50 ANOS DO GOLPE – Midrash reúne biógrafos de Marighella

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Mário Magalhães e Silvio Tendler

 Por Júnia Azevedo

Como parte do ciclo de eventos “50 anos do Golpe”, o Midrash Centro Cultural reuniu dois biógrafos de Carlos Marighella (1911-69), militante considerado pela ditadura militar (1964-85) seu inimigo público número um. Mário Magalhães, autor do livro “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras, 2013) e Silvio Tendler, diretor do filme “Marighella – Retrato Falado do Guerrilheiro” (Brasil/2001), contaram detalhes sobre o processo de biografar o intrépido baiano. Militante comunista na juventude, deputado constituinte, Marighela foi o fundador do maior grupo armado de oposição à ditadura militar, a Ação Libertadora Nacional. O encontro aconteceu no dia 24 de março, após a exibição do documentário de Tendler.

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Mário Magalhães e Silvio Tendler e Renée France de Carvalho (viúva de Apolônio de Carvalho, que estava na plateia)

O cineasta iniciou o bate-papo, contando como conheceu Marighella: “Aos 19 anos, fui convidado por um amigo para um encontro com militantes. Eu era um garoto ainda, sem vínculo algum com a luta armada e totalmente desinformado. Mal conheci Marighella, mas depois desse dia, passei a ser procurado pela polícia. Só fui aprender quem era ele anos depois da sua morte, quando sua companheira, Clara Charf, me convidou para fazer um filme sobre ele”. O documentário foi lançado em 2001, ano em que o guerrilheiro, torturado e morto pela ditadura militar, completaria 90 anos.

Mário Magalhães falou sobre o processo apurado de pesquisa a que se lançou para escrever o livro, durante nove anos, com base em sua experiência como jornalista. “Entrevistei 296 pessoas; pesquisei 70 mil páginas de documentos, em sua maioria secretos; visitei 32 arquivos públicos e privados, no Brasil e no exterior; o livro tem 2580 notas sobre fontes, onde compartilho todas as informações com o leitor”, disse Mário, que atuou na Tribuna da Imprensa, O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, no qual foi repórter especial, colunista e ombudsman. Segundo ele, o rigor da pesquisa reflete sua preocupação em ser imparcial: “Meu objetivo foi apenas contar o que de fato ocorreu. A maneira como o leitor enxerga Marighella – herói ou vilão – vai depender de sua visão de mundo”.

“As convicções das pessoas são armadilhas na hora de escrever”

O jornalista contou também sobre as armadilhas encontradas ao longo da pesquisa. “Escrever sobre Marighella foi um desafio enorme, que me exigiu duas atitudes: ir contra a historiografia oficial, que tentou apagar os rastros de Marighella, e correr atrás de rastros que o próprio Marighella passou a vida toda tentando apagar. As mitologias a favor e contra Marighella são muito fortes. O anti-herói é mais fácil de identificar, o contrário, é bem mais difícil. Por exemplo, entre os companheiros, existia o mito de que ele era um exímio atirador, o que, descobri depois, ser falso. Marighella era um péssimo atirador. Ele teve uma breve experiência no Tiro de Guerra, na Bahia, e só. As convicções das pessoas são armadilhas para o biógrafo”, registrou.

Segundo Mário, outro exemplo dessa dificuldade foi a reconstituição dos fatos ocorridos na emblemática sessão da Câmara dos Deputados, de 8 de janeiro de 1948, na qual foram cassados os mandatos dos deputados do Partido Comunista do Brasil. “Um dos companheiros de Marighella afirmou: ‘Ele agiu como herói, com um discurso brilhante’. Já outro, da oposição, disse: ‘Marighella parecia um louco, um bobalhão, que subia na mesa e gritava’. Com a pesquisa, descobri que Marighella nem estava presente na sessão”, disse o autor do livro que recebeu o Prêmio Jabuti, o Prêmio Literário Casa de las Américas, o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, o Prêmio Direitos Humanos e o Prêmio Botequim Cultural.

Ainda sobre as surpresas durante o levantamento das informações, Mário revelou: “Cresci com a convicção de que Jango estava cercado, que não tinha apoio do povo e sua queda era iminente. Na apuração do livro, tive acesso a pesquisas de Ibope da época, jamais circuladas, e descobri que Jango tinha imenso apoio popular. A maioria da população apoiava o presidente”.

“Um dos dez brasileiros de maior projeção no século XX”

Mário falou também sobre o prestígio do biografado. “Os brasileiros não têm noção, mas Marighella foi um dos dez brasileiros de maior projeção no século XX. Não por acaso dei ao livro o título: Marighella, O guerrilheiro que incendiou o mundo. Ele foi apoiado por personalidades como Jean-Paul Sartre, Joan Miró (que lhe deu desenhos para conseguir dinheiro), Jean-Luc Godard (que lhe deu recursos do seu filme Vento do Oriente), Luchino Visconti e muitos outros. Não só a CIA como até a KGB monitoravam Marighella. Até hoje ele é estudado pelos serviços secretos dos EUA e de Pequim”, revelou. Segundo Mário, Marighella defendia o terrorismo como forma de luta na guerrilha: “Ele não se intitulava militante, mas terrorista. Mas, é importante que fique claro que, para ele, ser terrorista não significava de qualquer forma causar danos a terceiros, a civis ou a pessoas que não estivessem diretamente envolvidas na luta”.

