2009: enfim, um ano musical


Por Diogo Salles, em Digestivo Cultural

Dois mil e nove, que surpresa. Um ano estranho em diversos aspectos, curioso em outros, mas particularmente interessante na música ― mais especificamente no rock. Depois de dez anos da mais absoluta letargia musical (vide a lista dos discos mais “importantes” da década), uma lufada de ar fresco, enfim. Claro que nem todos os fatos que marcaram o ano na música foram assim tão positivos. Michael Jackson, por exemplo, trouxe sentimentos dúbios. A morte foi trágica, mas revigorou o astro que definhava em praça pública, trazendo-o de volta para os holofotes e redimindo-o através de seu inquestionável legado musical.

Foi nesse último ano da década que observamos algumas bandas retomando suas carreiras com trabalhos que, se não arrancaram suspiros dos fãs e da crítica, fizeram jus às suas discografias. Caso do Living Colour, com seu The chair in the doorway. E do Pearl Jam, que lançou Backspacer. Fugindo cada vez mais da sonoridade de Ten (1991), eles apostaram numa abordagem mais direta, crua, flertando com o punk rock. Não é nada brilhante (e nem se pretende assim), mas só constata aquilo que todos já sabiam: o único sobrevivente do movimento grunge soube envelhecer de maneira digna. Já o U2 fugiu dos clichês que o cercaram nos últimos discos e decidiu ousar com No line on the horizon, remontando alguns climas que Brian Eno trouxera em The unforgettable fire (1984). É o trabalho mais ambicioso que o U2 fez em anos. Se musicalmente No line triunfou, comercialmente, é um fracasso (para os padrões do U2). A ambição pode ter custado caro à banda (por enquanto), mas é algo que a megalomania da turnê 360º promete recompensar.

Entre os artistas solo, Ben Harper resolveu encostar seu violão e chamar a banda Relentless7 para gravar um disco elétrico, com influências calcadas no rock e no blues. Assim nasceu White lies for dark times. Ponto para ele: conseguiu marcar posição em ambas as frentes. Já Sting, depois de fazer a turnê de despedida com o The Police (dessa vez foi pra valer), volta a mais um de seus momentos introspectivos com If on a winter’s night. Ambientado no rigoroso inverno inglês, o CD traz uma orientação jazzística ― o que cria uma atmosfera gélida e o distancia ainda mais do país do carnaval. Com isso, Sting confunde seus críticos e joga o álbum naquelas categorias indecifráveis (alguém falou “world music”?). Fugindo dos seus tradicionais agudos, ele encontra outras regiões e tons para trabalhar a sua voz e os destaques vão para “Soul cake” e “Christmas at sea”. Como o próprio Sting destacou, If on a winter’s night soa como uma reflexão para um artista pop batendo as portas de seus 60 anos. Num momento em que vemos muitos artistas de outrora sobrevivendo grotescamente como “celebridades”, essa reflexão vem em boa hora.

Mas a grande novidade de 2009 foi o levante das chamadas “superbandas”. Começando pelo Chickenfoot que, como já descrevi aqui, lavou a alma dos entusiastas do classic rock (ok, admito: sou um deles). E agora, mais para o fim do ano, com o Them Crooked Vultures, banda formada por John Paul Jones (Led Zeppelin) no baixo e teclados, Dave Grohl (Foo Fighters) na bateria e Josh Homme (Queens of the Stone Age) na guitarra e vocais. Com Josh Homme no front, o som ganha contornos de Queens of the Stone Age em alguns momentos, mas fica claro que é John Paul Jones o mentor intelectual da coisa toda. “No one loves me & neighter do i” abre o CD com cara de Led Zeppelin, mas envereda para outros caminhos, procurando fugir da mítica banda setentista. Já “Elephants” inicia com um riff matador e uma levada funky, dando início a uma caótica sequência de quebras de tempo, mas se perde no meio do caminho, se alongando em refrões arrastados e desperdiçando o riff e o groove proposto no início. Fica claro que ainda é uma banda em formação, experimentando dinâmicas diferentes ao seu som ― e tateando uma linguagem própria. Mas o resultado é promissor.

A discussão sobre as “superbandas”, contudo, não se refere só ao material trazido nos CDs. Entra no território dos negócios e da indústria da música, que, queiram ou não, continua em mutação. Essas novas bandas apostaram na autodivulgação e na força da internet para “acontecer” de verdade. E aconteceram. Não para o mainstream, mas para o público que procura novidades na música e a consome como arte ― e não como papel higiênico (o trocadilho me escapou). Através de newsletters, perfis no Twitter, lançando vídeos e teasers em seus sites ou em canais oficiais no YouTube, os “seguidores” puderam acompanhar tudo sobre as bandas e saber detalhes das gravações e outras curiosidades ― sem jornalistas, sem assessorias, sem intermediários. E o que antes era considerado “pirataria” pelas gravadoras, agora é incentivado por essas bandas, que permitem fãs gravarem e distribuírem bootlegs dos shows pela internet. Nada como ver uma banda decidindo o que quer fazer, artistica e comercialmente, sem se submeter às idiossincrassias de quem não pensa em outra coisa a não ser vender, vender.

