1986 – Propriedade Santos Cosme e Damião

O Substantivo publica os últimos fragmentos do diário do pintor Francisco Brennand, recolhidos pelo escritor Fernando Monteiro, entre mais de mil páginas. Os textos foram publicados simultaneamente no SP e no jornal Rascunho, de Curitiba. As duas partes anteriores podem ser lidas aqui e aqui. (TC)

Francisco Brennand

2 de julho

Pesadelo e morte. Morreria assassinado junto com um banqueiro que apenas conheço de vista. O assassino também cometeria suicídio, logo em seguida, com a última bala do seu revólver. Três balas no ventre do rico banqueiro, duas no meu peito e uma para a cabeça do assaltante. Não falarei desse pesadelo que me pareceu demasiado longo.

Sempre suspeitei que a memória dos sonhos não corresponde precisamente aos sonhos, mas, pelo menos, por momentos, estive dentro do inferno. Embora fosse um inferno  ao ar livre, em plena natureza, permanecia, ainda assim, cheio de ingredientes infernais, situações alucinantes, todas propícias à uma sensação de angústia infinita. Depois de morto (sem ter a certeza de estar morto), perambulava pela terra e via coisas indescritíveis, paisagens e seres deslocados de seus lugares habituais. O que faço no momento não será uma tentativa de reconstituição do sonho − matéria impossível − e sim algo que se relaciona com um fato estético, daí porque recordá-lo me fascina: um imenso cabo de aço, semelhante a um gigantesco teleférico, atravessava um oceano ou um lago sem que eu adivinhasse onde se situavam suas extremidades. Esse cabo, ajudado por fios, roldanas e correias suplementares, sustentava pela cabeça ou pelos seus longos cabelos louros, em espaços simétricos, uma centena ou mesmo milhares de freiras, com suas vestimentas monacais, todas, por assim dizer, penduradas e verticalmente expostas abaixo desses fios. Poderia sem esforço algum ver os seus pés descalços e, em plena luz, observar a palidez sobrenatural de seus rostos, quase sempre de olhos fechados.

Acontece que o enigmático mecanismo não era fixo. Algo fazia com que os corpos se movimentassem, rolando através desse infinito teleférico sem, contudo, haver nenhuma modificação na distância entre uma e outra freira. Lembro-me com absoluta clareza desta atroz simetria que, apesar do contínuo balouçar dos corpos, mantinha esses espaços  inalterados.

Repentinamente, essas freirinhas (todas eram igualmente jovens) são desprendidas uma a uma do grande cabo, começando da esquerda para direita, em tempo cronometrado, e lançadas ao mar. Um mar ou um lago de um azul intensamente luminoso, que paleta alguma de pintor poderia imitar. Do lugar em que eu me encontrava, talvez como a única testemunha dessa cena, via esses corpos simétricos e belos caírem n’água sempre em posição vertical e, no mais absoluto silêncio, serem tragados pelas águas, num redemoinho de espumas brancas, de um brilho indescritível.

Ressalto um detalhe importante: Toda essa visão foi observada de uma altura desmedida, cujo cenário tinha o seu equivalente aéreo em relação a paisagem marinha ou lacustre. E se eu não estava em uma montanha, certamente  voava, e era em pleno vôo que acompanhava aquele sinistro e ao mesmo tempo fantástico cortejo.

Como mencionei  o fato estético, procuro agora na vigília os equivalentes plásticos desse sonho, o que logo me parece uma temeridade. Nem mesmo William Blake, com as suas cenas fantasmagóricas e visionárias, tampouco os soturnos quadros do pintor suíço Heinrich Füssli, muito menos Buñuel, ou Salvador Dalí, na época heróica do cinema surrealista, nenhum deles poderiam aproximar-se das inacreditáveis imagens que presenciei. Magritte e Max Ernst, nem pensar. Resta-me, talvez, Giorgio de Chirico.  Esse nome, entre todos, me faz refletir, não propriamente pelas cenas impregnadas do espírito metafísico que soube invocar e transmitir nas suas pinturas como nenhum outro pintor moderno conseguiu, mas, sobretudo, pela extraordinária antevisão das coisas relacionadas com o misterioso e o desconhecido. Recorda-me certos trechos cristalinamente absurdos de sua novela − quase desconhecida − Hebdomeros, como também, me recorda algo que só o seu mágico olhar poderia descobrir.

