2010 com chave de ouro

Se 2011 chegou tirando onda com a minha cara, 2010 foi um ano cheio de coisinhas bacanas e com um fecho em grande estilo. Na véspera de feriado, recém-chegado a Natal, arrastei-me do alto de minha preguiça para o Praia Shopping para rever minha amiga Khrystal. Falar bem dela é chover no seco e no molhado. Pra variar, um showzaço.

Não há grandes novidades em relação a outras apresentações e nem é isso que queria comentar. Estiveram lá no Praia os elementos de sempre: um repertório muito bem selecionado (com um dedo do enciclopédico Zé Dias), uma banda tão azeitada quanto espaguete italiano e até a presença indefectível de Tertuliano Aires pastorando tudo, no pé do palco.

Encontrar com Cabrito, heterônimo de Tertuliano, me fez lembrar de quando conheci Khrystal, com o violão debaixo do braço, tocando para uns poucos e loucos freqüentadores do Abech Pub, nome simpático pro boteco de Pedrinho Abech, no Beco da Lama. Na sincera: talento havia, mas ainda precisava melhorar muito.

De lá para cá, foi só o que a moça fez: melhorar. A voz ficou ainda mais khrystalina, segura e tanto faz o palco ter três palmos de altura ou dois metros, ela fica à vontade para botar a platéia na palma da mão como todo bom crooner, se é que há um feminino pra o termo.

O mais bacana é Khrystal insistir em ficar por Natal, o que não a impediu de tocar em quase todos os estados do Nordeste, além de Rio, São Paulo e até os estúdios da rede Globo (por sinal, fiquei sabendo ontem que o DVD do Som Brasil em homenagem a Alceu Valença, com a participação dela, está à venda. Se você, como eu, acha o horário do programa o mais ingrato da grade televisiva interplanetária, compre).

Não bastasse isso tudo, Khrystal fez questão de fechar o ano para mim com chave de ouro: lascou duas seguidas de Elino Julião, um cara que realmente faz falta para o Rio Grande do Norte, e sapecou uma frase já adotada como lema pessoal para 2011. Atacando a homofobia e o falatório sobre a vida alheia, a moça foi certeira: ‘Vamos tirar a língua do rabo dos outros!’

***

No final do show, Zé Dias, plenipotenciário administrador da carreira de sua musa, subiu ao palco para fazer um discurso, pra variar, inflamado. Defendeu a prefeita Micarla da constrangedora vaia ofertada pelo público durante o Auto de Natal, no Machadão. Segundo Dias, injusta. A prefeitura estaria fazendo, nas palavras do produtor, uma grande comemoração natalina e a autoridade merecia respeito no momento.

Concordo e discordo. Acho vaia feio. Pra mim, só vale em jogo de futebol. Comparo uma vaia a um comentário desaforado e anônimo num blog. Quer falar mal, diz na cara, não vale se esconder na multidão. Todo mundo vai pro festão promovido pela prefeitura, de graça, para chegar lá e fazer isso? É meio hipócrita. Se for assim, fica em casa, como faço há uns três Autos.

Por outro, nada mais natural que a prefeitura faça uma boa programação de Natal. O esperado seria que as coisas avançassem em relação à gestão anterior, já que até caranguejo deixou de andar pra trás e agora é só de ladinho – pena que o avanço se resuma a isso. Talvez esteja aí o motivo do descontentamento da população.

Ironia das ironias, no dia seguinte Khrystal, ouvi dizer, fez um show de Ano Novo bastante prejudicado pela péssima qualidade do som na Praia do Meio. Promovido por quem?
Aliás, qualquer dia desses Zé toma de Gilberto Cabral o título de maior trombonista da cidade.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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