14º Capítulo do Romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

Arte: Alberto Lacet

CATORZE

MINUTOS ANTES DA CIRURGIA, QUEBRA-FERRO defrontou-se com José Apolinário diante do consultório do doutor Nepomuceno.

– Tem certeza do que vai fazer?

– Absoluta! – respondeu Quebra-Ferro, numa descontração tal, que José Apolinário considerou aquele gesto um pouco fora das proporções normais da gente considerada de juízo regular.

O doutor Nepomuceno tinha fama de carniceiro. Abria o consultório nos dias de feira para encanar braços, suturar feridas e sarjar furúnculos. Quando chegava gente com esse tipo de caroço, ele apalpava o maracujá — aquela saliência amarelada — e metia a lanceta, que o sangue espirrava junto com o pus e o carnegão.

— Deixe de ser frouxo! — bronqueava o doutor, babando de prazer.

A auxiliar fazia o curativo no infeliz que trazia no rosto vincado o sofrimento de quem acabou de ter ido ao inferno, catapultado pelas mãos perversas do doutor. E as mãos do doutor Nepomuceno eram umas mãos grandes de macaco, cujos dedos longos o ofício o obrigava a ser inconveniente com as pessoas, uma aporrinhação ao nível das hemorroidas, prostatites e todas as doenças venéreas do mundo — essas crecas desgraçadas e os seus terríveis modos de tratamento. Foi assim, já de cabelos brancos e jaleco encardido, que o doutor um dia deu conta de que o seu juramento de cátedra se extraviara nas entrelinhas dos laudos equivocados, nos diagnósticos de mesa de boteco, nos entrepernas das raparigas e das moças de família em secretas curetagens, cagagens e outras fuleragens.

Há poucos dias Quebra-Ferro estivera naquele consultório, por conta de que machucara o braço no vapor de Apolinário. Descuidado, quando dera por si estava com o braço atolado dentro da máquina. Mas deu-se que a moenda se quebrou, rachou de cima a baixo, como se alguém tivesse enfiado ali uma barra de ferro ou um pedaço de trilho. Os trabalhadores acudiram com alavancas e cepos. Depois de muito esforço e jeito, retiraram o braço de Quebra-Ferro lá de dentro. O engenho ficou inutilizado. Quebra-Ferro saiu ileso, só uns ferimentos no braço e nada mais.

Dessa vez era diferente, queria Quebra-Ferro os serviços do doutor, porque pretendia amputar o braço. E enquanto o doutor dava início aos preparativos para a operação, José Apolinário, muito jeitoso na intermediação de negócios, conversava em sua loja com o joalheiro, ia matando o tempo e jogando lábia e sabedoria nos ouvidos do homem que viera do Recife. Finda a operação, o homem entregou uma maleta a José Apolinário, pois Quebra-Ferro saiu do consultório meio trôpego, ainda sedado e grogue pelos efeitos do anestésico.

– Parabéns, o senhor fechou um excelente negócio! – disse Apolinário, apertando a mão do homem que de imediato colocou o monóculo no olho, bateu várias vezes com o cabo da pinça no material, conferindo a preciosidade:

– Ossos do mais puro marfim, Sr. Apolinário. E este é de um tipo raro, raríssimo! – disse o joalheiro, envolvendo-o numa toalha branca.

O segredo teria de ficar entre eles. A partir daquele instante, quem Quebra-Ferro topasse pela frente e acaso viesse com perguntas, estava pronto para dizer que um câncer esfarinhara-lhe o braço. À família contaria a mesma história. Se é que alguém fosse perguntar alguma coisa, pois foi Quebra-Ferro chegando em casa e a mulher fingindo que não o via.

– Não está notando nada?

– Notando o que? – esbravejou a esposa – que você chegou e que vai ficar dentro de casa sapateando no piso onde eu passei o pano ainda há pouco?

– Deixa pra lá – murmurou Quebra-Ferro, decepcionado.

– Vá perguntar a sua filha, talvez ela enxergue melhor do que eu. Chegou ainda agora de viagem e foi pra farra.

– É isso que vou fazer.

Quando Quebra-Ferro entrou no Princeza Café, a filha Violeta animava uma mesa onde se divertiam vários rapazes. Ao ver o pai, avançou em sua direção e o abraçou:

– Pai, o que lhe fizeram?

– Foi um acidente.

– Pode deixar, vou cuidar do senhor!

E foi com ele para casa. Enquanto não se acostumasse com a falta do braço, precisava do adjutório de alguém.

– Vou lhe tirar daquele lugar infeliz!

– Como, pai, se a gente não tem de que viver!

– Agora temos! – exclamou Quebra-Ferro.

Violeta esbugalhou os olhos.