No ano de 1921, esse extraordinário artista, jamais desatento, escreveu um artigo consagrado a Max Klinger, onde comenta uma água forte, intitulada  O rapto de Prometeu: “Esse estranhíssimo voo, gravado por Klinger, já nos deixa perceber a cena em toda sua realidade, alcançando o grupo volante no nível do espectador, de tal modo que quem a olha, de pronto, participa   da emoção   desse  voo  dos deuses.  A genialidade dessa composição está claramente demonstrada pelo fato de que, ao espectador, ela dá a impressão de uma cena que realmente aconteceu…”

Nota: A citada água-forte de Max Klinger sugere com raríssima eficácia uma revoada dos deuses, aquilo que modernamente os arquitetos denominam como perspectiva em voo de pássaro. Além da cena mitológica representada por Prometeu, carregado como um fardo por Mercúrio e a Águia Real de Júpiter, a gravura tem como pano de fundo uma longínqua e agitada paisagem marinha. Este trabalho, até o ano de 1969 se encontrava em Roma na coleção Giuseppe Sprovieri, quando foi escolhida, como uma preciosidade, para uma grande exposição na Galleria D’Arte Moderna em Torino: Il Sacro e Il Profano Nell’art dei Simbolisti.

Se não citei Hyeronimus Bosch, foi em vista de sua universal magnitude no domínio do mistério e do fantástico. Seu gênio, não poderia estar contido como forma de representação de apenas um único sonho, desde que ele já incluiria em si todos os sonhos e todos os pesadelos do mundo. E, de resto, eu só estava  propenso a falar de sonhos e sonhadores a partir do século XIX. Segundo tudo indica, não será difícil descobrir a razão desta obstinada escolha cronológica. Antes deste século, Sigmund Freud ainda não havia nascido.

3 de julho ─ 8h da manhã

De noturno, só o sonho, de sombrio, só a lembrança. O restante era todo feito de luz e de cores cintilantes, na sua claridade estelar. As faces descoloridas pelo sono eram igualmente pálidas e fantasmagóricas como os últimos vestígios de um afresco de Fra Angélico, pintado com cores muito claras. Mesmo os mares abissais, o seu azul não era desse mundo. Era também o anúncio de um anjo que renovaria a luz caída.

Não só uma perspectiva em voo de pássaro, mas, no caso do Rapto de Prometeu, uma revoada celeste à altura da Águia de Júpiter. Prometeu é apenas o pesado troféu que se transporta em meio ao solitário firmamento. A longínqua paisagem em baixo é um poço sem fundo, como a história do sofrimento humano.

6 de julho

Uma tarde inteira com o poeta Tomás Seixas. Continua a trabalhar no seu livro Casa dos sonâmbulos. Textos e textos reelaborados durante anos a fio. Sempre recomeçados, mas sempre os mesmos. Palavras testadas arduamente à luz da memória vigilante, de toda sua memória,  visual e auditiva, numa procura desesperada e categórica que o faz retornar ao mesmo lugar, a um ponto fixo, a um único e inalterável lugar, ou seja, o derradeiro ato de interpretar o primordial:  No princípio foi o Verbo…

Borges, no seu ensaio sobre A Cabala, comenta que “a noção do livro sagrado é completamente diferente do livro clássico. Num livro sagrado, são sagradas não apenas suas palavras, mas também as letras com que elas foram escritas”.

O poeta Tomás, na sua ortodoxia pessoal, não parece pensar de outra maneira, e assim prossegue lentamente em direção a essa quase inacessível Porta Estreita. A noite se aproximava quando condescendeu em fazer a leitura de uma artigo escrito há mais de vinte anos sobre Amadeu Modigliani. Depois, já sem o texto nas mãos, com a voz entrecortada pela emoção, como quem recorda antigas amantes, falou dos retratos de Beatrice Hastings, de Jeanne Hebuterne, esta, na sua opinião, muito semelhante a uma virgem gótica. E, recordou também da Grande Femme Nue − talvez um dos mais belos nus da pintura contemporânea , pintado em 1919, um ano antes do artista falecer num hospício em Paris.

