A Jóia de François

Por Alex Medeiros
No Sanatório da Imprensa

O procurador e intelectual François Silvestre, muitas vezes caixeiro viajante nas veredas da poesia e da política, só precisou de três livros para se tornar um dos mais talentosos romancistas brasileiros da minha contemporaneidade. Só sei falar por mim, entendem?

Analisando apenas três obras, digo que o menestrel de Umarizal não só se consolidou como um senhor escritor de cabedal universal, como acabou gerando o leitor do tipo fundista, aquele que consome seus romances na sofreguidão compulsiva das horas.

François nem precisou lamber os estilos das centenas de imortais que sua vasta cultura consumiu. Apanhou na soleira e no quintal da própria experiência de vida os componentes dramáticos e sarcásticos que usa na bela arte de contar histórias.

Fica evidente – para quem goza da sua amizade pessoal e conhece sua trajetória – que o autor tem usado como ingrediente principal a violência covarde e insana que marcou sua vida em dois momentos distintos: na infância e na juventude.

Tanto em “A Pátria não é Ninguém”, “As Alças de Agave” e agora em “Esmeralda – Crime no Santuário do Lima”, as cicatrizes das suas dores costuram com as linhas da memória cada ponto fértil do seu raciocínio criativo de um enorme romancista.

Ao compor a trama em torno da morte da cigana Esmeralda, figura chave da nova obra, François mais uma vez imortaliza seu pai, a eterna ausência pela força da covardia. Começa a contar a história abrindo com uma contadora de estórias de trancoso.

Mais uma vez, o leitor é induzido a calcular se ali se inicia a saga de uma personagem ou se se trata de registros verídicos do dono da obra. O menino sem pai aos cuidados do amor matuto da tia “Vevéia” em seu vestido de chita vermelha, cor de sangue.

A jovem cigana Esmeralda tem a anatomia das deusas de cinema e as curvas virginais das meninas que cada um de nós pelejou para ver num tempo em que não era fácil desnudar garotas. Em volta da cidade de Patu, o autor constrói um set de filmagem.

Capítulo a capítulo, o romance envolve o leitor com seus parágrafos de efeitos visuais; como se o autor fizesse das palavras uma sequência de frames que vão formando imagens reais no imaginário que é dele, mas que nos invade. São os truques de François.

E de truque em truque, inserindo novas personagens no contexto do assassinato da cigana, ele brinca de Agatha Christie com a facilidade de quem faz literatura por diversão. Dois, três, quatro, cinco suspeitos com uma mesma carga de culpa e motivos.

François parece brincar de fazer arte imitando a vida, ou inserindo a vida real na sua traquinagem arteira. O leitor não dirime as dúvidas sobre o que é verdade e ficção quando o contexto da estória fica repleto de algumas conjunturas da história recente.

Para chegar ao desfecho, para desvendar o assassinato da linda Esmeralda, o escritor insere na algazarra do inquérito um cipoal de potenciais criminosos com as mesmas digitais de figuras que transbordam no noticiário cotidiano dos escândalos.

Há políticos corruptos, profissionais liberais promíscuos, fazendeiros sem escrúpulos, jornalistas oportunistas, juristas incultos, matutos espertos, malucos de toda espécie e até padres pedófilos. É a urbanidade mundana representado na órbita da vida rural.

“Esmeralda – Crime no Santuário do Lima” é um dos mais belos romances policiais já compostos no Brasil, made in Umarizal-Martins-Natal, cidades que François Silvestre armou barraca para cozinhar as tripas do mundo e sorver a cerveja do dia-a-dia.

É mais uma grande obra de um intelectual como poucos, que jamais buscou notoriedade por causa de um conhecimento que ele sabe nunca se conclui. Crítico de si mesmo nas mais das vezes, sabe como ninguém dispensar elogios graciosos. Iconoclasta racional.

Como romancista demonstra a mesma genialidade que sabemos ter como poeta, orador e homem do Direito. Compôs uma obra de fôlego, não para a glória ou a vaidade literária, como vemos por aí. Vejo François como um contador da história dele próprio, na busca por definir aquilo que é mais humano, as nossas dores.

Cada alinhavada de texto que ele executa, nos livros ou nos artigos de jornal, atira aos abutres que violentaram o seu tempo o resultado filosófico da sua busca. Nada quer ensinar, apenas reencontrar o vestido de “Vevéia” para devolver o botão incrustado na sua mão desde a infância.

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