As 15 coisas que sei sobre meu próximo livro

Por Luisa Geisler
BLOG DA COMPANHIA

Existe um ponto em que o autor — antes da publicação, e antes do término do texto — tem que falar sobre esse novo livro com alguém. Um ponto em que se começa a falar de um livro. Ali, o livro deixa de ser uma montoeira de ideias meio-escritas e meio-pensadas e tem que se tornar algo. Qualquer algo externo. Isso pode envolver mostrar os escritos para alguém, ou falar com alguém pra tentar melhorar um personagem. No meu caso, as primeiras conversas envolvem gestos amplos e onomatopeias.

Passei por isso na minha última viagem ao Rio de Janeiro. Esse tipo de situação acontece ao ver pessoas do meio literário — desde amigos escritores até minha agente —, incomuns na cosmopolita Canoas. Considerando-se que o projeto está quase 25% pronto, achei que valia a pena tirá-lo da minha cabeça e de um solitário documento de Word.

Mas respondi informações diferentes pra pessoas diferentes. Não contraditórias: diferentes. E resolvi organizar. Eis aqui as quinze coisas que sei sobre meu próximo livro.

1.
Eu queria que o livro tivesse imagens. Hoje já acho que não.

2.
Existe um fenômeno que se chama exploração urbana. São pessoas com câmeras fotográficas que vão a lugares abandonados e tiram fotos. É arriscado (porque ninguém faz manutenção, entre outros) além de ilegal (porque é invasão de propriedade privada, entre outros). A comunidade de gente que fotografa esses lugares é grande, troca ideias, mapas e sugestões. Como ilustração, recomendo buscar no Google lugares como Ilha Hashima, Nara Dreamlande e, claro, as cidades de Chernobil e Pripyat.

É um fenômeno muito comum no Japão, por conta da industrialização rápida, da bolha imobiliária, dos danos causados por guerras. Por isso, exploração urbana é chamada também de haikyo. Literalmente significa “lugar abandonado”, mas virou sinônimo para a atividade de exploração urbana em si

O livro tem algo com isso.

Com personagens e coisas abandonadas no geral, quer dizer.

3.
Deve ter quatro partes.

4.
Quero ter a primeira parte pronta até junho.

5.
Ou seja, falta um tempo para terminar tudo-tudo.

6.
A possibilidade de a primeira parte ficar um lixo, o que destruiria todo meu castelinho imaginário, me apavora.

7.
O título provisório é Haikyo, mas acho meio vergonhoso.

O primeiro título do Luzes de emergência se acenderão automaticamente era Canoas não voam. Canoas não voam me parecia um bom título porque representava um personagem cortado ao meio numa cidade cortada ao meio. Mais tarde, esse título começou não só a “soar feio”, como o Luzes não parecia mais um livro sobre uma pessoa em uma cidade.

Não sei se gosto de Haikyo como título. A ver.

8.
Na verdade, pode ter três partes. A quarta parte ainda é uma ideia menos redonda que as outras.

9.
Tem um lance com cegueira, porque sou míope, e meu grau só parece aumentar.

10.
A exploração urbana na Irlanda não é tão urbana. O que mais se acha na Irlanda são castelos abandonados.

11.
— Luisa, quantas páginas tem essa primeira parte? — perguntou minha agente.

— O cálculo pra tabelinha no Excel é cem.

—Então vai ser um livro de quatrocentas páginas?

— Tem a margem de erro.

— Acho ambicioso.

— Tem bastante quebra de linha, então cem páginas não são necessariamente cem “laudas” — eu fazia aspas com as mãos. Eu me sentia idiota por fazer aspas com as mãos.

— E tem fôlego pra tudo isso?

— Espero que não me processem se ficar mais curto. — Ela riu. O projeto não me parecia ambicioso, mas. — Mas sei lá também.

12.
A protagonista se chama Tarsila.

13.
Eu explicando como funciona a estrutura pro meu editor:

— É tipo a estrutura do Quiçá (meu primeiro romance), que é linear, mas não muito. É tipo como se o Quiçá tivesse um irmão que treina, come batata doce e frango, toma Whey Protein e fala VAMOs VIRAAAr MONSTROOOO!

Na verdade, esse diálogo aconteceu com uma amiga, mas seria mais engraçado se fosse com o editor.

14.
Eu não devia sair por aí falando do livro porque daqui a pouco vou mudar tudo e as pessoas podem me cobrar.

15.
A ver.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

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