3 poemas de Márcio Dantas

NÎMES

1. A arte de morrer

Também assim se morre,
ouvindo as cigarras tisnando o dia,
no quarto, antes de dormir.

Também ao querer fruir,
memorizando paisagens,
emoldurando pensamentos,
no trajeto de uma viagem.

Também por querer o repouso
do corpo fatigado de dias intermináveis
e frios, atrás de portas e janelas travadas,
para evitar o barulho dos automóveis.

Também assim se morre: vivendo.

31.08.1998

2. O templo de Diana

Esta é a ermida da palavra.
Os verbos ainda escorrem das pedras,
ressoando sentidos
nas frestas e nos nichos.
Os substantivos permanecem,
tisnando seu sumo no assoalho gasto.

A palavra tombou numa eternidade
de esquisita calma e aceite de transcender
as idades e os costumes,
de se permitir ser fantasma,
aguardando eventuais poetas com olhos de pauta.

Estas colunas e arcos
resguardam um arcano,
uma presença do simples
para os que também habitam
os interstícios das palavras.

31.08.1998

**********

AS SEREIAS

O que de mundos houver,
com seus mananciais de arcanos,
formas, idéias e símbolos,
ofertamos sem recato, sem parcimônia,
as chaves para a franca entrada
nas sendas dos tantos regatos de significantes.

O que de mundos houver,
chafurdaremos nas pelágicas regiões,
onde nunca chega a luz, o saber, a consciência
que arruma, contorna, figura,
ordenando o apresentado como caos.
Ofertamos tão somente a luminância da razão.

02.04.2010

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 14 de abril de 2010 9:43

    Somente hoje pude ler os teus poemas.Não é preciso dizer, gostei muito.Abraços.

  2. Gustavo de Castro 13 de abril de 2010 21:20

    Belos poemas. Gosto muito da palavra “tisnando” que aparece em dois deles, acho. O final do primeiro poema é uma bela inversão. Lembrou Heráclito. Não conheço o Márcio Dantas, mas já sou fã dele. Deve ser muito erudito e cultivar a palavra como uma verdade ou um bem supremo. A primeira estrofe, do primeiro poema, “Também assim se morre, / ouvindo as cigarras / tisnando o dia, / no quarto, antes de dormir” tem o punho da força calma, mas também tem a fúria da desilução e o ardor do nada. Poemas como esses funcionam como chuvas de sentidos: “regatos de significantes”; “luminâncias”; “chaves”; “arcanos” e “mananciais”. Sem poemas assim seríamos mais pobres.

  3. Carmen Vasconcelos 13 de abril de 2010 21:14

    Que alento e delícia ler esses poemas de Márcio Dantas. Gosto muito, muito mesmo, do que ele escreve.

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