Restava a Quebra-Ferro o outro braço. Mas agora ele tinha dinheiro. Adeus, pindaíba. Adeus, Eliseu. E quando o dinheiro acabasse, venderia a perna, depois a outra perna, e o mais que pudesse retirar de osso que não prejudicasse a estrutura que lhe protegia os órgãos. O joalheiro nem esperou a ferida sarar, já estava adulando Quebra-Ferro novamente, de olho nas pernas, nos pentes das costelas, queria porque queria comprar-lhe os vigamentos do corpo. Quebra-Ferro estava mesmo decidido a torrar tudo, que ficassem em seu corpo apenas as vigas mestras, as fundações, os pontaletes, os ossos que dão sustentação à casa humana. Em seguida faria uma generosa contribuição para com o fundo de guerra. E não estaria mais do que fazendo a sua obrigação de cidadão. Seu grande desgosto era não poder ir para as frentes de batalha. Todos os homens lá e ele em casa, junto com as mulheres e as crianças, os velhos e os inválidos. Quebra-Ferro pertencia a esta última categoria. Aí bateu nele um sentimento de tristeza que acabou degringolando em revolta.

O homem recebeu o telegrama de Quebra-Ferro e veio correndo do Recife. Deixou a mala na pensão e foi ter com Quebra-Ferro.

– Quanto quer pela perna?

– A perna é mais caro.

– Quanto quer por ela?

Quebra-Ferro lascou o preço. O joalheiro, enxugando o suor das bochechas gordas, entortou a cabeça, franziu o couro da testa, mexeu com os dedos, como se estivesse fazendo cálculos.

– Está caro!

Estava caro, sim. E tinha de ser. Do contrário não seria uma preciosidade. Depois de muito queixo, o homem largou mão de pechinchar e fechou o negócio. Com o dinheiro, Quebra-Ferro pagaria suas dívidas, reformaria a casa, compraria móveis etc. O restante ele ia doar para o Fundo de Guerra. Quantos homens não sacrificaram a vida pela independência de Princeza?! Esses homens não deram apenas uma parte do seu corpo, muitos se deram por inteiro, porque deram a vida, botaram o peito quando as balas vinham. As mulheres também fizeram, na medida do possível, a parte delas, como costureiras, cozinheiras, enfermeiras, lavadeiras, professoras, parteiras, benzedeiras, mães e companheiras de todas as horas. Muitas delas – achando pouco o sacrifício de se dedicar aos trabalhos de acompanhar as tropas pelas brenhas, imbuídas dos afazeres domésticos – ainda se despojaram de suas joias, de suas economias, em favor da guerra.

Mesquinho, detalhista, organizado e sério, Japonês era o homem da mais estrita confiança do coronel Barbaciano, tanto que a ele fora confiada a missão de arrecadar recursos para a luta. Quebra-Ferro tomava banho de sol no quintal quando viu Violeta se desfazendo de sua aliança. O japa fez sinal para o ajudante se aproximar. Quebra-Ferro ouviu o tilintar do ouro no prato da balança, enquanto Japonês anotava o nome de Violeta, o tipo da joia doada, o peso da peça e o seu valor. Aquela aliança era tudo na vida dela. O sargento Napoleão, que Violeta conhecera em Campina Grande, antes de partir, deu-lhe a aliança e jurou que um dia viria buscá-la. Queria se casar. Mas Violeta não acreditou, apenas sorriu e abaixou as vistas. Ela tinha um modo muito particular de abaixar as vistas sempre que um homem a espiava e esse espiar ia além do olhar banal de mero registro. Violeta derramava os olhos no chão e depois ia apanhando eles devagarzinho e os botava de novo sobre o homem. Era uma forma sutil de exorcizar resquícios de pudor, ao mesmo tempo em que se entregava, ou melhor, se devolvia toda ao homem que mais e mais a desejava. Napoleão disse-lhe que não podia se demorar. Estava de passagem. E apressado. Todos os homens estavam sempre de passagem. E apressados. E talvez por conta dessa pressa é que eles faziam declarações as mais estapafúrdias.

O sargento contou a Violeta que fazia parte da tropa que ia ficar aquartelada em Piancó, esperando só o momento de atacar os rebeldes de Princeza. A mulher empalideceu. Se o sargento lesse pensamentos, ela estaria perdida. Se tivesse de ler, que lesse depois o bilhete que ela havia escondido dentro do matulão e que o sargento somente encontraria quando estivesse longe dela. Violeta escreveu dizendo que estava de viagem marcada para Princeza, pois recebera a notícia de que o pai tinha se acidentado e ia cuidar dele. E de repente o toque da corneta e os soldados, que dormiam pelos prostíbulos, pensões e hospedarias do Largo do Asfora, se precipitaram pelas calçadas. Eles abotoavam as fardas, seguravam os matulões, afivelavam as cartucheiras e alpercatas, para, em poucos minutos, estarem em forma, enfileirados, ao lado dos caminhões em comboio. Violeta correu para a janela, queria ver Napoleão. Os carros apitavam e as mulheres atiravam serpentinas nos soldados. Violeta não viu mais Napoleão. Mesmo assim ficou olhando pela janelinha do primeiro andar do Clube da Noite, o melhor e mais frequentado do Largo Cristiano Lauritzen. Em pouco tempo, o comboio se encobriu por detrás dos sobrados da avenida, em demanda da estrada do sertão.

