Janaína é uma bola

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

Fazia tempo que eu não ria tanto como na semana passada, quando assisti ao vídeo do discurso de Janaína Paschoal, a musa do impeachment, na Faculdade de Direito da USP. O vídeo circulou pela internet em mais de uma versão. Preferi a original, nua e crua, à versão cover do Iron Maiden, na qual Janaína também se sai muito bem. Soube que algumas feministas ficaram indignadas com o escárnio público, como se as piadas provocadas pelo vídeo (parece que também houve agressões infelizes e sem humor, o que costuma ser regra na internet e é sempre lamentável) fossem dirigidas às mulheres em geral e não a Janaína em particular. Ao contrário dessas feministas, fiquei feliz de não ter nada a ver com ela. Na verdade, fiquei eufórico. O riso (provocado pela performance e não pelas piadas) se misturou com a felicidade de enfim ter certeza, depois de tantos motivos para dúvida nas últimas semanas, de que estou no campo certo.

A performance de Janaína é consequência de uma sociedade midiática, de exposição absoluta, que desnorteia os indivíduos entre BBBs, Facebook e o mundo das celebridades. Ninguém vê, por exemplo, obscenidade alguma em a mulher de um juiz em princípio sério e idôneo, que faz um trabalho importante contra a corrupção no país, abrir uma página no Facebook com o título “Moro com ele” (trocadilho com o nome do marido), para agradecer o apoio e as centenas de milhares de mensagens de carinho da população. Se ninguém vê, não sou eu que vou explicar.

Janaína, coautora do pedido de impeachment da presidente, atualmente em votação no Congresso, levantou e girou a bandeira brasileira, gritou e pulou no palanque, agitando os cabelos de um lado para o outro (em uma clássica manifestação de headbanging) à maneira do líder de uma banda heavy metal diante da plateia de fãs. Alguns internautas compararam sua atuação com a da pequena Linda Blair, em “O Exorcista” (Janaína não gira o pescoço). Outros, a uma pastorinha que eu não conheço. Em todo caso, a despeito de a principal protagonista garantir que não tem nada a ver nem com uma coisa nem com a outra – e sua família declarar que, por causa de seu posicionamento político, ela tem medo de seus filhos serem agredidos na rua –, fiquei com medo de Janaína. Menos pela violência de sua performance do que por seu aspecto claramente messiânico.

Para começar, achei estranho que o símbolo universal da justiça (a balança) estivesse combinado com a cruz cristã na pequena escultura metálica incrustada no mármore que servia de cenário de fundo para a performance (não conheço a faculdade de Direito da USP). É claro que Janaína não tem nada a ver com isso. Não foi ela quem enfiou a cruz no símbolo universal da justiça. Também acho estranho que, em um Estado laico, a cruz cristã esteja presente em tribunais de justiça e nos plenários da câmara e do senado.

O que me deixou com medo no discurso de Janaína foi sua menção a Deus contra a corrupção. Janaína diz no vídeo que seu pai lhe explicou, quando ela era pequena, que Deus não dá asas às cobras. Bem, pode ser que Deus não dê asas às cobras, mas a natureza as dá (ou já as deu), a julgar pelas evidências científicas de que, antes de os homens darem o ar de sua graça neste planeta, alguns répteis voavam pela Terra. A concepção que Janaína tem de cobras com asas é medieval (ou quixotesca, em sua extemporaneidade) e remete à imagem de São Jorge e do dragão (nem é preciso esclarecer com qual dos dois quem não quer pagar nem pato nem imposto se identifica, erroneamente). No vídeo, Janaína diz que algumas cobras criam asas a despeito da vontade de Deus (ou seja, criam asas por obra da natureza) e que nessa hora só resta a Deus enviar sua legião para cortar as asas da cobra.

É assustador. Não vamos acusar Janaína de hipocrisia ou de má-fé, porque a veemência do seu discurso aloprado lhe garante a veracidade dos místicos e dos pastores. Agradecemos que nos tenha proporcionado bons momentos de diversão, mas é preciso esclarecer alguns pontos antes que seja tarde. Não é Deus quem combate a corrupção. Se fosse assim, a corrupção simplesmente inexistiria e as igrejas seriam espaços imaculados, de lisura e retidão. Não são. A corrupção é obra dos homens e deve ser combatida pelos homens, em nome da justiça entre os homens. É temeroso quando juristas deixam de entender isso. É quando, fascinados pelo clamor das ruas, confundem os princípios de justiça e igualdade com o direito divino, do qual se arvoram em porta-vozes, salvadores da pátria que, por estarem à frente de legiões de fiéis, falando em nome de Deus, jamais estarão sujeitos à corrupção do diabo ou de cobras que ganham asas. Conhecemos a história. Desta vez, é só piada, né?

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