100 anos do jornal humorístico “O Parafuso”

Por Cellina Muniz *

Neste ano de 2016, completa um século o lançamento de um jornal de humor que circulou na cidade de Natal entre 1916 e 1917: “O Parafuso”.

Encontrei “O Parafuso” no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte meio por acaso (Ah, o acaso, esse grande barato das trilhas da pesquisa!). Fui lá em busca de textos de Jorge Fernandes publicados em outro jornal de humor, “O Arurau”, e acabei encontrando a coleção das 54 edições compilada e doada por Manoel Rodrigues de Melo, grande estudioso da imprensa norte-rio-grandense.

PARAFUSO

O primeiro número veio a público em janeiro de 2016 e a apresentação de seu expediente já demonstrava, pelos implícitos aos quais apelava, o caráter cômico do periódico:

Diretor: Um jovem.

Redatores: Quem tiver dinheiro e coragem.

Até mesmo os (supostos) anúncios publicitários faziam uso do humor, como é o caso de uma marca de biscoitos que assim fazia seu reclame:

Impotência? Comei Bolacha Japonesa.

Embora o jornal apresentasse um aspecto polêmico em relação a certos discursos oficiais (como, por exemplo, as críticas ao poder político e religioso do Padre Cícero no Ceará ou a recriminação de outros jornais da terra que incentivavam a participação do Brasil na Primeira Grande Guerra), não se pode afirmar que o humor do jornal “O Parafuso” era exclusivamente subversivo, contestador, anárquico. Aliás, é senso comum pensar que toda manifestação humorística é necessariamente “do contra” em relação a uma ordem dominante: o que define mesmo um texto humorístico é menos seu posicionamento ideológico e mais as estratégias de linguagem de que faz uso. Assim, paródias, ironias, ambiguidades, pseudônimos, estereótipos, simulacros, derrisões etc. podem aparecer tanto em anedotas revolucionárias quanto em piadas racistas ou sexistas.
A propósito de sexismos, aliás, o jornal “O Parafuso” traz inúmeros exemplos que o filiam, em alguma medida, a uma tradição discursiva de relação assimétrica entre homens e mulheres, tradição essa que remonta à queda do mito de Gaia e à ascensão do mito cristão do Gênesis (das antigas sociedades em que os princípios masculino e feminino partilhavam do poder às sociedades patriarcais em que a mulher foi sendo domesticada e cada vez mais empurrada para a esfera da propriedade privada). Obviamente, as piadinhas (aparentemente inocentes) do jornal “O Parafuso” não expressam uma misoginia à la Malleus Maleficarum, mas um textinho como esse (Recado às Mulheres) certamente pretende impor às mulheres modos de ser e estar no mundo civilizado que Natal no começo da República pretendia alcançar:

Meu bem quando tu te ris
Arreganhando os dentaços
Eu morro de medo
De ser comido aos pedaços.

O apelo aí ao que Vladimir Propp chamou, em Comicidade e Riso, de riso de zombaria manifesta um humor civilizador que buscava (para se expressar como Michel Foucault) corpos dóceis que se adequassem à nova ordem cultural, social e urbanística que o grupo político e intelectual dos Albuquerque Maranhão instaurava na província potiguar. O que, aliás, era comum nos periódicos de então.

Assim, para avaliar uma produção (jornalística, literária e humorística) como “O Parafuso”, nem tanto ao mar e nem tanto à terra. Ou, novamente remetendo a Foucault, é preciso permitir-se à descontinuidade. Então, se por um lado o jornal daqueles homens “com dinheiro e com coragem” se posicionava contrariamente a certos discursos dominantes (a fé cristã, a pátria etc.), por outro lado também reatualizavam discursos conservadores e que, infelizmente, cem anos depois, ainda se apresentam em gestos e hábitos de Natal nos dias de hoje, como um discurso que pretende dizer como mulheres devem se comportar (rir de boca aberta não pode!).

Contradições à parte, “O Parafuso” rende ainda muitas outras descobertas. No livro que publiquei sobre casos de humor da capital potiguar (“Na Tal Cidade do Humor”, Sebo Vermelho Edições, 2013) escrevi um pequeno ensaio sobre o periódico e até agora sinto que o assunto não se esgotou. E cada vez mais sinto também que é preciso reconhecer o grande mérito do jornal “O Parafuso”: a aventura de lançar um jornal numa cidade em que a imprensa ainda dava os primeiros passos (embora o primeiro jornal, “O Natalense”, date de 1832). Outros muitos títulos de humor circularam em Natal nas primeiras décadas do século XX (com nomes sugestivos como, por exemplo, A pua, O Alfinete, Zé-Povinho, A Urucubaca, O Martelo etc.), mas todos de vida muito mais curta e efêmera que O Parafuso. Certamente, as 54 edições semanais que correram entre becos e esquinas de Natal entre 1916 e 1917 contribuíram para o estabelecimento de uma comunidade leitora e o fortalecimento da imprensa humorística natalense. Essa mesma imprensa humorística que, no final do século XX, ainda rendeu boas risadas com títulos como “A Franga” ou “Cebola Faz Chorar” e que, pelo que parece, cem anos depois, anda precisando de novos homens e novas mulheres de coragem para, outra vez, se lançarem na aventura de criar um jornal de humor.

* Escritora e Professora do Departamento de Letras da UFRN. Atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado na UNICAMP intitulada “Notícias da Jerimulândia: a imprensa de humor em Natal na Belle Époque”.

Escritora e professora do curso de Letras da UFRN. [ Ver todos os artigos ]

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