13º Capítulo do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

Ilustração de Alberto Lacet (responsável pelas ilustrações da edição impressa – uma para cada capítulo -, que será lançada em breve)

TREZE

OS PROBLEMAS QUE MAIS COMIAM O JUÍZO do coronel estavam nas frentes de combate. Depois desses, vinham os despachos do pessoal da Fazenda, os responsáveis pelo caixa do território livre, uns caras enjoados, sempre alegando penúria, gastos excessivos e uma receita insignificante, oriunda de magros tributos e generosas contribuições de amigos. Depois da emboscada de Água Branca era bem possível que a polícia paraibana desse trégua. E uma trégua queria dizer ganhar tempo para a maquinação de outro ataque contra Princeza. Portanto, recomendável mais cautela, cuidado redobrado. Mas enquanto os macacos não vinham importunar, o coronel ia tocando os trabalhos de construção institucional do novo território. Finalmente, o povo mandando em seu próprio nariz.

Aquele domingo, Barbaciano escolhera para cavalgar.

– Ele de novo! – gritou Japonês, com um telegrama na mão.

O coronel que estava com o pé no estribo e o corpo no ar, pronto para passar a perna na montaria, voltou o pé ao chão, tomou o papel e, quando o acabou de ler, deu ordens para uma resposta imediata:

– Transmita-lhe os meus parabéns pelo artigo. É bem verdade que estamos às voltas com um louco.

Japonês correu para a estação do telégrafo e o coronel saiu com, o neto na garupa do cavalo. Em poucos minutos estavam na rua dos Arapapacas, em direção ao Vapor Velho, mas atalharam pela Cadeia Nova, onde o menino quis saber o que faziam aqueles homens com as pernas para fora das grades das janelas. Lá embaixo, atravessaram a rua com dificuldade, por conta dos bois, carneiros e porcos tangidos para o curral do matadouro.

Na beira do açude, à boca do esgoto, um homem dava lances de tarrafa. O sangue dos bichos escorria para dentro do açude, através de uma calha, onde negrejavam piabas e traíras novas. O lugar do sacrifício dos animais era ao ar livre. E de cima do cavalo, ao passar pelo muro baixo, o menino desviou a cara quando viu um magarefe enfiando a faca no pescoço de um garrote. No paredão do açude, o menino tirou a cara de novo, e até fechou os olhos, pois era o abismo de um lado e a água escura do outro.

– É ali a morada de Olira – disse o coronel, apontando para dentro do açude, provocando o neto, puxando assunto.

– E ele é grande?

– É.

– Engole um homem?

– Acho que sim.

– E um menino?

– Engole.

– E quantos ele já engoliu?

– Um bocado.

– Faz tempo que ele mora aí?

– Faz.

– Quantos anos?

– Muitos anos.

Olira morava debaixo daquelas pedras submersas e se alimentava de crianças afoitas que se arriscavam nas águas fundas. Uma dessas pedras tinha em sua base um poço que os antigos chamavam Poço do Caboclo. A outra pedra era em forma de altar e dela dizem ser o lugar onde jovens mulheres eram sacrificadas e em seguida atiradas no poço. Diz a lenda que o padre Arconegro encontrou vários crânios com fraturas, indicando serem de virgens golpeadas com bordunas ou machados. O padre mandou descer um caboclo com fôlego de anfíbio. A água era cristalina, mas na medida em que ia se aproximando do fundo, a luz ia ficando opaca, mas os crânios muito brancos se destacavam no fundo lodoso e escuro. O rapaz ainda chegou a retirar uma amostra razoável, algo capaz de convencer qualquer pessoa, por mais cética que fosse, de que aquele lugar fora de fato palco de sofrimentos, de matança de jovens mulheres oferecidas a deuses sedentos de sangue.

De todas as histórias que corriam a respeito de Olira, uma delas aponta o velho Teodósio como o responsável pela sua existência. É que Teodósio temia que seus filhos se afogassem, por isso encomendou um filhote não se sabe de quê a um homem que morava na ribeira do São Francisco. Um neto desse homem – que até bem pouco tempo ainda caducava – vivia contando da luta do seu avô para trazer o tal Olira, na época um filhote. Filhote de quê é que nenhum menino até hoje decifrou. Nem menino nem gente grande. Se peixe ou bicho ou cobra, se viera do mar, do rio ou de debaixo da terra, ninguém foi capaz de alumiar o escurão, passar uma borracha e desanuviar as contas e os juízos que se faziam dele, embora muita gente tivesse dado carreira de perder a roupa e a compostura.