7 de julho

As simpatias de Gauguin pela barbárie fez nascer a pintura moderna. Mas, afinal de contas, o que é um bárbaro, ou o que é um selvagem? Cesare Pavese, neste domínio, também começa perguntando: “Será possível ir mais além do que Jack London em O apelo da Selva? A arte do século XX  tende  para o selvagem. Primeiro, nos temas (Kipling, D’Annunzio); depois, na forma  (Joyce, Picasso, etc). Leopardi, com suas ilusões poéticas juvenis, procurou o selvagem como forma psicológica. Até Nietzsche tinha este sabor (com o seu Dionisos)”.

Ao próprio Pavese, o selvagem parecia interessar “mais como mistério do que como brutalidade histórica. Selvagem quer dizer mistério, possibilidade aberta”.

Vejamos então o que dizem os gregos, esses mesmos gregos e seus parentes afins − os romanos − dos quais Gauguin recomendava fugir como o diabo da cruz: “Jamais os gregos“.

Gauguin, dando as costas em definitivo à Europa e se instalando em Fatu-Iva, ilha das Marquesas, quase ainda antropofágica, à procura do que ele declarava ser indispensável para a plena realização de sua arte: “Creio que ali, este elemento selvagem, esta solidão completa, me dará antes de morrer um último fogo de entusiasmo que rejuvenescerá minha imaginação”.

Voltando aos gregos − os inventores da palavra bárbaro − o que pensavam eles a respeito de outros povos fora dos seus deuses, dos seus templos e dos reluzentes muros de calcário branco?

Nos dias cinco e sete de setembro de 1944, no seu  Ofício de viver, Cesare Pavese, não sem uma certa ironia, comenta exemplarmente:  “Dos sete trechos em que Heródoto na descrição do Egito diz que tem escrúpulos em tocar nos mistérios, trata-se, em três casos, dos deuses-animais, em dois do rito fálico, nos outros de autoflagelação e de iluminação sagrada. Por que é que Pan é representado com cabeça e pernas de bode? ( XLVI). Por que é que o porco − imundo durante o resto do ano − é sacrificado e comido durante a festa de Baco? ( XLVII). Por que é que os animais são em geral  sagrados? ( LXV). Aqui, Heródoto sente um horror totêmico e não ousa falar. Por que é que as imagens fálicas na festa de Baco têm o Phallus nu e movido por fios? ( XLVII). Por que é que os atenienses fazem as estátuas de Hermes fálicas? ( LI) Aqui, Heródoto sabe que Phallus e Deus coincidem e não ousa  dizê-lo. Em honra de quem, se batem os crentes durante a festa de Ísis? (LXI). Por que se celebra em SAIS  a festa das lâmpadas? (LXII). Existe aqui provavelmente qualquer um outro horror que a respeitosa curiosidade mundana de Heródoto não teve a coragem de enfrentar. Eis um exemplo da maneira grega de tratar o selvagem: é reconhecido com respeito tolerante, como sagrado, e, acabou-se. Os gregos possuem a consciência racionalista de que o mundo do sagrado e do divino esconde abismos e que é preciso correr um véu sobre ele. (Outrora, faziam-se sacrifícios aos deuses, mas sem os nomear (LII) ). Foi ainda há pouco tempo que Homero e Hesíodo descreveram e narraram os deuses ( LIII).  O tom de Heródoto é quase de censura )”.

9 de julho – 6h 45m

Pouco a pouco, como numa cidade sitiada, nos habituamos (ou nos abandonamos) à desgraça. “A revolta é o ladrar do cão louco”, diz Camus, citando Antonio e Cleópatra,  de Shakespeare. Meu Deus! uma minúscula notícia de jornal, como se fora uma charge de humor negro, e, no entanto, deve ser verdadeira na sua aparente frieza estatística. Fala da fome no mundo. Da fome que atinge sobretudo as crianças e, ainda assim, sem levar em conta  todos aqueles que, ainda não nascidos, estariam de antemão condenados ao mesmo suplício.

Ivan Karamázov afirmou que suportaria tudo, menos o sofrimento de uma criança. Presumo que ele tenha falado por toda a humanidade, mas parece que as coisas não têm se modificado, e acredito que continuarão assim até o fim dos tempos.

14 de julho

“Então eles se agarraram, se enlaçaram e combateram, até que a mão dele chegasse à sua cintura fina e a ponta dos dedos tocasse o seu corpo flexível. E então os seus membros amoleceram e ele tremeu suspirando como um junco da Pérsia no rugir da tempestade”. (História do combate entre o lutador Charkan e a jovem rainha Abrise).

