2666, romance e civilização

No último Rascunho tem um texto do colunista Luiz Braz (Crítica é cara ou coroa), onde ele diz o seguinte: “Ao elogiar ou condenar um livro, o crítico não está dizendo aos seus leitores o que o livro é. Ele não está revelando sua essência oculta, simplesmente porque não há essência oculta a ser revelada, nunca há. O crítico está, na verdade, defendendo o tipo de civilização que o livro propõe”.

O texto ainda não está na edição online do jornal, por isso não adianta linkar. O autor cita livros de Clarice e Rosa, entre outros, que foram elogiados e condenados por importantes críticos, como Antonio Candido e Álvaro Lins. Eu achei o argumento de Braz engenhoso. Embora ache que nem toda obra literária se encaixe no que ele defende.

O artigo do colunista do Rascunho teve uma ressonância maior em mim porque enfrento dificuldades em prosseguir com a leitura de 2666, de Roberto Bolaño. E estou tentando descobrir que tipo de civilização o livro propõe que eu não dou conta. Por isso, o estranhamento.

Situação mais complicada porque gostei de outros três livros do escritor chileno, Noturno do Chile, Amuleto e Os Detetives Selvagens, este último o melhor dos três e o que se aproxima mais de 2666. Não é possível que eu tenha mudado tanto em cerca de um ano, tempo entre uma leitura e outra, que agora não reconheça em 2666 a linguagem que me fascinou em Os Detetives.

A recepção de uma obra de arte é algo extremamente complexo e as teorias e os gênios não dão conta de explicar de forma definitiva. Ainda bem que é assim, senão seria muito tedioso todo mundo se curvar à sapiência do oráculo, levando livros ao céu ou ao inferno. Aliás, não sei quem são mais chatos, se esses gênios ou essas teorias.

No último final de semana eu encontrei com Nelson Patriota e comentei que minha leitura de 2666 não estava andando. Havia empacado na primeira parte intitulada A Parte dos Críticos (são cinco partes). Ele, então, disse-me que abandonou o livro por volta da página 300 (tem 852 páginas).

Belchior Vasconcelos, que me emprestou 2666, foi até o fim e o achou “mais ou menos”, depois ele mesmo pode nos oferecer suas impressões. São dois leitores que eu respeito muito.

Depois que conversei com Nelson, respirei mais aliviado porque tinha acabado de encontrar um leitor que também não estava satisfeito. Diminuiu mais minha culpa porque esse livro de Bolaño foi incensado por todos. Eu procurei no Google uma crítica negativa, um senão que fosse ao livro e não encontrei.

Alguns críticos (aqui) comparam o chileno ao “irlandês James Joyce, o francês Marcel Proust, o austríaco Robert Musil, o americano Thomas Pynchon”. Outro escreveu: “o que Bolaño perseguiu e alcançou foi o romance total, colocando o autor de 2666 no mesmo time de Cervantes, Sterne, Melville, Proust, Musil e Pynchon.”  E por aí vai.

Por isso, fiquei até receoso em comentar o assunto aqui.

A impressão que tenho é que aquilo que me enjoou foi o que provocou a alegria dos críticos. Uma fabulação excessiva, beirando a inverossimilhança, provocando certo descolamento entre conteúdo e linguagem. Como se o autor quisesse mostrar que sabe tudo e pode fazer tudo literariamente. Para mim, resultou em algo meio artificial, maneirista.

E antes que os bolañetes sintam-se ultrajados por esses comentários, peço que relevem , lembrem que li e gostei de outras obras do autor, e que se brincar o problema não é bem o livro, mas o tipo de leitor que eu sou, um incivilizado. (TC)

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