Japonês se despediu da moça e Quebra-Ferro teve vontade de gritar por ele, dizer que também queria dar a sua contribuição: a própria perna. E Japonês decerto ficaria estupefato diante de tão exacerbada manifestação de patriotismo, como ficou dias depois o coronel Barbaciano, ao topar Quebra-Ferro na barbearia.

— Por Deus, amigo, o que foi isso?

— Vendi o braço.

— Mas isso é um absurdo, Quebra-Ferro! Não deixaram nem o toco pra tapar o sovaco? — brincou Barbaciano.

— Meus ossos são de marfim.

— Marfim? — exclamou o coronel, sem fixar os olhos em lugar algum.

Ele contou que quando o doutor Nepomuceno meteu o bisturi e afastou as carnes, músculos e tendões de seu braço, estava lá o osso descoberto, então o doutor levantou-lhe o beiço superior e comparou a coloração do osso com a dos dentes. Era tudo da mesma natureza. No fim da conversa, Quebra-Ferro disse que estava decidido: a partir de agora sua perna esquerda pertencia ao Fundo de Guerra. O joalheiro já estava para chegar. Arranjaria depois uma muleta, uma perna-de-pau, um cajado, o que fosse.

— Vejo gente dando a vida. E por que eu não posso dar uma perna velha cheia de varizes?

— Não se sacrifique tanto assim! – aconselhou Barbaciano, achando que tudo aquilo não passava de mais uma bravata, como as tantas dele. Uma das mais conhecidas e faladas foi a história do trem. Teria Quebra-Ferro segurado o trem. Só por cachorrada. Outros dizem que foi para ganhar uma aposta. Dizem ainda que ele combinou com o maquinista para dar vapor à máquina, todo vapor, mas sem acionar as engrenagens de partida. A bicha bufou, bufou, gemeu, cobriu a estação de fumaça e Quebra Ferro agarrado.Só saiu do canto depois que ele a soltou.

A tal aposta, se é que houve de fato aposta, lhe rendera uma propriedade. Senhor de terras por um dia, um dia só, pois à noite, no Princeza Café, apostou a mesma propriedade num jogo de baralho. E perdeu tudo. Quinhentos e tantos hectares, muito gado, bode, duas casas de tijolos, um riacho, um baixio e uma lagoa dentro. Metade da propriedade era coberta de mata virgem. Perdeu a terra para Aderbal, o pouco dinheiro que tinha para Sinfrônio Sobreira e o chapéu e os sapatos para um filho de Conrado Rosas.

Metade de sua vida Quebra-Ferro passou com o peso da vida na cabeça, o peso de ser calunga de caminhão, carregar e descarregar fardos e mais fardos de algodão. Vivia fuçando por aí. Apolinário era quem de vez em quando o mandava chamar, sempre que tinha de substituir algum trabalhador faltoso. Mas não era nada certo não. Às vezes corria um mês inteiro sem Quebra-Ferro ser chamado nem um dia. E houve o acontecido. Não fosse o doutor Nepomuceno, o esqueleto precioso de Quebra–Ferro ia se perder dentro da terra, porque pobre não tem essa vaidade de construir túmulo para guardar a ossaria. Quando o seu coração um dia deixasse de bater na capa das costelas, ia aparecer gente como mosca varejeira querendo surrupiar-lhe pelo menos alguma ponta de osso.

E na hora em que tivesse que mandar descarnar o velho, abatido pelo tempo e pela doença, estaria Violeta de olho bem arregalado, vigiando-lhe a carcaça, como um fiscal de mina de diamante. Já as carnes velhas amolecidas, as vísceras, o miolo da cabeça, o estômago, as bostas de Quebra-Ferro e mais ainda aqueles dois olhos verdes, tudo isso a filha meteria dentro do caixão. Depois, era só chamar o homem do Recife, que ele viria correndo e com certeza compraria por um bom dinheiro o esqueleto todo, ligamento por ligamento, do pescoço ao osso do mucumbu.

Ela decerto que haveria de cuidar bem dos restos mortais do seu pai. E já tinha até conversado acerca do que deveria ser feito após a morte. E de fato, de toda a herança de Quebra-Ferro, era ele próprio o quinhão mais valioso, e ia todinho para o bolso de Violeta. A mãe que se contentasse com a casa e os outros troços, os cacos, as outras merdas que o marido certamente iria deixar. Quebra-Ferro até contratou advogado. Ele ia fazer uma arrumação lá pelos livros de registro do cartório, providenciar um testamento ou coisa que o valha, de forma que os ossos do seu corpo — aqueles que ainda restassem, é claro — ficassem para Violeta. Adiantamento de herança, doação, o que fosse, contanto que botasse tudo no papel e esse papel garantisse a última vontade de Quebra-Ferro.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. alberto lacet 3 de novembro de 2011 8:33

    Sou suspeito de falar. Mas é sempre um prazer reler uma página dessa. É preciso reeditar essa obra fantástica.

  2. Aldo Lopes de Araújo 2 de novembro de 2011 19:32

    Ave, Godot!
    Valeu.

  3. Godot Silva 2 de novembro de 2011 13:05

    Que maravilha… não tenho perdido um!

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