31 de julho

Não tendo para onde fugir ontem à noite, se entrega  nos braços de Gertrudes que, a seu pedido, toda vestida de seda negra, o aguardava impacientemente. Ela cumprira à risca as suas insólitas recomendações e, talvez, ainda muito mais do que esperava, pois, como notou, nenhum detalhe do seu traje fora descuidado. A massa rebelde dos seus cabelos negros, com franja sobre a testa, acentuava o branco intenso do rosto, propositadamente embranquecido pela maquiagem, como uma máscara trágica de teatro Kabuki. Os olhos igualmente acentuados de negro, assim como as sobrancelhas muito finas e arqueadas, completavam com o vermelho intenso dos lábios toda essa sofisticada caracterização. Difícil para ele foi tão somente fazer com que essa improvisada atriz cumprisse o seu o papel.

Já nas primeiras horas da manhã, compreendeu afinal que todos os esforços nesse sentido seriam vãos, e que o aprendizado necessitaria, como era de se esperar, de tempo, de muito tempo. Acontece que ele não tinha mais como ainda aguardar. E foi apenas para encorajá-la que a brindou com o título solene de Princesa da Armênia, rainha pelo menos naquele instante, no seu  insuspeitável e inóspito deserto. Entretanto M.G. é uma figura noturna digna do maior respeito, cuja sensualidade é inesgotável e amedrontadora.

1 de agosto – 20h 48m

Mais uma vez, quase como se fosse uma rotina, volto à fábrica à procura de uma pousada mais segura para dormir. Já não confio em Dalila. Poderia cortar os meus “cabelos” e, então, eu perderia as minhas forças.

2 de agosto

O catre como dormida, foi péssimo, mas pior ainda é, na madrugada solitária,  aperceber-se que a ninguém interessa o nosso ingênuo abandono. Compreende-se então, muitíssimo bem, o desespero dos velhos e dos fracos.

Como um mestre da amargura (na qual finalmente soçobrou), Pavese comenta: “Deixa-se de ser jovem quando se descobre que de nada serve contar uma dor”.

A minha sorte em neutralizar tão nefasta lembrança nasceu de um outro comentário, esse sim, totalmente enigmático, mas que, em todo caso, tem ajudado a reanimar-me, podendo mesmo ser utilizado como escudo ou até como uma lança para defesa daqueles que, já não sendo jovens ainda, da vida esperam alguma coisa. Quem assim promete é o pintor Jean-Auguste Dominique Ingres, figura, aliás, bastante controvertida na vida e na arte, mas que, como ninguém, soube defender com unhas e dentes o seu obstinado beau-ideal: “A minha velhice me vingará”, foi o que ele disse, e não precisava dizer mais.

Já não é hora de dizermos como na peça de Shakespeare, “All’s Well that End Well”, “Tudo está bem quando acaba bem”.

Andréa Monti: “E não consola saber que é de história de loucura que está pavimentado todo o caminho seguido, desde o Prometeu até a corrida do átomo”.

4 de agosto − 7 horas

Começo o dia entorpecido. O catre não funciona como um leito ideal. Antes fosse duro e inóspito como todos os catres que se prezam, mas este é estofado de almofadas de couro, que me fazem afundar como um náufrago.

Continuo preso às recentes discussões políticas que participei na casa de Tomás, junto a outros amigos, quando, com veemência, lembrei um estranho comentário de Pavese sobre a Revolução Francesa: “A verdadeira Revolução Francesa ainda não aconteceu, mas quando de fato acontecer, tenho a vaga impressão de que com ela não estarei de acordo”. A enorme coragem e lucidez desse escritor em emitir um comentário tão original pode parecer, aos menos avisados, apenas uma mera brincadeira. Acontece que não é brincadeira alguma. Como citei de memória, logo à noite corri célere aos textos do Ofício de viver, no pressuposto, inclusive, de que lá encontraria esta observação.  Nada descobri. Agora pela manhã, retorno aos mesmos textos e nada… Isso me confunde a ponto de supor que Pavese nunca afirmou uma tal “heresia”. Mas, se não foi ele, quem foi então? Quanto a mim, não sei se concluiria com tamanho acerto, humor e igual originalidade um semelhante juízo, embora, com ele, estivesse de completo e irrestrito acordo.

