20 dicas de bom comportamento com escritores

Por Juan Pablo Villalobos
BLOG DA COMPANHIA

Contra o que a maioria acredita, os escritores são pessoas frágeis que escondem, detrás de uma máscara de pedantismo, autossuficiência ou simpatia, um Maracanã de inseguranças. Uma palavra, uma frase, um olhar, uma careta podem acabar com a carreira do mais prestigioso dos autores. É por isso que eu, depois de participar de inúmeros encontros com leitores, depois de observar como, por culpa de um comentário sobre o clima em Pindamonhangaba, o melhor escritor de minha geração largava a literatura para virar intermediário de bacalhau norueguês, resolvi contribuir com meu grão de areia para tentar salvar os colegas de profissão.

Eis aqui, caros leitores, vinte dicas para vocês porem em prática em festivais literários, feiras do livro e bienais diante de seu escritor favorito, não tão favorito ou, até, para aplicar à inversa na frente de seu autor de nenhum jeito favorito (se o que você quer é que ele pare de uma vez de escrever).

1. Evite dizer: “Sabe o que foi que mais gostei de seu livro? A capa”.

2. Não peça para o autor sorrir para uma foto: lembre que eles adoram parecer atormentados (e alguns, como o Houllebecq, têm só um dente).

3. Evite a pergunta: “Escuta, você sabe onde posso baixar seu livro de graça na internet?”.

4. Se você achou um erro ortográfico ou sintático no livro, procure o revisor! É culpa dele, não do autor! (O nome aparece na página de créditos.)

5. Evite dizer (2): “Dedica pro meu cachorro”.

6. Se seu nome é esquisito (e todo mundo sabe quando um nome é esquisito, especialmente a própria pessoa), faça a gentileza de anotá-lo num papelzinho para pedir dedicatória.

7. Não pergunte por que ele virou escritor: ele com certeza está arrependido.

8. Não dê dicas turísticas de sua cidade: os escritores adoram ficar trancados no hotel assistindo TV a cabo, fazendo uso do room service e da geladeirinha do quarto (se estão pagos, claro).

9. Evite dizer (3): “Eu não gosto de ler, mas gostei de seu livro”.

10. Se você é o único na fila para pedir autógrafo, faça o favor de ficar conversando com o autor no mínimo meia hora, ou até chegar outro leitor.

11. Não peça para fazer uma selfie juntos. Escritor bom odeia selfies. É um dado científico.

12. Tenha a delicadeza de não perguntar se ele gosta da obra de outro autor da mesma geração.

13. Evite dizer (4): “Eu não concordo com o que aquele crítico babaca do jornal escreveu, lembra? Sim, aquele que falou que seu romance era uma bosta gigante! Não leu? Eu posso mandar o link por e-mail, se quiser, mas não liga para isso, seu livro é ótimo. Me passa seu e-mail”.

14. Não fure a fila, não se preocupe: se tem muita gente, você pode encontrar o autor depois no boteco mais próximo.

15. Esqueça: juro que o autor não conhece a solução pro problema da fome no mundo, da educação no país ou da falta de centroavante na seleção brasileira.

16. Tenha a sensibilidade de evitar dizer que você adora a obra de outro autor da mesma geração. Piora se, além do mais, os dois escritores são da mesma cidade: você pode provocar um infarto fulminante ou uma depressão crônica.

17. Evite a pergunta (2): “Escuta, dá para viver de escrever?” (não, não dá). Se você perguntar, corre o risco de te pedirem dinheiro emprestado.

18. Não interrompa o trajeto do escritor rumo à mesa dos drinques: ele poderia estar sofrendo uma crise de abstinência.

19. Evite dizer (5): “Dedica pro meu amigo, se chama Richarlyson, ele adora seus livros, sei lá por quê. Eu, para falar a verdade, não gosto, acho meio fracos, eles não dialogam com a tradição, estão cheios de clichês, desculpa a opinião honesta, mas eu acredito que o escritor precisa da crítica honesta para poder crescer, se não ele fica se achando o máximo só porque os amigos falam que ele é bom, o que falta no meio literário é honestidade, falar pro escritor ruim que ele é ruim, como você, cara, sinto muito, mas você é ruinzinho, tem piores, isso sim, não vou falar que não, tem caras realmente sem noção, você até que poderia chegar a escrever alguma coisa interessante se se esforçar muito, mas para isso tem que escutar as críticas honestas do pessoal, entendeu? Assina aí pro Richarlyson, meu irmão.”

20. Se você não leu o livro, se você não conhece o autor, se você nem gosta da literatura, se você só estava passando na frente do coitado, faça o serviço de se aproximar, dar uns tapinhas nas costas e dizer muito empolgado: “Cara, gostei muito de seu livro, você é genial. Parabéns!”. Eu garanto que ele não vai fazer perguntas para desmascarar você, escritor adora ser enganado.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil e Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 6 de maio de 2015 16:42

    ha,ha,ha… massa!!!

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