2 textos sobre Israel

Sérgio Malbergier
FSP

Ódio a Israel ameaça palestinos

Como judeu, descendente de avós que perderam pais e irmãos no Holocausto nazista, é de embrulhar o estômago ver a guerra mundial contra Israel.

Nem um século se passou desde que o mundo observou passivamente Hitler e seus aliados exterminarem 6 milhões de judeus indefesos no coração da Europa, e o coro histérico e irracional contra os judeus voltou com força e abrangência. É o antissemitismo travestido de antissionismo.

Sim. Até Emir Sader sabe que não é possível distinguir o Estado judeu dos judeus. Odiando-se um, odeia-se os outros.

E os inimigos de Israel (dos judeus) deixam isso bem claro. Seja no (re)uso do acervo iconográfico antissemita clássico, como vemos nas charges na mídia oficial árabe e “progressista” europeia, seja no grito por boicotes à vibrante e independente academia israelense, que traz de imediato à memória os boicotes aos negócios de propriedade judaica nos primórdios da Alemanha nazista.

Que se conteste e proteste contra atos e políticas adotadas pelo governo de turno em Jerusalém, como os próprios israelenses não param de fazer desde antes de o Estado judeu ser oficialmente declarado por David Ben-Gurion, em 1948.

Mas suspeito, para dizer o mínimo, do tom de ódio indignado de parte importante da opinião pública (a mais vocal, mas não necessariamente a mais numerosa) em relação a tudo o que Israel faz.

Não se está aqui, obviamente, apoiando as mortes no barco com ativistas e militantes que rumava para Gaza. Mas o conflito no Oriente Médio é muito mais complexo do que maniqueísmos reducionistas e manipulações grosseiras. Estas só servem para enganar desavisados de boa-fé e promover extremistas de má-fé.

A guerra próxima não é entre israelenses e palestinos, mas entre os israelenses e palestinos que querem a paz contra os israelenses e palestinos que não querem a paz. O segundo grupo é minoria nos dois lados, mas consegue impor o conflito justamente porque sua complexidade dificulta tanto um acordo e o sangue já derramado fomenta tanto ódio e medo.

E há ainda a guerra mais distante que Israel trava contra o extremismo islâmico e seus apoiadores no mundo árabe-islâmico. O uso cínico que ditaduras opressoras como Irã e Síria faz da causa palestina, a eterna bucha de canhão de terceiros interesses no Oriente Médio, talvez seja hoje o principal combustível do conflito.

Israel retirou suas tropas do sul do Líbano em 2000 e desde então a região está tomada pela milícia terrorista extremista islâmica xiita Hizbollah, apoiada pelo eixo Damasco-Teerã. O Estado judeu retirou suas tropas da faixa de Gaza em 2005, e o grupo extremista terrorista islâmico sunita Hamas tomou o controle da região, apoiada pelo eixo Damasco-Teerã.

Servindo a seus patronos estrangeiros, Hizbollah e Hamas transformaram as regiões recém-desocupadas por Israel em bases de foguetes contra o país, o que levou a guerras sangrentas nos dois palcos e afastou ainda mais a possibilidade de paz.

Os palestinos precisam ter seu Estado, até o premiê nada moderado de Israel, Bibi Netanyahu, já o admitiu. Hostilizar Israel da forma com que os apoiadores cegos dos palestinos fazem só atrasa esse justo objetivo ao reforçar mais uma vez a ideia de que a discriminação contra os judeus segue muito viva.

Viva a tolerância. Não viva o ódio.

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O Estado de Israel é a origem do ódio

Breno Altman
Opera Mundi

Li essa manhã um indignado artigo escrito pelo jornalista Sérgio Malbergier, intitulado “Ódio a Israel ameaça palestinos”. O autor aborda o repúdio internacional contra o ataque israelense à frota humanitária que se dirigia a Faixa de Gaza. “Como judeu, descendente de avós que perderam pais e irmãos no Holocausto nazista, é de embrulhar o estômago ver a guerra mundial contra Israel”, afirma o colunista da Folha.com.

Temos pontos em comum. Também sou judeu. Meus avós, como os dele, igualmente perderam irmãos e parentes na Europa ocupada pelo nazismo. Mas considero inaceitável e indigno que o Holocausto sirva de álibi para que o Estado de Israel comporte-se com o povo palestino com a mesma arrogância e a mesma crueldade que vitimaram os judeus.

Onde Malbergier consegue ver “guerra mundial contra Israel”? Protestos e moções são comparáveis aos tiros que receberam os passageiros das embarcações pacifistas? A tímida resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas tem alguma equivalência com o terrorismo de Estado que se manifesta nas atitudes do governo israelense?

O problema talvez não seja de estômago embrulhado, mas de vista embaçada. Quem sabe o dr. Greg House possa diagnosticar a cegueira que acomete meu patrício. Afinal, como deveriam reagir os homens e mulheres de bem a mais esse ataque covarde? Batendo palmas? Aceitando as mentiras de Netanyahu?