Alguém me diz que a famigerada Carta ao Pai, de Franz Kafka, jamais chegou ao seu destinatário. A sorte foi de ambos. Seria terrível, difícil e mesmo espantoso que um pai pudesse ler tais acusações e que o filho ainda sobrevivesse à tamanha maldição.

Não é possível que Franz Kafka, como homem e escritor,  não se apercebesse dos misteriosos limites da “verdade”, daquilo que, supondo verdadeiro, não é ainda toda a verdade. Há um vazio a considerar e é nessa lacuna que os fatos se desenvolvem, concentram-se e também se expandem perigosamente. O próprio Kafka num seu aforismo reforça o que digo: “Na luta entre ti e o mundo, apóia o mundo; não se deve lesar a ninguém, nem sequer frustar o mundo da sua vitória”.

5 de agosto – 21h 50m

Mandei comprar na cidade a mais simples cama de ferro (tipo solteiro). O motorista junto com o vigia da fábrica trazem uma cama pintada de azul celeste, o que me deixa encolerizado. Fiz-lhes ver o absurdo dessa cor com a qual eu terei de conviver dentro do meu próprio atelier ao lado de outros móveis, na sua maior parte sombrios. Para a minha crescente irritação, demoraram em montar  as  ferragens e eu, aqui  com  os  meus  botões, só  pensando em  mandar repintá-la de uma

outra cor. De repente, olho no fundo da sala, a pequena cama estava ali armada, resplendendo no seu  azul  cerúleo  profundamente  belo  e  primaveril.  Era  a  pincelada   de  gênio  necessária para

vivificar esse ambiente sobrecarregado de ocres pardacentos, sienas, brancos sujos e  pretos desbotados.

Saiu o velho catre que há tantos anos me serviu e entra uma cama jovial com a sua nova harmonia, aparentemente extravagante à maneira do Blue Boy de Gainsborough, este também, de tão celestial presença entre tantos pardos, terrosos e aborrecidos.

A cama celeste, ou a celestial morada, funcionou a contento, e posso asseverar que dormi bem melhor essa noite. Apenas tenho de reconhecer que é uma cama frágil e casta que não permitirá a presença de mulheres à toa.

7 de agosto – 3h20m

Os insetos e, possivelmente, uma conversa telefônica que mantive com Fenícia, ontem no começo da noite, não me deixaram dormir. Irritou-me acordar apenas às três horas da manhã, uma hora pesada, propícia ao desenlace dos moribundos, Hora do lobo (título de um filme de Bergman, não é verdade?). Mas, o que enlouquece os escandinavos, ainda mais que a nós outros, que já somos todos mais ou menos ensandecidos?

Fenícia também é louca. Toda loucura é irresistível e insistente. E ela insiste como ninguém. Que dificuldade em convencer um louco para que ele deixe de ser louco! De volta para a cama celeste, vejo o grosso volume laranja, o inconfundível Journal de Kafka, traduzido para o francês. Abro-o ao acaso. Tout se refuse à être êcrite. Em baixo da frase, há um grifo canhestro, trêmulo, incompleto, marca registrada de quem não ama os livros, mas que, assim mesmo, pode ainda amar os textos. Mas como é que se pode amar os textos sem amar os livros? Então, não se ama nenhum dos dois? O grifo embaixo da frase genial de Kafka é meu. Logo, não amando os livros, igualmente não devo amar os textos.

Voltando ao elogio da loucura, escuto A.C. confidenciar-me, sorrindo, que quem tirou a sua virgindade foi uma mulher: “Tu a conheces, ela é louca! sabias?” diz A.C. olhando para mim à procura de aprovação. “Sim, ela é louca”, repetiu.  Logo acrescentei:  “E quem não é louco?” Desta feita silenciou, não respondendo nada.

Meu Deus, como as mulheres se escravizam ao sexo! Neste capítulo, nada a fazer, nada a declarar. Insistir, já é loucura.