Outro tema do encontro foi a censura, da ditadura militar à legislação das biografias em vigor. Tendler lembrou: “Quando lancei o filme Jango, em 1984, em plena ditadura militar, ele seria exibido no Festival de Gramado, mas antes tinha que se aprovado pela censura. Já na metade do filme, os censores disseram que o documentário não ia passar. Como o Brasil é um país inusitado, a censora acabou pegando carona com uma das pessoas da produção e deu a dica: ‘Bota a boca no trombone se não vocês nunca vão ver esse filme liberado’. Assim fizemos. Chamamos a imprensa e espalhamos a notícia. O documentário não só foi liberado, como ganhou classificação etária livre. Hoje, o filme está classificado como 12 anos, o que o impede de ser exibido antes das 20h, na TV. Jango era para ser exibido na sessão da tarde e acaba indo para a madrugada, quando ninguém vê. São essas incongruências que a gente não entende. Não podemos conhecer a história de um ex-presidente, mas a superexposição do caso Nardoni (disse referindo-se à morte da menina de cinco anos de idade, em São Paulo, em 2008), por exemplo, com as cenas de reconstituição do crime, com a criança sendo jogada pela janela, isso pode!”

Biografias não autorizadas

Silvio Tendler e Mário Magalhães falaram também sobre a importância das biografias não autorizadas para o conhecimento da História e o prejuízo causado à memória nacional pela legislação restritiva em vigor. “Em 1984, foi lançado um perfil biográfico do Cabo Ancelmo (agente infiltrado das forças de repressão do Governo, que ajudou os militares a capturar guerrilheiros e opositores da esquerda armada). Na época, em plena ditadura militar, o autor pode lançá-lo sem problemas. Hoje, em plena democracia, se a família considera que o livro afeta a imagem do biografado, pode tirá-lo de circulação”, disse Mário.

Diretor de diversos filmes sobre personagens da história nacional, Tendler falou sobre a relação com as famílias dos biografados. Citando o documentário Os Anos JK – Uma trajetória política (1980), sobre Juscelino Kubitschek (1902-1976), disse: “Quando fiz o filme, não pedi autorização a ninguém. Falei com D. Sarah, que disse que eu era muito corajoso, pois o nome de JK era maldito na época. E foi só. A partir daí, me deu todo o apoio”, falou, explicando como o processo foi dificultado com a nova legislação em vigor.

Tendler citou, então, o documentário que lançou no ano passado sobre a viagem de Guimarães Rosa (1908-1967) pelos sertões de Minas Gerais, com um grupo de vaqueiros, em 1952. Dessa jornada do escritor, nasceram os livros Grande Sertão, Veredas e Corpo de Baile. Na época, a excursão de Rosa foi documentada pela revista O Cruzeiro. Silvio contou que, desde o início do documentário, manteve contato com a família do biografado, que, ao longo do tempo, foi criando mil e um obstáculos: “Eu não podia usar o rosto dele, suas falas, sua voz e nem seu nome. Usei, então, as fotos dos vaqueiros na revista e gravei as falas com Zezé Mota e Milton Nascimento. A família me enrolou durante anos até dizer não. Resultado: Guimarães Rosa não aparece no filme sobre ele. Nas fotos, sua imagem está raspada e virou um fantasma. O nome do documentário virou Sujeito Oculto – Na Rota do Grande Sertão. Sobre o que Tendler chama de processo de Alzheimer da história de Guimarães Rosa, disse: “Para fazer o documentário, segui os passos de Rosa. Onde havia veredas, hoje tem plantação de eucalipto. Os rios estão secos. Não existe mais sertão. Está tudo se perdendo e a família de Rosa ainda insiste em apagar a sua história”.

Saiba mais

Mário Magalhães nasceu no Rio em 1964. Formou-se em jornalismo na UFRJ. Trabalhou nos jornais “Folha de S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “O Globo” e “Tribuna da Imprensa”. Recebeu mais de 20 prêmios. É autor da biografia “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”.

Silvio Tendler carioca, nascido em 1950, já realizou mais de 30 filmes entre curtas, médias e longas-metragens. Seus documentários sobre a história do Brasil conquistaram inúmeras premiações e fizeram dele uma referência nacional no gênero. Até hoje, três dos seus filmes lideram os primeiros lugares de bilheteria de documentário do Brasil: “O Mundo Mágico dos Trapalhões”, “Jango” e “os Anos JK”.

Inaugurado em 2009, o Midrash Centro Cultural foi idealizado e concebido pelo rabino Nilton Bonder e hoje é referência na cidade do Rio de Janeiro como um espaço de cultura, debates e reflexão. O Midrash é uma instituição sem fins lucrativos e tem como objetivo o diálogo da cultura judaica com demais tradições sob a ótica da pluralidade e tolerância. Midrash em hebraico significa extrair sentido.

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