3 textos publicados no The New York Times

O buraco negro da Coreia do Norte
Por Dwight Garner

Os computadores são raros na Coreia do Norte, e para a maioria de seus cidadãos a internet é pouco mais que um comentário sussurrado. Na verdade, é provável que apenas uma pessoa na Coreia do Norte surfe na web sem ser monitorado: Kim Jong-il, o líder supremo do regime autoritário.

Quando ele está on-line, e não concentrado nos sites ligados a suas obsessões (filmes, comidas finas, mulheres, armas nucleares), Kim às vezes deve ver o que seu país parece ao resto do mundo, nas assombrosas fotografias de satélite do Extremo Oriente à noite.
Você provavelmente já as viu. Os países próximos da Coreia do Norte -Japão, Coreia do Sul, China- brilham com luzes condensadas, fervilham de civilização. Mas a Coreia do Norte, que abriga cerca de 23 milhões de pessoas, é um buraco negro, um oceano de escuridão. Barbara Demick, correspondente do jornal “Los Angeles Times”, começa seu excelente novo livro, “Nothing to Envy: Ordinary Lives in North Korea” (Nada a invejar: vidas comuns na Coreia do Norte), debruçando-se sobre essas imagens de satélite. Fica chocada e comovida. “A Coreia do Norte não é subdesenvolvida”, observa. “É um país que caiu do mundo desenvolvido.”
“Nothing to Envy” é 1 dos 3 novos livros provocativos sobre o país. Os outros são “The Hidden People of North Korea” (A população oculta da Coreia do Norte), de Ralph Hassig e Kongdan Oh, e “The Cleanest Race” (A raça mais limpa), de B. R. Myers.

A Coreia do Norte não é um país fácil de se observar. E se temos dificuldades para ver com clareza os norte-coreanos, eles simplesmente não podem ver o Ocidente. O uso do telefone é restrito. O serviço postal é inconfiável. Praticamente não existe correio eletrônico. Televisores e rádios só recebem os canais aprovados. Os cidadãos são alimentados à força com uma dieta constante e anestesiante de propaganda estatal, dedicada a manter o culto da personalidade de Kim Jong-il e a atacar tudo o que é americano.
O livro de Demick acompanha a vida de seis norte-coreanos comuns, incluindo uma médica, dois namorados em conflito, um operário de fábrica e um órfão.

As pessoas que Demick observa viveram, antes de desertar, no nordeste da Coreia do Norte, longe da arrumada capital do país, Pyongyang. As vidas que ela descreve parecem brutais: muitas vezes não há comida suficiente; os cidadãos trabalham longos turnos que podem ser seguidos de horas de treinamento ideológico à noite; um comentário antipatriótico, especialmente uma piada sobre Kim, pode mandar uma pessoa para o gulag pelo resto da vida, isso se ela não for executada.

Já o livro de Hassig e Oh se baseia em mais de 200 entrevistas com desertores e pinta uma imagem de uma população inquieta, cada vez mais desconfiada da propaganda oficial. “Seria um grande exagero dizer que a população apoia Kim Jong-il”, eles escrevem. “[Mas] ela não pensa em se opor a ele.” Os norte-coreanos estão ocupados demais tentando sobreviver para pensar em outras coisas.

O retrato de Hassig e Oh do estilo de vida indulgente de Kim é minucioso e devastador. Ele pode parecer um homem do povo, eles escrevem, com suas calças marrons, jaquetas de zíper e corpo mirrado. Mas eles relatam sua obsessão por equipamentos eletrônicos, as “equipes de prazer” de garotas que mantém à mão, os vinhos de Bordeaux que importa. Enquanto muitos de seus governados passam fome, eles escrevem, Kim “é um tal connoisseur que, segundo seu ex-cozinheiro, cada grão de arroz destinado a sua mesa é inspecionado”.

Myers, autor de “The Cleanest Race”, que aborda como os norte-coreanos veem a si próprios, é editor-colaborador da revista “The Atlantic” e dirige o Departamento de Estudos Internacionais da Universidade Dongseo, na Coreia do Sul.

Seu novo livro, muitas vezes difícil, tenta fazer um perfil psicológico de Kim Jong-il e seu regime. Ele explica que a visão de mundo predominante na Coreia do Norte é “muito distante” do comunismo, do confucionismo e das ideologias “de vitrine” oficiais que os ocidentais analisam. Em vez disso, ele afirma, essa visão de mundo “pode ser resumida a uma única certeza: a população coreana é puro-sangue, e portanto virtuosa demais para sobreviver neste mundo maligno sem um grande líder paternal”. Sua Coreia do Norte é guiada por um “nacionalismo paranoico, baseado na raça”.

