8 de março

Faíscas de sol escorriam por rachaduras na mata fechada e Anaíde corria, sem parar, havia horas. Não sentia mais seu corpo, não sentia suas pernas inchadas rasgadas por espinhos, pedras e galhos, não sentia sua pele cortada, seus braços dormentes, o suor misturando-se ao sangue em seu rosto sulcado de escaras. Sentia apenas sua respiração entrecortada e corria, com Adelina nos braços, sem saber para onde.

O abraço do sol engolia o ônibus parado, afogando em calor corpos suados e espremidos. Araci, de saia preta abaixo do joelho, blusa escura recatada de manga comprida, o cabelo alisado à força, violentado pela escova para esconder sua origem pagã e preso num coque, subiu os degraus devagar, esforçando o frágil corpo rebentado. Empurrada pela correnteza, esgueirou sua silhueta entre as festas que se abriam no paredão humano até encontrar um canto onde se segurar. Óculos escuros escondiam um olho inchado, ainda dolorido, e o outro salpicado de vermelho pela insônia.

Jacira estava em pé, segurando-se num corrimão, ao lado dela. A diferença de Araci, não disfarçava sua negritude que brincava nas curvas encaracoladas de seu cabelo.

Mariana subiu na parada seguinte, os olhos esverdeados reverberando um desalento que lhe escorria pelas entranhas, mergulhada numa aflição que a isolava do calor, do suor, do aperto e de tudo o que a rodeava. Uma aflição calma, mas persistente. Um rapaz passou atrás dela devagar, aproveitando o espaço apertado para demorar-se e se esfregar de leve em seus glúteos. Perdida em sua ansiedade, Mariana nem percebeu que o moço estava de pau duro.

Uma senhora sentada na janela ao lado de Lorena, poucos centímetros à frente de Mariana, se levantou para descer e o rapaz, de reflexos impecáveis, pediu licença e ocupou o lugar. Vestia bermuda e ao passar roçou suas pernas peludas nas coxas de Lorena, que estava de shortinho, mantendo viva sua ereção. Pouco depois de se sentar, foi sacudido pela raiva. Sentiu nojo, se arrependeu de ter sentado ali, mas não havia mais o que fazer: o ônibus estava lotado e ele tinha sido um burro. Estivesse na rua, sem tanta gente ao redor, daria uma puta lição naquela bicha, lhe ensinaria a deixar de safadeza na peia. Ainda por cima ninguém diria que não é mulher, não fosse pelo gogó que percebeu depois de se sentar e mapeá-la de soslaio dos pés à cabeça. O pior é que era linda, a pele cabocla de um bronze delicado, excitante. Porca nojenta, dava até vontade de comê-la! Aliás, se estivesse na rua só com ela seria o que faria: a foderia e depois a arrebentaria, para deixar de ser safada. Alguém, por sinal, já devia ter lhe dado uma boa surra, pois seu corpo estava cravado de hematomas.

Lucy, que tinha subido na mesma parada de Mariana, encontrou lugar em pé bem ao lado da cadeira de Lorena, perto de Araci. Estava radiante, tinha recebido flores de sua namorada e o dia resplandecia em seus olhos.

Lucy tinha sido tudo o que quis ser, mas quase sempre no momento errado. Quis ser mãe e quis ser puta, quis ficar com homens e com mulheres, quis brincar e ser séria, quis monogamia e amores múltiplos sem amarras, quis ser casta e ser devassa, quis ser dona de casa e ser artista. Mas quando quis ser mãe, a chamaram de puta. Quando quis ser puta, a forçaram a ser casta. Quando quis ser artista, a obrigaram a ser dona de casa. Quando quis viver amores sem correntes, lhe cobraram monogamia. Quando quis ser monógama, a acusaram de ter se vendido. Tinha sido enjaulada em ciúmes e incompreensões, ferida na pele e nas vísceras, havia superado hematomas e insultos, paus enfiados à força e mordaças que não conseguiram calá-la. Agora era feliz, mesmo afastada de sua família, e sorvia com avidez essa inusitada felicidade.

