2 de julho

Por Caetano Veloso
O GLOBO

Zé Miguel Wisnik me deu o volume das obras completas de Oswald de Andrade (FOTO) em que estão os textos teóricos e filosóficos do poeta. Por causa das ideias sobre antropofagia e utopias, quis reler o que eu próprio tinha escrito a respeito — e eis que me caiu, de modo um tanto milagroso, um exemplar de “Verdade tropical” no colo. Devo ter alguns em casa, mas sempre que procuro não acho. Fui dar uma olhada nesse que o doce acaso me deu e, correndo pelas páginas da introdução, encontrei o seguinte: “Em 95, o jornal ‘Folha de S.Paulo’ estampava na primeira página: ‘Relatório do Banco Mundial aponta o Brasil como o país em que há maior desigualdade de renda no mundo’. A matéria informa que 51,3% da renda brasileira está concentrada em 10% da população. Os 20% mais ricos detêm 67,5%, enquanto os 20% mais pobres detêm apenas 2,1%. É um legado brutal que minha geração, ao chegar à adolescência, sonhou fazer reverter.” Em 2013 reconhecemos progressos na distribuição das riquezas, os governos FH, Lula e Dilma representaram a capacidade da sociedade brasileira de superar certos entraves que pareciam eternos. Não faz mal pensar que a ação dos adolescentes de 1963 tenha contribuído para isso.

Estou em Salvador e acabo de chegar em casa com grande atraso pois um evento organizado pelo governador Jaques Wagner para comemorar os 10 anos do PT no poder — e que conta com a presença na cidade de Lula e Dilma — gerou um congestionamento na região do Rio Vermelho e de Ondina que o motorista me diz ter sido intensificado pelos manifestantes que se aglomeraram em frente ao hotel da orla onde a festa se daria. “Médicos, MPL e uma pá de gente está lá protestando”, me conta o motorista. Tenho de escrever e pretendo sair para ver Salvador um pouco, já que amanhã sigo para João Pessoa. Mas queria ter visto o jornal local na televisão para saber como se desenrola essa cena que, pela mera descrição, se mostra cheia de complexidades. Os adolescentes de 63 queriam mudanças imediatas. (“Reformas ou…” diziam as reticentemente ameaçadoras pichações nas paredes das cidades do Brasil de Jango.) Mas a maioria deles cresceu para ver FH e Lula de mãos dadas contra a ditadura e, para sua quase incredulidade, a chegada de um e, depois, do outro ao posto máximo da República. Wagner, Lula e Dilma têm o que celebrar. Os adolescentes de agora, no entanto, têm do que se queixar. (Adolescentes de todas as épocas podem ter 50 anos ou mais, mas a feição fisicamente adolescente das passeatas de junho é inegável.) Dilma disse ao papa que, como seu mestre tinha escrito, eles pedem mais porque podem mais. Não é mentira. Embora seja só um aspecto de repente pequeno da verdade. E de repente um tanto mesquinho. Visa demasiado obviamente o sucesso da política imediata do PT. Os adolescentes de junho começaram por rejeitar o aumento de 20 centavos nas passagens dos ônibus em Sampa e, daí, atingiram o leque de insatisfações que vão da percepção da inflação ao nojo dos políticos corruptos. E ainda somos um país horrivelmente desigual e de péssima conta entre os impostos pagos e os serviços prestados.

O sonho de reverter situações cronicamente massacrantes não pode se expressar exclusivamente em gestos pacíficos e sensatos. O garoto de 43 ou 17 anos que vai à rua sente que o vândalo o representa em muitos aspectos. A separação asséptica entre os pacíficos e os baderneiros é irrealista. É bom ver o Carioca da Mídia Ninja no “Jornal da Globo”. E o desmascaramento dos P2. Nada contra serviço de inteligência das polícias. Sua militarização é que já está sendo sentida como insustentável numa verdadeira democracia. A tensão entre vândalos e policiais (que estranhamente atacaram os manifestantes perto da casa de Cabral mas não enfrentaram os vândalos na Ataulfo de Paiva na noite do Leblon) vem aumentando o medo de que a sociedade possa tender para algum tipo de liderança autoritária. Espero e suponho que não venha a ser o caso, apesar do ar enigmático das manifestações. Pacíficos e vândalos são sobretudo eleitores do PT e ainda odeiam mais os oponentes do partido do que o desprezam. Mas: abertas as comportas das queixas, é natural que caia a aprovação do governo. Gostei de rever Bruno Telles na TV aberta, depois de assistir na internet ao vídeo em que ele defende sua inocência. Sou classe-média pacífico de centro e tenho respeito pelo credo liberal. Mas entendo que a fúria contra a injustiça social não pode se expressar suavemente. Dizem-me que a parada do 2 de Julho na Bahia teve mais energia este ano, cartazes com slogans das manifestações provando que estas a fortaleceram. Dominguinhos, de Garanhuns, é a prova de que o Brasil pode.

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