Kim Jong-il teria sofrido um infarto em 2008 e parecia frágil em suas recentes aparições, cada vez mais raras. Enquanto o mundo especula sobre seu sucessor, que quase certamente será um de seus filhos, uma das lições desses livros é para não afastarmos nossos olhares da vida limitada do norte-coreano médio. “O regime de Kim essencialmente mantém sua população refém”, escrevem Hassig e Oh, e eles se decepcionam ao notar que “os EUA estão muito mais interessados nas armas de destruição em massa [do país] do que no destino de seus reféns”.

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Modo de inovação da Apple valoriza o autor

Quanto mais, melhor. Essa é a receita mais usada para se alimentar novas ideias hoje em dia. Ela enfatiza uma espécie de igualitarismo da era da internet que comemora a “sabedoria da multidão” e a “inovação aberta”. Junte todas as contribuições que encontrar na caixa de sugestões digital e o resultado será a inteligência coletiva, dizem livros e pesquisas acadêmicas.

Mas a Apple, fábrica de criatividade meticulosamente construída por Steve Jobs desde que ele voltou à empresa, em 1997, sugere outra fórmula de inovação, mais elitista e individual.

Essa abordagem se reflete no último gadget da empresa, com potencial para mudar o jogo, o recém-lançado “tablet” (ou prancheta) iPad. Ele poderá fazer sucesso ou tropeçar, mas claramente contém o gosto e a perspectiva de Jobs e parece marcado pelo antigo lema de marketing da empresa: “Pense diferente”.

A Apple representa o “modelo de inovação”, observa John Kao, consultor de inovações para corporações e governos. No modelo de autor, ele disse, existe uma forte conexão entre a personalidade do líder do projeto e o que é criado. Filmes de diretores poderosos, ele disse, são claros exemplos disso, de “Um Corpo que Cai”, de Alfred Hitchcock, a “Avatar”, de James Cameron.

Na Apple há um elo semelhante entre o líder máximo da equipe de design, Jobs, e os produtos. De computadores a “smartphones”, os produtos da Apple são conhecidos por serem estilizados, poderosos e agradáveis de usar. São produtos editados que superam a complexidade, ao conscientemente deixar coisas de fora -não colocar todas as funções que passaram pela cabeça do engenheiro, uma mazela conhecida como “funcionite”, que sobrecarrega tantos produtos tecnológicos. “Uma qualidade definidora da Apple tem sido a contenção do design”, diz o consultor Paul Saffo.

Essa contenção é evidente no gosto pessoal de Jobs. Seu suéter preto de gola rulê, jeans sem cinto e tênis de corrida são um visual-assinatura. Em sua casa em Palo Alto, Califórnia, anos atrás, ele disse que preferia interiores sem muita coisa, livres, e então explicou o elegante artesanato das simples cadeiras de madeira em sua sala, feitas pelo designer de móveis George Nakashima.
Os grandes produtos, segundo Jobs, são vitórias do “gosto”. E o gosto, ele explica, é um subproduto do estudo, da observação e de embeber-se da cultura do passado e do presente, de “tentar se expor às melhores coisas que os seres humanos fizeram”.
Sua filosofia de design não é dirigida por comitês ou determinada pela pesquisa de mercado. A fórmula Jobs, segundo seus colegas, depende muito de tenacidade, paciência, fé e instinto. Ele se envolve profundamente nas opções de design de hardware e software, que aguardam sua aprovação pessoal. É claro que Jobs é membro de uma grande equipe na Apple, mesmo que seja o líder. De fato, ele muitas vezes descreveu seu papel como um líder de equipe. Ao escolher os membros-chave de sua equipe, ele procura o fator multiplicador da excelência.

Os designers, engenheiros e gerentes que se destacam, ele diz, não são apenas 10%, 20% ou 30% melhores que os apenas bons, mas dez vezes melhores. Suas contribuições, ele acrescenta, são a matéria-prima dos produtos “aha”, que fazem os usuários repensar suas ideias sobre, por exemplo, um tocador de música ou um telefone celular.

“A verdadeira inovação na tecnologia envolve um salto à frente, antecipando necessidades que ninguém sabia que tinha, e então oferecendo capacidades que redefinem as categorias de produtos”, disse David B. Yoffie, professor da Escola de Economia de Harvard. “Foi o que Steve Jobs fez.”

