50 anos de Deus e o Diabo na Terra do Sol

Tudo irá como como se realmente visses jogar a partida entre pessoa e pessoa, ou mais claramente, entre Deus e o Diabo.

Esaú e Jacó, Machado de Assis

Um clássico do cinema brasileiro. O segundo longa do gênio Glauber Rocha instaurava definitivamente uma estética da fome no cinema brasileiro nos passos de Nelson Pereira dos Santos com Rio 40 graus e Rio Zona Norte. Um marco do Cinema Novo e da filmografia mundial. Um filme que ousava na iluminação branca estourada sobre corpos e o chão tórrido do norte de Minas. Conta a história de um casal de sertanejos divididos entre a violência dos coronéis e o misticismo. O vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) se revolta contra a exploração imposta e leis do coronel Moraes (Mílton Roda) e acaba matando-o numa briga. Foragido com sua esposa Rosa (Yoná Magalhães), eles procuram abrigo na religião do beato Sebastião (Lídio Silva), que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo arcaico e ritual. O beato Sebastião é uma figura que tem inspiração grosseira no Antonio Conselheiro de Canudos, mata uma criança e revolta Rosa que mata o Beato. Eles serão perseguidos por Antonio das Mortes (Maurício do Valle), um matador de aluguel a serviço da Igreja, do estado e dos latifundiários da região: Aquele que cumpre a lei do governo e da bala. Antonio das Mortes extermina os seguidores do beato Sebastião e mata o cangaceiro Corisco (Othon Bastos). O casal Manuel e sua bela mulher Rosa fogem desesperadamente para o litoral.
A Obra prima de Glauber Rocha “ Deus e o diabo na terra do sol” (1963) é um dos maiores filmes da história do cinema. Uma sinfonia pastoral- mítico- rebelde. São varias as homenagens os Western e ao cinema épico do cineasta russo Eisenstein. No crime, a libertação. Pra levar: só o destino. Um sertão branco que dói. Um infinito de preces e lágrimas rochosas. Filmado em Monte Santos e Canudo é uma bela homenagem aos Sertões Euclydianos e Guimaranses. O sebastianismo e messianismo de Pedra Bonita e de Canudos é o do beato Antonio Conselheiro e surge na fala do beato Sebastião. Tiraram D. Pedro II e querem impor a república.
“Se entrega Corisco, eu não me entrego não!…”, canta a bela trilha sonora composta pelo grande Sérgio Ricardo. “O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”. Em cada rosto um universo. Um sensualismo pungente. No close entre Dadá ( mulher de Corisco) e Rosa ( mulher de Manoel) um poema que só o mestre Glauber pode tirar das pedras e de um branco que continua a nos ofuscar e desorientar nesse mundão sertão conselheiro, selvagem e mítico.

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