2011- Um ano de cinzas e grandes perdas culturais

“ tempo-será tudo bem o ano está findado. Separei , o caso está terminado, inútil esquecer que tudo passa”. JM

Meus amigos e amigos,

Eu não vim aqui prestar contas de inúmeros erros e alguns poucos acertos. O ano que começou pegando fogo no Sebo Cata Livros de Jácio (foto – de óculos) e Vera tenta ressurgir das cinzas. Uma perda bibliográfica e cultural inestimável. Ano que de tão fatídico quer recomeçar. Nada é tão ruim que não possa piorar, é uma das Leis de Murphy. Ainda perdemos grandes fazedores da nossa cultura. Lamento a morte do colega professor de química e escritor Bartolomeu Correia de Melo. Do amigo e poeta Bianor Paulino. E do grande Roosevelt Pimenta, na dança.

Doentemente inoculado pelo vírus das noses pequeno do norte esperança, continuamos escrevendo e jogando garrafas virtuais no grande oceano internáutico – muitas vezes frio e falso. Não sabemos onde pode chegar cada palavra jogada nesse mar sem fronteiras. Recebemos retorno de um cantão da Suíça, da França, da Universidade de Coimbra e de alguns colegas no interior do nosso elefante geográfico.

Igual uma sabiá não sabemos onde irá repousar o canto seco ou molhado. Tropecei muitas vezes nas palavras que mais uma vez tento arrancar do fundo do ser tão potiguar e universal. Comemoramos mais uma vez em grande estilo o Bloomsday nas suas bodas de prata. O “Quixote com Rosas” continua sendo comemorado e no próximo ano faremos uma grande festa do primeiro decênio. Fomos duas vezes a Canudos, lançamos livro e ministramos palestra. Escrevi uma centena de artigos e cometi alguns poemas. Inútil desejar tudo bom. “Ninguém é perfeito” repetiu Billy Wilder.

No nosso pequeno e tão pouco representativo estado da federação grandes políticos e empresários são presos. Uma pequena mudança de comportamento num estado provinciano e pré-coronelista. As oligarquias continuam dominando o estado entregue às moscas e pessimamente administrado. O ensino ruim e ainda por cima as greves na educação estouraram. A professora Amanda foi noticia nacional com o seu discurso-denúncia de um salário de três dígitos. Discurso que não pode cair no esquecimento e precisa ecoar.

Criminosamente são demolidos o machadinho e machadão de um estado pobre e sem bibliotecas. As ruas congestionadas e esburacadas. A cultura ao deus-dará. Voltaire, em outros tempos menos triste, denunciou o otimismo de Leibniz. E eu então pergunto : Como ser otimista em tempos tão sombrios?

Aqui dentro desses tantos anos / Te contemplo Machadão / Nas frestas da memória / No branco traçado do gramado / Armado concreto hoje no chão
Em cada silencio um grito / Em cada palavra um não / Da esquina eu ouvia / na cidade onde morro / no chão amado concreto.

Fazendo um parêntese. Grupos existem aqui e alhures. Nas academias e grêmios literários. Alguns se consideram partes de uma pequena máfia. Juntam-se e se auto-proclamam pertencentes a uma escola que nunca existiu. De um apogeu ou belle – époque tupiniquim que faz rir. Tomam café juntos e fazem intrigas. Reclamam dos livros que ninguém leu e trazem para respirar na internet. Quando lembram de um passado bolorento dizem fazer parte de uma antologia da sociedade dos poetas mortos da esquina virtual. Fecho parêntese.

Meu tempo é hoje. Citando novamente Cartola, eu fiz o que pude. Não peço desculpas a ninguém. Errei como qualquer um. Tropecei muitas vezes nas palavras e no mais recôndito que elas escondem. Mais, ainda, tropecei na emoção. Recebo o novo ano de braços abertos.

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