitária de preparar um café (Então me levantei/ Bebi o café que eu mesmo preparei, / Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…). Os amigos de Bandeira o chamavam de Manu, irmãozinho, Flag, porque era acolhedor, casa cheia, mas sempre organizada, espartana. Sei que me receberia bem, e me deixaria fazer o café em sua cozinha. Gostaria que Mário de Andrade estivesse presente, e então me deixaria envolver pela conversa sobre música, retratos-falados dos amigos, a chuva da tarde, o café forte ou fraco. Poderia só ouvir, e rir, e ficar feliz por estar tão bem ali, com os dois, tomando café (inverti a pergunta, pois seria eu a convidada para a casa do poeta).

4- Uma obra inesquecível?
Difícil dizer, quando se está sempre lendo. Tem algumas que marcaram épocas da vida, e foram muito importantes naquele momento. Uma série de Érico Veríssimo (Clarissa, Um lugar ao sol, Música ao longe, Caminhos cruzados, Saga) me deixaram apaixonada por Vasco, primo de Clarissa, pintor marginal. Apaixonada mesmo, como se de fato ele existisse. Demian, Sidarta e Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, perturbaram minha adolescência, provocaram a necessidade de autoconhecimento. Por causa desses livros, escrevi meu único e perdido “romance”, Estigma. O meu livrinho era manuscrito, não o tenho mais. No entanto, guardo o “estudo” realizado por um amigo sobre essa obra imatura. Inesquecível também “Fundação”, de Asimov, que me deixou dias e dias tentando entender a complexidade daquele mundo futuro, grandioso e arcaico, em que o eixo da salvação da humanidade seria a preservação do conhecimento. Não quero me estender mais, somente acrescentar que Fernando Pessoa também me deixava no ar, principalmente como Álvaro de Campos. Deixa ainda.

5- Uma música?
Diria muitas, mas pelo menos duas: Clair de Lune (Debussy) faz levitar. Travessia (Milton Nascimento) é a trilha sonora da minha vida.

6- Um lugar memorável?
São Pedro, no estado de São Paulo. Existe uma São Pedro real, cidade linda, sem dúvida. Moramos lá por quase dez anos. E existe a São Pedro de minhas lembranças, recriada de forma sensorial dia após dia. A minha cidade poética. Tenho vários poemas que se reportam a ela, mais em A Trama da Aranha, também em “Entre Tempos”.

7- Se um ET surgisse na sua frente e solicitasse “Anchella Monte, leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Não tenho líder. Mas teria um acerto de contas para fazer com o(s) ET(s). Papai viu de perto um OVNI. De tanto ouvi-lo, e ler seus livros de pesquisa, sempre achei óbvia a existência de outros seres inteligentes no universo. O caso de meu pai foi registrado em um livro chamado “O livro vermelho dos discos-voadores”, de Flávio A. Pereira. Quando ele estava a bordo de um B26B (bombardeio rasante – foi o último voo desse avião, inutilizado que ficou) da Aeronáutica, aconteceu o fato. O aeroporto de Pampulha registrou em seus radares a aparição desse objeto não identificado. Ele conta que caiu em sono profundo, e viu seres. Essa parte não tem certeza se foi abduzido, ou foi alucinação. Mas, quanto ao OVNI, viu muito bem. Se a história do meu pai me fascinava, também enchia de medo. Passei a infância com medo de extraterrestres. Não sei se tinha mais medo de ver ETs entrando em nossa casa, ou da polícia política. Anos atrás, quando ensinava no Dinarte Mariz, no morro de Mãe Luiza, à noite, voltava para casa em um Fusca velho e só o que pensava era em me deparar com um disco no caminho. Então ver um ET seria me curar de vez, ou morrer de medo. Se papai ainda estivesse vivo, eu o levaria para ele, eterno curioso a respeito dos mistérios do universo (e alguém que eu poderia reconhecer como líder).

8- Anchella, de que maneira, como poeta e professora, você analisa a nossa atual situação política? Existe saída para a crise, inclusive cultural, que enfrentamos?
Saída para crises acredito que exista sim. Mas para isso há necessidade de um esforço coletivo, do despertar da consciência política. E isso está acontecendo. Muita mobilização em torno do que se acredita como justo. Lamento muito a saída de Dilma. Votei nela e votaria de novo. Difícil aceitar que segmentos da nossa organização política, junto a uma boa parcela da mídia, manipularam desde o primeiro momento em que foi eleita as informações a fim de minarem o seu governo. Não vamos dizer que estávamos no melhor dos mundos com ela, ou que não havia corrupção. Mas os corruptos estavam aparecendo, sendo julgados, e não colocados agora como paladinos da justiça. A crise diz respeito às políticas públicas para a cultura, mas nossos artistas continuam a criar, a vencer dificuldades, a nos doar arte, eterno caminho para descobertas e transformações.

9- Como você observa a poesia feminina potiguar da atualidade? Em sua opinião, ainda mantemos a tradição literária de boas poetisas?
Cada vez mais. Não vou citar os nomes, porque, como sabemos, isso é arriscado, esquecer alguém pode magoar. Mas são tantas e boas poetas potiguares que me dão matéria de leitura diária. Sou grata a todas elas.

10- Se pudesse recomendar um livro aos leitores, qual seria?
Não recomendaria um livro. Mas livros e mais livros. Atualmente estou na biblioteca de minha escola municipal, em processo de readaptação de função. Os alunos costumam pedir sugestão de livros e vou orientando conforme o perfil de cada um. Estou sempre conversando com eles. Os livros devem seduzir primeiramente pela identificação, depois vêm os voos mais longe do solo, da zona de conforto. Só diria aos leitores para adicionarem sempre poesia aos muitos livros de prosa.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. Anchieta Rolim 9 de Junho de 2016 13:09

    Anchella Monte, além de ser uma grande Poeta é também um belo exemplo de figura humana. Thiago, parabéns por mais esse belo documento. Sintam-se por mim abraçados!!!

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