Mas Malbergier não se contenta em justificar os crimes sionistas com o escudo do Holocausto. Recorre à surrada fórmula do antissemitismo: “Não é possível distinguir o Estado judeu dos judeus. Odiando-se um, odeia-se os outros.”

Arvora-se o autor a falar em nome de todos os judeus? Não em meu nome. Tampouco no de incontáveis judeus que deram suas vidas pelas boas causas da humanidade e jamais aceitariam ver sua biografia misturada a defesa de um Estado comprometido até a medula com a opressão de outro povo.

Se Israel está se convertendo em uma nação pária, que Malbergier procure a responsabilidade por essa situação entre os malfeitos do sionismo, pois foi essa corrente que construiu o Estado de Israel à sua imagem e semelhança.

Governo após governo, desde 1948, o Estado de Israel viola resoluções internacionais e dedica-se a expandir suas fronteiras muito além da partilha da Palestina aprovada pelas Nações Unidas em 1947.

O primeiro dos atentados terroristas, realizado em abril de 1948, foi o massacre da aldeia de Deir Yassin, nas proximidades de Jerusalém, quando mais de duzentos palestinos desarmados foram trucidados por forças sionistas paramilitares. Dali por diante essa foi a marca do comportamento de sucessivas administrações israelenses.

Ao ódio colonizador do Estado sionista, os palestinos responderam com o ódio dos desvalidos. Muitos de seus atos são injustificáveis e condenáveis, pois o terror contra a população civil é crime contra a humanidade. Mas o ovo da serpente, onde tudo começou, está na recusa de Israel em aceitar o direito à independência e à soberania do povo palestino.

A escalada da violência só irá terminar quando esse direito estiver assegurado. O Estado de Israel atravessou décadas na ilegalidade porque sempre contou com a salvaguarda da Casa Branca para seus atos de pirataria. Apenas se sentará com seriedade na mesa de negociações se essa proteção acabar.

O temor de muitos judeus que defendem o Estado de Israel é que, dessa vez, seu país de reverência tenha ido além da conta. Diante do risco, ainda pequeno, de que a era da impunidade chegue ao fim, apontam seu dedo acusatório e ameaçador contra as vítimas.

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Marcos Silva 4 de Junho de 2010 16:35

    Amigos e amigas:

    A situação no Oriente Médio é muito triste. Não vejo motivo para negar a existência de um Estado de Israel. Não vejo motivo para negar a existência de um Estado palestino. A ONU, infelizmente, é de uma timidez irritante. E as grandes potências, até agora, apenas apoiaram um dos lados – mais o lado israelense. Reconheça-se que os governos dos países ditos árabes, supostos aliados dos palestinos, atrapalham muito: são monarquias absolutistas (!) ou repúblicas teocráticas. Mas Israel também é uma república teocrática, religião é critério para atribuir cidadania lá.
    Gosto muito de um grande livro escrito por Pierre Vidal Naquet (descendente de judeus), “Assassinos da memória”, publicado entre nós pela Papyrus. Vidal Naquet, grande historiador clássico, rejeita a negação do holocausto nazista e, ao mesmo tempo, deixa claro que ser judeu não se confunde com a defesa das políticas do Estado de Israel.
    Outro ensaio de excepcional importância sobre universo similar é “O judeu não-judeu”, de Isaac Deutscher: descreve a criação do Estado de Israel como algo paralelo a uma pessoa que foi atacada em seu apartamento por um espancador, jogado pela janela de um andar alto, caindo em cima de um passante (palestino), a primeira vítima de espancamento se ergue e começa a espancar… o passante sobre o qual caiu.
    Por fim, “Eichman em Jerusalém”, de Hannah Arendt, continua a ser uma leitura básica para se entender criticamente o holocausto e sua interpretação em Israel e nos EEUU.
    Judeus e palestinos são muito mais que essas disputas territoriais. Lutar contra a injustiça é muito mais que defender políticas de estado. A condição humana está em jogo nesse conflito, não podemos ficar indiferentes a ele.
    Abraços a todos e todas:

  2. Carlos de Souza 5 de Junho de 2010 9:19

    Ninguém está em guerra contra Israel, mas contra os políticos de Israel, este governo truculento e expansionista que nega o direito de outra nação existir.

  3. Claudio Lisboa 15 de Junho de 2010 4:11

    Caro, Sérgio Malbergier,

    Não é porque seu antecedentes foram mortos e perseguidos que os descendentes deles podem fazer o mesmo com outros povos.

    Lamento por sua opinião e mais ainda porque lhe deu o espaço para expremir tais opiniões.

    Esconder um estado assassino com palavras como “anti-semitismo” não é jornalismo.

    Lamentável até o espaço dado por este blog e pior ver isso na folha.

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