6 perguntas para você conhecer mais a Rede de Música Independente de Natal

As seis perguntas abaixo foram direcionadas aos membros da Rede de Música Independente de Natal (Remuin) por email. Portanto, sem possibilidade de réplicas ou tréplicas. Nem este blogueiro desejaria. Embora discorde de algumas passagens das respostas, a intenção foi dar voz ao coletivo para que respondessem algumas inquietações minhas e de alguns críticos. E para ser hiper conciso numa opinião, acredito na eficácia do Natal em Natal, que deveria ser gerido pela Secretaria de Turismo (com alguma curadoria da Funcarte) por ter mais apelo turístico do que cultural. Na entrevista a seguir sobram críticas à Secretaria de Cultura. Isso mesmo após a seleção de 13 artistas potiguares para um festival e à organização da Chamada Pública para o Festival promovido pela Remuin com recursos da vereadora Amanda Gurgel. Elogios só aos estagiários “prestativos” da Secult. Na entrevista se vê ainda os próximos projetos de uma Rede que, finalmente, parece ter migrado do moído inoperante de tantos fóruns, debates e reuniões para a ação concreta. E vem mais por aí. Confiram:

Temos já formada a Cooperativa da Música Potiguar (Compor) e a Rede Potiguar de Música. Por que decidiram formar a Rede de Música Independente de Natal?
A REMUIN foi criada de maneira espontânea e não programática. O que disparou o processo de fato foi a divulgação da programação do Natal em Natal. Isso fez com que algumas bandas conversassem a respeito disso e logo estávamos nos encontrando semanalmente para criar projetos de atuação da Rede. Muitas pessoas que fazem parte da rede já sentiam essa necessidade de unir forças, mas tudo ficava em conversas soltas, até que um dia tiramos tempo pra se encontrar e as ações começaram. Temos o maior respeito pela Cooperativa e pela Rede Potiguar, mas a maioria das bandas da REMUIN sequer conhecia essas organizações, logo não se sentiam representadas por elas e mesmo as bandas que as conheciam estavam interessados em somar com a Rede. Mas o importante é que todas essas organizações devem manter diálogo entre si.

Reclamou-se muito da Funcarte pela falta de palco ao músico potiguar. No entanto, mesmo antes do Festival Natal Tem Música, outros 13 foram selecionados para outro Festival. Então o fundamento da reclamação seria a pouca quantidade de artistas potiguares?
Não. Na verdade a REMUIN não estava reclamando, a gente se juntou para criar e propor coletivamente e isso passa por denunciar um descaso por parte da Prefeitura e afirma que em Natal tem muita música sendo feita e uma variedade de cenas atuando cotidianamente. Quando começaram os encontros da rede ainda não havia sido divulgada nenhuma chamada para bandas da cidade, nem mesmo essa que selecionaria 13 bandas, ou seja, o fundamento da denúncia era uma ausência total. Dias depois surgiu a chamada em questão juntamente com uma “chamada voluntária” (para quem quisesse tocar de graça) no palco Mirassol, o que consideramos um absurdo pelo fato de que foi ficando notório que os órgãos da Prefeitura planejam e gastam mal o dinheiro público destinado à produção cultural.

Onde a Funcarte contribuiu e onde falhou nessa promoção do músico potiguar nesse Natal em Natal?
A FUNCARTE é um órgão que falha muito. Seus estagiários, por outro lado, são muito prestativos. Vamos pensar um pouco: o próprio Natal em Natal é um evento muito estranho. Não acha não? Quantos por cento da verba destinada à cultura é utilizada para a realização destas atividades, entende? A questão não é ficar com os olhos voltados para a “promoção do músico potiguar no Natal em Natal”, pois aí perdermos de vista um problema mais profundo. É preciso se questionar sobre o que vem significando realizar este tipo de eventos (Carnaval, Festival Literário, Natal em Natal) para os gestores do dinheiro público nos últimos anos. É nessa hora que se abre um horizonte muito mais sombrio do que o fato de ter ou não ter banda local tocando. Vamos reformular esta pergunta: A quem interessa a FUNCARTE? Estamos diante de um problema que tem a ver com a própria identidade cultural que está dada e que o poder público reforça com esses grandes eventos. Nesse processo, artistas, gestores e público perdem. E aí cultura torna-se um engodo que não gera impacto e só reforça mitos.