Claro que nem tudo no rock andou nessa direção. Na contramão, o Kiss lançou Sonic boom, um amontoado de clichês que tenta ― sem sucesso ― remontar a atmosfera (e a indústria) dos anos 70. Destoando do restante do repertório, “Modern day delilah” é um lampejo, mas não salva o conjunto da obra, que é mesmo uma bomba. Além de serem tempos que não voltam mais, revela aquilo que o Kiss Army reluta em reconhecer: a banda se tornou um pastiche de rock setentista e vive de arrancar dinheiro dos fãs. E Gene $immons (que eu já tinha classificado como “Tio Patinhas roqueiro”, mas que agora está mais para “Suzana Vieira do rock’n’roll”), além de investir pesado em seu marketing sexual e de protagonizar cenas patéticas em seus reality shows, fica como um emblemático exemplo de quem não soube envelhecer com dignidade.

Tanto o Chickenfoot quanto o Crooked Vultures acertaram não só na autodivulgação, mas também no método de gravação dos álbuns. Indo contra toda a pressa, a preguiça e a presunção da “indústria do hype” (patrocinada por indies e emos), eles não economizaram em tempo de ensaios e na produção caprichada, lapidando suas obras à exaustão. A concepção foi feita à moda antiga ― a divulgação é que apostou no novo e indicou outros caminhos, rejuvenescendo conceitos e paradigmas para a decadente indústria fonográfica. Os amantes do bom e velho (ou seria novo?) rock’n’roll voltaram a sorrir, mas a discussão não está totalmente fechada. Se os integrantes das “superbandas” já eram todos consagrados (muito antes delas existirem), o que os neófitos no ramo podem esperar? De qualquer maneira, o exemplo está dado e deve ser seguido.

Alice in Chains: acorrentados a Layne Staley
Entre todos os lançamentos do ano no rock, a volta do Alice in Chains certamente foi um dos destaques. O projeto tinha tudo para colocá-los entre a turma dos necrófilos e se tornar mais um projeto caça-níqueis de uma banda natimorta, mas o guitarrista Jerry Cantrell soube comandar a volta de maneira vigorosa e surpreendente, sem perder todos os atributos que a banda sempre teve.

Formado em 1987, o Alice in Chains logo se juntou à cena underground de Seattle, que explodiria nos início dos anos 90. O álbum de estréia, Facelift (1990) trazia um som pesado e a urgência de romper com o metal festivo (e caricato) dos anos 80. Trazendo um dos maiores h
its logo de cara (“Man in the box”), já era perceptível como funcionava a química da banda. A guitarra distorcida, virtuosa e cheia de climas e texturas de Cantrell combinava perfeitamente com os vocais urrados e as letras depressivas de Layne Staley.

Desde o início, Staley já expunha uma personalidade perturbada e autodestrutiva, mas seu sofrimento começou bem antes disso. Aos sete anos, a separação de seus pais e os rumores de que seu pai tinha morrido serviram de gatilho para uma vida cheia de batalhas contra si mesmo. Na adolescência considerou que, se fosse parte de uma banda famosa, poderia reencontrar seu pai. Felizmente, sua banda ficou famosa ― e, infelizmente, ele reencontrou seu pai… Ali ele descobriria a origem de toda a sua dor: seu pai fora expulso de casa por ser viciado em heroína ― droga que causava repulsa em Layne Staley, e da qual ele próprio já era prisioneiro. Ao ver o pai, Staley viu sua autoimagem através de um espelho estilhaçado. Todo aquele ódio a si mesmo estava finalmente explicado.

Depois do multiplatinado Dirt (1992) e do EP Jar of Flies (1994), as turnês rarearam e o vício de Staley era cada vez mais evidente. Numa de suas últimas aparições, no disco Unplugged (1996), Staley já apresentava uma aparência cadavérica. Após isso, decidiu se autoexilar em seu condomínio e sucumbiu de vez às drogas, rastejando para uma morte lenta de dolorosa, até ser fulminado por uma dose letal de “speadball” (combinação de heroína e cocaína) em 5 de abril de 2002 ― exatos oito anos depois de Kurt Cobain.

Com a morte de Layne Staley, os membros remanescentes decidiram não continuar com o Alice in Chains. Jerry Cantrell, que já tinha lançado um álbum solo em 1998 (o ótimo Boggy Depot), dedicou seu álbum seguinte (Degradation Trip) ao amigo, lançado dois meses após sua morte. Quando a banda finalmente decide voltar, em 2006, fica claro que tudo dependia exclusivamente de Jerry Cantrell para funcionar ― ele seria para o Alice in Chains mais ou menos o que Mark Knopfler fora para o Dire Straits. Nos anos derradeiros da banda, ainda nos anos 90, Staley já tinha lhe passando o bastão. Era hora de pegá-lo e seguir adiante.

Assim, com William DuVall dividindo os vocais com o guitarrista, o álbum Black gives way to blue trouxe o nome Alice in Chains de volta à vida. “All secrets known” abre o tracklist trazendo todas as credenciais da banda, seguida pelo single “Check my brain”. Em “Last of my kind”, William DuVall tem mais liberdade para impor seu estilo vocal (que se assemelha ao de seu antecessor). O peso titânico de “A looking in view” mostra um Jerry Cantrell em grande forma, com refrão inspirado, notas graves e um timbre mortífero. “Lesson learned” e “Take her out” soam como um pós-grunge e a faixa-título, que encerra o CD, traz participação especial de Elton John.

Se Staley já não estava mais lá para participar do processo criativo, sua alma está por todo o disco. “Your decision” é o melhor exemplo disso e ainda remonta o lado acústico da banda, que dialoga com o elétrico. Se em Degradation Trip Cantrell não teve tempo de refletir sobre a morte do amigo, Black gives way to blue fica como um digno obituário de Layne Staley, mostrando que sua tragédia pôde ser finalmente digerida. E, coincidência ou não, esse clima de velório se encaixou perfeitamente no som do Alice in Chains.

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