“Agosto das Letras”

tai Sergio e Tácito, um texto interessantíssimo do Lau sobre o “Agosto

das Letras”, evento que acabou de acontecer lá em João Pessoa, e que

estabeleceu um rico embate, mostra com escritores das várias regiões

do Brasil. Lá estive lançando meu “Dramática Gramática”. E minha

apresentação, oportunamente o Milton Dornellas, presidente da Funjope,

um carioca/paraibano, humaníssima figura, assim me confidenciou, me

confirmará. O Lau, estará entre nós, dia 10 de setembro, lançando seu

“Poesia Sem Pele”, lá no “Nalva Café Salão”. Oportunidade, também,

que ele deseja, de estabelecer um diálogo com os poetas da terra.

abs

Cgurgel

ANTES QUE AGOSTO ACABE

Por Lau Siqueira

Os eventos de literatura têm proliferado pelo Brasil afora, talvez,

como em nenhum outro momento da história. Até mesmo pequenos

municípios brasileiros começam a ganhar destaque nacional por conta

dos seus eventos literários. Se é bom que assim seja, não temos

dúvidas. Mas que isso pode melhorar é a nossa melhor certeza. Um dos

maiores desafios é fazer com que esses eventos deixem de ser meros

encontros de escritores e de meia dúzia de apaixonados leitores,

geralmente, movidos por razões mais midiáticas que propriamente

literárias. Aqui em João Pessoa não é diferente. O Agosto das Letras

entrou na programação cultural da cidade em 2006, deixando de

acontecer em 2008 e retornando em 2009, 2010 e 2011, com um formato

mais denso, mas ainda assim com os problemas comuns a maioria dos

eventos literários espalhados pelo país.

No interior do Rio Grande do Sul, provavelmente, esteja sendo

realizado o mais importante evento de literatura do país. A Jornada

Literária de Passo Fundo não deixa de ser um grande encontro de

escritores, mas, sobretudo, passou a ser uma importante política

pública de formação de leitores. Os autores convidados são estudados

nas escolas no ano anterior e quando chegam ao evento para os diálogos

propostos têm a certeza de terem sido lidos por grande parte da

platéia. Este é um dos aspéctos que diferencia a Jornada Literária de

Passo Fundo até mesmo dos demais grandes eventos literários, como a

Feira do Livro de Porto Alegre, os Salões do Livro e Bienais que se

espalham pelo país como modelo de incentivo ao mercado do livro. No

entanto devemos ter claro que os interesses do mercado do livro

geralmente estão distantes dos interesses da literatura. Portanto, a

despeito dos grandes investimentos das Feiras, Salões e Bienais,

fiquemos com o que interessa entre o joio dos trigais e as águas

profundas da imaginação.

Os eventos literários (e o Agosto das Letras não escapa disso) têm

seguido um modelo que contribui de forma bastante acentuada para as

trocas necessárias entre os escritores de norte à sul do país.

Portanto, o Agoto das Letras não é um evento que esteja,

definitivamente, rendido aos interesses não muito inocentes do mercado

do livro, como as frias Bienais, Salões e Feiras de Livro espalhadas

pelo país. Também não quero dizer que esses eventos não são

necessários, mas é preciso que se compreenda que os interesses de um e

de outro são distintos. O Agosto das Letras é um evento que prima pela

qualidade das suas escolhas, aprimora cada vez mais a troca de

experiências entre as políticas de fomento da literatura,

principalmente, no meio alternativo. Traz provocações importantes para

o centro da cena, mas como o FestPoa Literária (que é um evento

privado), os Encontros de Interrogação do Itaú Cultural (que também é

privado) o Festival Literário de Recife (que é do poder público),

ainda não se revela com um instrumento de pollítica pública capaz de

estreitar a relação entre o público leitor e o autor ou a autora.