Na tarde de ontem, o John Richardson, biógrafo de Picasso, do alto de sua prosopopeia, declarou que Olga Picasso era louca; que Marie-Thérèse Walter era belíssima, mas primária e que acabou se enforcando cinquenta anos depois de ter conhecido o artista; que Dora Mar era inteligente, mas inconveniente, neurótica e excessiva em tudo. E, como se não faltasse mais nada, um tanto kafkiana. Enfim, um azarão; Françoise Gillot era… Engraçado, sobre esta jovem, Richardson não diz nada, apenas cita trechos do seu livro escrito a quatro mãos contra Picasso. Se Richardson não diz nada  relativo à  Françoise é porque certamente estão mancomunados. Richardson insinua que o poeta Eluard oferecia abertamente a sua bela esposa Nush ao amigo Picasso e, quanto a Jacqueline Roque,  com  quem  o  pintor  se casou em segundas núpcias, Richardson não diz muito, mas deixa subentendido, claramente, que ela fisgou o velho polígamo com unhas e dentes, apressando assim o desespero e a  morte de Marie-Thérèse, que também, por sua vez, tinha lá as suas pretensões matrimoniais, etc. Enfim, um amontoado de escândalos no seu paroxismo. Se enfoquei tão somente esses aspectos negativos amorosos, foi motivado pela insistência do próprio Richardson de dar-lhe um amplo significado. Em geral, a visão restante das análises cronológicas dos velhos ritos picassianos é excelente e justa, perseguindo sempre a pista de boas e dilatadas elucidações. Vê-se que o crítico admirava Picasso sem reservas, conhecendo bem seus amigos, as influências temperamentais recíprocas e, sobretudo, a gênese de suas principais obras. Contudo, o mesmo não acontece com as intrujices a propósito do “louco amor de Picasso”. Terá sido o pintor tão louco assim? Há qualquer coisa no cerne deste estudo que não me cheira bem, e, no fundo, quem sai chamuscado é Picasso. Na minha opinião o que foi escrito permanece terrível, mas é igualmente belo nas suas indiferenciadas digressões e nas suas encantatórias e definitivas descobertas.

O artigo foi lido e é medonho como história e suas inevitáveis consequências. A vida em si já é um horror, mas na sua multiplicidade de aspectos acaba por purificar o mal, mantendo-o disfarçado sob um manto da fantasia, o que não acontece quando se codifica cronologicamente todos os eventos, e se verifica com frieza aquilo que, ainda não tendo nome, poderia cair no esquecimento e jamais ser denominado. À luz dessas três ou quatro páginas de jornal, Pablo Picasso poderia ser tomado isoladamente como monstro, e sua relação íntima ou casual com as mulheres  que conheceu, uma verdadeira monstruosidade.

Todas essas linhas ou anzóis colocados em torno do artista, acabaram por fisgá-lo. E, assim, é analisado, como um peixe já fora d’água, fora do seu meio ambiente e de suas circunstâncias vitais, portanto, já sufocado e morto.

Há poucos meses, nesses mesmos cadernos culturais, li algo semelhante, escrito por James Snyder, outro norte-americano, discorrendo sobre aquilo que chama “uma nova imagem de Rembrandt”. Na realidade é uma apreciação despropositada, abordando  um ensaio de Gary Schwartz sobre o mesmo artista, Rembrandt, His Life, His Painting. Diferentemente do alto conceito de Eugéne Fromentin sobre Rembrandt, esse Sr. Schwartz, entre outras preciosidades, começa a nos dizer que o pintor até carecia de talento… De saída diz ele: “Partindo de um estudo exaustivo e acurado de documentos (será que a vida se resume a uma prova documental?), em sua maioria relativos aos clientes, o autor fornece um vívido retrato de Rembrandt caracterizando-o como uma pessoa repugnante e indigna de confiança: ávido, fútil, insociável, grosseiro e arrogante…”

Certamente o Sr. Schwartz estava escrevendo uma autobiografia e não um suposto retrato do artista, esquecido de que o sensato Montaigne já sabiamente comentara que “todo homem carrega em si a forma inteira da humana condição”.

Afinal de contas esses enlouquecidos norte-americanos estão nos saindo melhor do que a encomenda. Já dizia Durrell, com muito mais propriedade do que John Richardson ou Gary Schwartz et caterva, que “tudo o que se disser de um homem (de qualquer pessoa) poderá ser verdade. O Santo e o Canalha partilham a realidade”. E tem toda a razão Durrell quando completa: “Se as coisas fossem sempre o que parecem ser, como se encontraria empobrecida a imaginação dos homens?”

Propriedade Santos Cosme e Damião

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