O momento certo é essencial para dar esses grandes saltos à frente. Carver Mead, cientista da computação do Instituto de Tecnologia da Califórnia, disse certa vez: “Escutem a tecnologia; descubram o que ela está dizendo”.

Jobs é inegavelmente um marqueteiro e um showman talentoso, mas também é um hábil ouvinte da tecnologia.

Ele chama isso de “identificar vetores na tecnologia ao longo do tempo”, julgar quando uma inovação intrigante está pronta para o mercado. O progresso técnico, os preços acessíveis e a demanda do consumidor se combinam para produzir um artigo de sucesso.
Na verdade, os designers e engenheiros da Apple vêm trabalhando no iPad há anos, apresentando periodicamente protótipos a Jobs. Nenhum foi aprovado até recentemente.

A aposta no iPad poderá ser uma perda para a Apple. Alguns céticos o veem ocupando um terreno indefinido entre um iPod e um notebook, e também é um brinquedo caro, de US$ 499 a US$ 829. Lembrem-se, porém, de que quando o iPod foi lançado, em 2001, os críticos brincaram que o nome era uma sigla de “idiots price our devices” (algo como “idiotas nos vendem equipamentos caros”). E sabemos quem riu por último então.

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O custo da informação gratuita

A era digital oferece um fluxo contínuo de novos e maravilhosos gadgets e um universo crescente de ideias, entretenimento e opiniões, a maioria acessível gratuitamente na internet.

O que há de errado nisso?

Muita coisa, se acreditarmos em algumas poucas, rabugentas mas expressivas vozes do contra.

A perspectiva de perder suas carreiras certamente não leva os jornalistas da mídia impressa a adorar a revolução digital. Como os leitores se acostumaram a encontrar conteúdos gratuitos na internet, a receita de circulação e anúncios da maioria dos jornais e revistas caiu vertiginosamente. A mídia antiga se esforça para adaptar-se a um ambiente em transformação, mas ainda não surgiu nenhuma solução evidente. Algumas publicações creem que e-readers, como o Kindle, da Amazon, e o novo iPad, da Apple, possam representar um veículo novo e possivelmente lucrativo para seus conteúdos.

Falando de Steve Jobs, executivo-chefe da Apple, uma fonte bem informada sugeriu ao “New York Times” que pelo menos um líder das novas mídias não quer apressar a morte das publicações tradicionais: “Steve acredita no valor da mídia antiga. Ele acha que a democracia depende da presença de uma imprensa livre, e esta depende da existência de uma imprensa profissional”.

Enquanto isso, algumas dessas empresas, incluindo a New York Times, buscam maneiras de cobrar por seus conteúdos na internet sem afastar leitores.

Mas o exemplo dado por um jornal da região de Nova York não é animador. Desde outubro, o “Newsday”, de Long Island, passou a cobrar de seus leitores US$ 5 por semana para terem acesso pleno a seus conteúdos. Até 26 de janeiro, apenas 35 pessoas tinham feito a assinatura (embora os assinantes do jornal, cerca de 400 mil, naveguem livremente pelo site).

Mesmo defensores da web em seus primórdios agora questionam o rumo que ela vem seguindo. Um exemplo é Jaron Lanier, pioneiro cientista da computação que hoje lança avisos sobre o “pensamento de colmeia” e o “maoísmo digital” que estariam tomando conta da web, relatou o “Times”. Em seu livro “You Are Not a Gadget”, Lanier escreve que “escritores, jornalistas, músicos e artistas são incentivados a tratar os frutos de seus intelectos como fragmentos a serem dados gratuitamente à mente colmeia”.

Outro grupo cético, o dos músicos, também tem se manifestado contra os avanços; alguns o fazem, apegando-se ao som mais caloroso de artefatos analógicos, como discos de vinil e fitas magnéticas. Quanto ao MP3, ele pode ser prático, mas muitos questionam a qualidade de seu som e os efeitos de longo prazo dos downloads musicais fáceis ou gratuitos.

“Diria que este é o pior momento para relacionar-se com as pessoas por meio da música”, disse ao “Times” Jack White, do The White Stripes. “A geração de hoje se acha no direito de muita coisa. Ela não compra o CD, mas o descarrega e o dá de presente a seus amigos.” Ou, como disse o músico Neil Young, “a Apple converteu a música em papel de parede”.

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