Nomes da mais alta relevância da literatura brasileira contemporânea

já passaram pelo Agosto das Letras. Sejam eles paraibanos ou de outros

estados. Uma das melhores revelações do evento foi ter confirmado a

literatura paraibana como uma das mais importantes do país. Também é

preciso reconhecermos que apontaram por aqui projetos editoriais

importantes como o Dulcinéia Catadora e, neste último Agosto, os

projetos Cidade Poema e Instante Estante. Não se pode dizer,

absolutamente, que nada valeu a pena. Muito pelo contrário, estamos

construindo uma história. Aliás, o discurso da “terra arrasada” é a

parte que ficará, certamente, para os jaburus da disputa política que

querem medir forças segurando as alças da diluição cultural e da

estupidez enquanto método de disputa. Devemos estar atentos aos

oportunistas de plantão que criticam sem propor e que desdenham da

coragem que não possuem. Logicamente que os oportunistas de plantão

também deverão querer dimensionar os fatos dentro das suas correntes

de interesses (e haja bocão!).

Por isso tudo, antes que o mês de agosto de 2011 acabe, devemos

começar a discutir o próximo Agosto das Letras. Certamente com uma

proposta de ampliação das suas articulações, com a política das

bibliotecas, das editoras existentes no município, com as secretarias

de educação do município e do estado, com os cursos de letras das

universidades paraibanas, com as iniciativas que vem sendo

desenvolvidas em municípíos como Nova Palmeira, Boqueirão, Cajazeiras,

Aparecida e outros. Ampliando o diálogo nordestino, a partir de

agitadores das cenas de Natal, e aí eu cito entre outros o poeta

Carlos Gurgel que por aqui esteve lançando seu livro e os companheiros

e companheiras de Pernambuco, Ceará, Sergipe e Alagoas, apenas para

citar os mais próximos.

Lembro que o evento teve um início bastante tumultuado em 2006, com

diversos pólos e quase que nenhuma repercussão. Em 2007, conseguiu

estabelecer relações com o Festival Literário de Recife, realizando

trocas efetivas com participações de autores locais e trazendo consigo

uma proposta editorial com o projeto Novos Escritos. Foram 10 autores

lançados em 2007, o que consideramos bastante significativo. Para ter

repensada a sua significação o evento deixou de acontecer em 2008, ano

eleitoral, retornando em 2009 novamente com a publicação de livros de

autores locais e uma bem articulada curadoria do poeta andré ricardo

Aguiar que se refletiu também em 2010 e 2011. No entanto, mais uma vez

faltou essa articulação maior com outros atores do campo da literatura

e do conhecimento. Até mesmo alguma coisa que cortasse a carne da

vaidade de alguns de nossos poderosos intelectuais que “acham feio o

que não é espelho”. Na pele escancarada dos dias e noites, um Sol que

não se importasse em nascer primeiro e dormir mais tarde.

Não vai aqui nenhum tipo de condenação a um evento que, tenham

certeza, foi concebido exatamente para estimular a literatura enquanto

forma de pensar o mundo que vivemos e enquanto tábua de conhecimento

para as novas gerações. Estamos propondo exatamente o contrário. Na

verdade, estabelecemos aqui uma saudável provocação para que o Fórum

de Literatura de João Pessoa, um instrumento poderoso mas que não tem

conseguido caminhar com as próprias pernas, chame para si a

responsabilidade de convocar a Fundação Cultural de João Pessoa para

discutir o evento e propor um formato que insira o Agosto das Letras

no âmbito das oficinas de leitura desenvolvidas pela própria fundação,

dialogando também com todos os agentes da cena literária local:

editores, livreiros, autores, bibliotecários, professores de

literatura, criadores de outras artes, uma vez que o evento se mostra

vocacionado ao multiculturalismo e aos anseios das políticas públicas.

Seria interessante que o Fórum de Literatura se reunisse provocando

este momento ainda no mês de agosto de 2011. É bom pensar sobre a

carne quente e ainda pulsante. Mas, esperamos que esta avaliação do V

Agosto das Letras não se configure em retaliações baratas de vaidades

e interesses feridos. Avaliar o V Agosto das Letras vai significar que

estamos buscando melhores caminhos para que o evento que já se

refenciou nacionalmente como um dos mais importantes do país, passe a

exercer boas influências, também, junto ao público das escolas

públicas, das universidades, das experiências máximas como a

Biblioteca Comunitária Cactus, como o Sebo Cultural enquanto

experiência máxima de diálogo com o autor local e outras percepções

que possamos apanhar neste campo de centeios e mandacarus, com muitas

pedras no meio do caminho.

Enfim, pro dia nascer feliz. Sigamos em frente…

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