A Fundação José Augusto, pelo menos uns 8 anos atrás, também promovia palco para músicos potiguares. Por que não direcionar também o foco para essa Fundação?
Porque ainda não tivemos tempo de dar esse direcionamento e também não pensamos em algum tipo de estratégia. Poucas semanas após a criação da rede já nos vimos envolvidos com o planejamento da estrutura física do Festival Natal Tem Música. Na verdade, os focos vão se direcionando de acordo com a conjuntura. Nesse primeiro momento foi a FUNCARTE. Além disso, é importante deixar claro que não temos foco apenas em ações institucionais, mas também atividades no esquema “faça você mesmo”.

Um lamento recorrente da classe artística local é a atenção e o investimento concedido aos artistas nacionais no Natal em Natal. Mas não seria essa uma oportunidade ao artista potiguar abrir um show para um público grandioso, além da troca de experiência e ainda o próprio deleite do público com todos esses shows?
Não temos como falar pela “classe artística” pois não somos um grupo representativo, somos uma rede de ação coletiva, o que é bem diferente. Agora, sobre a sua pergunta concordamos que há um lamento recorrente todo final de ano e em geral nunca passou disso: um choramingo aos pés da Prefeitura. As bandas da Rede tocam nos mais variados espaços e não haveria problema nenhum em abrir um show para os artistas de fama nacional que são contratados, mas quando você fala em “deleite”, em “público grandioso”, em “troca de experiência”, isso é tudo uma espécie de fetiche, uma idealização do que significaria fazer arte e fazer cultura. Além do mais, já está em tempo de nos questionarmos sobre essa categoria de “artista potiguar” ou “artista da terra” porque isso acaba fazendo com que se projete uma espécie de identidade coletiva que não existe. O que existe são artistas que atuam na cidade sob os mais diferentes vieses e alternativas e aí cabe aos órgãos de cultura estarem atentos a essa atuação autônoma no sentido de contribuir para o seu desenvolvimento e expansão. Lembra do Vandré quando ele disse que a vida não resumia em festivais? Pois é, fomentar cultura é muito mais que organizar eventos natalinos. Demanda planejamento, capacitação, dentre outras coisas. Talvez assim não precisaríamos do Leonardo para trocar experiências com um público maior.

Talvez esse Festival de música tenha sido o motivo da formação da Remuin e, até agora, a principal conquista – aliás, coisa que as outras duas entidades mencionadas no início não conseguiram. O que vem depois?
O motivo de formação da REMUIN não foi o Festival. Foi a formação da rede que possibilitou que houvesse interesse em fazer um festival desse tipo, não o contrário, que fique claro. E foi uma conquista importante sim e aí entra o papel da vereadora Amanda Gurgel, que ao saber da nossa articulação, moveu-se através de emenda parlamentar para fomentar um evento para as bandas da cidade. Foram mais de 60 inscritos e 20 selecionados na chamada pública da FUNCARTE. Isso diz muito sobre a diversidade das cenas culturais da cidade. Temos a “Noites Remuin” evento que está acontecendo todas as quartas-feiras no Whiskritório com duas bandas da rede por semana até o fim de janeiro. Estamos montando uma programação com oficinas de produção cultural e musical abertas ao público para quem tem interesse em estudar e se aperfeiçoar no que pratica e também estamos elaborando projetos que ainda são só projetos. Após o Festival, que acontece entre os dias 17 e 20, iremos nos reunir e estruturar futuras ações.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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