O que se sabe é que o bicho foi trazido numa ancoreta amarrada no lombo de uma burra. Lá um dia, depois de tantas léguas sem beber, a burra perdeu as forças e morreu. O homem olhou para o sol de fogo, jogou a ancoreta nas costas e seguiu viagem. A vida ia minguando para o pequeno, porque o homem bebia um pouco daquela água a cada dia. Mas o fato é que o filhote acabou chegando em Princeza. Dizem que Teodósio pegou o bicho com suas próprias mãos e o sacudiu dentro do açude e ele deu umas rabanadas na superfície e mergulhou nas águas escuras.

Outra versão que explica a existência de Olira, e que muitos asseguram ser mais crível, remete a certa senhora da sociedade que teria sido vista, altas horas da noite, jogando dentro do açude alguma coisa embrulhada numa manta. A tal pessoa afirmou que ainda ouviu o choro da criança no instante em que era atirada sobre as águas. E aquele choro, vagido de pagão, era de desgosto, por conta de estar condenado ao limbo eterno, covão escuro, inferno que inventaram de criar só para jogar nele as criancinhas que morrem sem batismo. Depois que o recém-nascido afundou no açude, a vovó desalmada voltou para o aconchego de casa, para junto de sua filha moça.

O coronel apressou o passo e o açude logo ficou para trás, com seu paredão centenário reluzindo ao sol o barro branco marcado pelas rodas dos carros-de-boi, pneus e cascos de animais. Na Moça Branca, logo avistaram o cemitério, o cemitério da peste com seus muros esverdeados de musgo e lodo ao longo da estrada. A velha matriarca enterrada debaixo da soleira do portão, atravessada, como se estivesse a impedir que alguém dali saísse ou entrasse. Cemitério maldito, que teve sua chave atirada longe, a mando de uma voz de alma velha, visagem rouca, de dedos trêmulos e esfiapados tentando alcançar a dentadura num copo na cabeceira da cama. E o vento varreu a peste bubônica para sempre. Quando o coveiro sacudiu a chave bem longe dentro do mato, a ventania judiou, bateu duro com tanta raiva que chegou a uivar nas aroeiras e baraúnas da beira da estrada, apitava nos angicos e jatobás e arregaçava o mato e revirava as moitas e touceiras de camará, pela-beiço, jurema preta e unha-de-gato, gemia nas orelhas do serrote e se enfiava por dentro dos túneis de avelós.

Da garupa do cavalo, o menino via os muros do cemitério cercando a soca de floresta densa, gigante, regada por meio século de inverno e maldição. O viço do mato era tal, por conta do adubo dos corpos dos empestados, que lembrava almas esverdeadas penando em busca do azul, do céu eterno. As mangueiras, condenadas à prisão da terra, transformavam o ranço dos esqueletos no néctar dulcíssimo dos seus frutos e generosamente iam oferecê-los aos eventuais passantes da estrada.

O cavalo trotava em ziguezague, desviando-se dos galhos cavaleiros das mangueiras. O menino estirou a mão e colheu uma manga. Mas antes de mordê-la, sentiu a mão do avô vindo de lá, aberta, pesadona, justiceira, que acertou em cheio a fruta.

– Largue isso, estão contaminadas!

O menino olhou para trás, o cheiro da manga ainda nas narinas, o leite grudado nas mãos. Foi por pouco.

De se estranhar aqueles galhos de safra generosa, enormes cachos de mangas amarelas e rosas ao alcance da mão, mas as pessoas meneavam o corpo e passavam ao largo delas. Nos cantos do muro as frutas caíam e apodreciam, virando almoço para os insetos e dando ocupação às mandíbulas de um velho jumento esclerosado que, certamente farto de capim e talo seco o dia todo, vinha comer a sobremesa.

O tempo andou ligeiro, como se muito eles tivessem de ver na Moça Branca, velha mansão dos mortos que capionga os homens no correr do dia e os assombra no gume da noite. O coronel havia se demorado demais na Moça Branca. E se quisesse esticar mais o passeio, com certeza só retornaria ao anoitecer.

– Se a gente for mais pra diante, vai ficar tarde.

– E ainda vamos passar por esse lugar?

– Vamos.

– À noite?

– À noite.

– No escuro?

– Sim.

– E a Velha?

– Qual delas, a que está enterrada ou a do cavalo?

– A do cavalo!

– Se a gente topar ela, nós vamos apostar uma corrida.

O menino calou-se, ficou pensando no escurão. Olhou para o portão do cemitério e imaginou a Velha parada ali em frente, montada em seu cavalo de fogo, espiando para dentro daquele lugar amaldiçoado, o cavalo metendo os cascos no chão duro e as faíscas dos relâmpagos inundando tudo de clarão.

– Acho melhor voltar, vovô.

– Eu também – disse o coronel, dando meia volta.

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