Utopias da ordem

Por Jorge Coli
FOLHA DE SÃO PAULO

Mondrian e Busby Berkeley: a associação não é comum. Mondrian pertence à cultura elevada, à sofisticação espiritual da abstração geométrica. Busby Berkeley foi um cineasta popular: dedicou-se à coreografia de comédias musicais que Hollywood produzia nos anos de 1930. O primeiro se dirigia a um público requintado e culto. O segundo criava um divertimento para multidões.

Há uma exposição dedicada a Mondrian e o movimento De Stijl circulando neste ano pelos centros culturais do Banco do Brasil. É clara e bem-feita. Faltou-lhe apenas um catálogo, que seria um instrumento de estudo em português.

Nela, um vídeo mostra trechos de balés dirigidos por Busby Berkeley. As “girls” parecem sair, todas, do mesmo molde. Organizam-se em formas geométricas que vão se transformando, como num caleidoscópio. A invenção não para.

Os dois geômetras, um do cinema, outro da pintura, são contemporâneos. A correspondência entre eles não surge só de afinidades singulares. Respiram a mesma atmosfera que então predominava. É que houve um projeto disciplinar na modernidade do século 20, imperativo e impositivo, pensado como reforma do mundo. Criou um terreno comum em que moderno, ordem e autoridade fusionaram.

A modernidade foi autoritária. Nela, os diversos sentidos desses autoritarismos se chocavam, inconciliáveis muitas vezes. Mas todos dependiam do princípio de ordem e da disciplina.

Muito próximo das “girls” militarmente geométricas de Busby Berkeley são os filmes de Leni Riefenstahl celebrando o partido nazista. Os desfiles tornam-se, graças à diretora, estritos e metamórficos como aquelas comédias musicais.

A suástica foi fixada pelos nazistas em proporções rigorosas. A bandeira do Terceiro Reich era assim: uma negra cruz gamada sobre um disco branco, perfeitamente circular, disposto sobre um retângulo vermelho. Abstração geométrica.

De maneira indigna e violenta, os nazistas condenaram as vanguardas artísticas como arte degenerada. Mas as vanguardas artísticas eliminavam, por princípio, as produções que consideravam passadistas. Rigorosamente, ambos os lados procediam por exclusão. Mondrian fugiu para os Estados Unidos por causa da dominação nazista na Europa. Mas Mondrian rompe com Van Doesburg e o grupo De Stijl porque este último declara a supremacia da linha diagonal sobre o ângulo reto.

O mote dos modernos foi o da liberdade criadora. Com uma condição: a obra deve ficar dentro da modernidade. Fora dela, não há salvação. Ela é, assim, tirânica: seja moderno para ser livre, e não: seja livre para ser moderno.

Ordem pressupõe depuração e desbaste. O singular, o individual, aquilo que está fora da linha deve ser eliminado. A figuração, com o que propõe de variedade, é incômoda. Quem percorrer a exposição de Mondrian verá como, antes de se decidir pela pura geometria, ele buscou impor um modo geométrico às suas paisagens. Fica sendo mais próprio eliminar a figuração.

O nazismo foi também um projeto moderno. Horrendamente moderno, ao contrário da sublime pintura de Mondrian. Na ordem totalitária nazista, cada um deve ser igual ao outro, pensar como o outro. A eugenia se encarrega da formosura humana: só os mais belos, mais inteligentes devem existir. Elimina-se o resto. A ideia, sempre simplificadora, deve recobrir o concreto.

O grupo De Stijl imaginava um mundo feliz, em que tudo obedeceria ao princípio dos planos geométricos: a arte, a decoração, os objetos, os móveis (importando pouco o conforto de quem se senta naquelas cadeiras angulosas), a publicidade, os edifícios. Criou uma festa para os olhos. Restaurados recentemente, o “cine-bal” e a sala de festas da Aubette de Estrasburgo, de Van Doesburg, revelam uma alegria de cores e de formas elementares. Nada mais distante, como espírito, do sinistro peso nazista. No entanto, a felicidade neoplástica procedia também pela ordem.

As telas de Mondrian resistem à reprodução. Sob o brilho acetinado do papel de luxo, em revistas ou livros de arte, as superfícies se banalizam, perdendo a luminosidade única. É preciso ver os originais. Diante deles somos conduzidos a um mundo superior, de pura contemplação: é, de fato, uma experiência espiritual.

Mas contêm ainda outra coisa. Percebemos de perto as leves rebarbas deixadas pelas tintas nos limites retilíneos. Vemos que o tempo se encarregou de incluir, aqui e ali, leves rachaduras. É o concreto que se vinga do abstrato.

Nada como o tempo e a matéria para denunciarem as utopias ideais e ordeiras.
JORGE COLI é professor titular de história da arte na Unicamp e autor de “O Corpo da Liberdade” (Cosac Naify).

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Nota: A mostra “Mondrian e o Movimento De Stijl” fica em cartaz no CCBB-SP até esta segunda-feira (4). Passará ainda por Brasília, Belo Horizonte e Rio.

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