Lorena ia para a faculdade, estava voltando às aulas depois de um par de dias de convalescência. Frequentava pela manhã porque, desde que tinha sido expulsa de casa, trabalhava nas ruas à noite. Não era raro que apanhasse. Sabia que muitos homens procuram travestis para vomitar nelas pulsões recalcadas, que esse recalque os torna violentos e tinha se acostumado a isso. Mas a surra de três dias antes tinha sido mais feroz que de costume. Logo após entrar no carro tinha percebido quem era o cliente, que parecia – ou fingia – não tê-la reconhecido. Mas enquanto a penetrava de quatro, depois dela fingir gemer, o homem a tinha agarrado pelos cabelos, saído dela e a espancado com brutalidade, sem medir a força dos socos e dos pontapés, arrastrado por um devaneio de aniquilação. Suja e devassada, a pele rasgada, ensanguentada e salpicada de hematomas, havia sido arremessada com violência do carro e, antes de arrancar, o homem tinha cuspido nela entre xingamentos, deixando-a semi-inconsciente no asfalto. Era seu tio, o mesmo que quando criança, quando ainda era Lourenço, entrava com frequência em seu quarto fingindo querer brincar, o mesmo que tinha apoiado sem restrição o irmão quando este quis joga-la na rua após descobrir que não era homem. Vestida de mulher não a reconhecia, mas tinha reconhecido logo seu gemido de falso gozo. Tinha sido hospitalizada, o médico queria que passasse mais dias em casa para descansar, mas tinha preferido retornar à faculdade para não perder mais dias de aula.

Mariana estava voltando ao trabalho depois de uns dias de licença. Uma angústia a dilacerava, tinha brigado feio com a mãe. Ela lhe havia oferecido todo apoio, tinha se disposto a ficar com a criança e a cria-la, e ainda assim a filha quis… não conseguia sequer pronunciar aquela palavra… e pior, sem avisar, chegando para ela com o fato consumado. A mãe de Mariana não sabia o quanto aquela decisão a tivesse destruído. Não importava que teria revivido em cada gesto daquela criança o… aquela palavra também era impronunciável! Enquanto o ônibus deslizava pela avenida naquela tórrida manhã, a dor que estraçalhava as vísceras de Mariana era mais intensa que a que pensava que iria sentir ao entrar na sala de cirurgia.

Jacira ia para a casa da patroa para mais um dia de serviço. Apesar de a ridicularizarem diante dos outros apresentando-a como uma negra boa e engaçada, mas burra para caralho a pobre, gostava daquela família, se sentia parte dela. Naquele dia, Jacira estava angustiada com a ausência de notícias de seu filho mais velho, de dezesseis anos, que não aparecia em casa havia dois dias. Nunca tinha tido tempo para se dedicar ao filho como gostaria, mas fazia semanas quer sequer conseguia falar com ele e uma dor lhe embrulhava o estômago ao pensar no que podia ter lhe acontecido. A tranquilizava um pouco saber que a filha mais nova, de nove anos, estava na escola, onde a acompanhava todo dia Raimundo, seu atual companheiro. Uma pessoa doce, tranquila, diferentes dos vagabundos com quem tinha convivido durante anos. Só não sabia, Jacira, porque acordava todo dia muito cedo, antes da filha, que Raimundo despertava sempre a menina com carícias debaixo das roupas e que, antes de leva-la para a escola, costumava brincar com ela enfiando-lhe um dedo na vagina. Não sabia, embora quando criança seu padrasto tivesse feito o mesmo com ela.

Araci ia para o culto matinal. Nas últimas semanas, não passara um único dia sem ser arrebentada ou possuída à força pelo marido. Não conseguia encontrar motivos para que apanhasse, nem para que fosse estuprada. Era diversão, necessidade, rotina. Quando, depois de vários dias seguidos de agressões, não conseguindo mais esconder os arranhões e os hematomas, tinha falado daquilo com o pastor, a primeira pergunta tinha sido o que ela havia feito para ser castigada, se tinha sido uma má esposa Mas ela sempre havia sido uma mulher reta, uma esposa impecável, submissa, dedicada a seu homem. Não, não havia motivo, ele devia estar possuído, era a única explicação possível e o pastor concordava, mas precisava ficar calada, aguentar em silêncio e orar com todas suas forças para que o Cão saísse do corpo do marido, nada de contar para quem quer que fosse. Ela era uma mulher boa e com suas orações haveria de vencer essa luta contra o mal, contra o demônio que estava pondo à prova sua fé usando como instrumento seu companheiro de lar e de cama.

Os corpos de Lucy e Araci, em pé uma ao lado da outra, iam ficando cada vez mais grudados à medida que o ônibus detinha sua marcha para engolir mais pessoas. A pele de Araci foi atravessada por um calafrio inexplicável e de repente, assustada, percebeu que seus mamilos tinham ficado túrgidos. Sufocados pelo sutiã, pareciam querer explodir. Sem entender, deu uma rápida espiada na moça ao seu lado e aquela visão a inquietou. Baixou o olhar e rezou uma oração em silêncio. Estava excitada, teria invadido sem receios a boca delicada, de traços suaves, daquela moça desconhecida de cabelo verde salpicado de gritantes mechas roxas. Satanás, não havia dúvidas, a estava pondo à prova mais uma vez.

De repente, o ônibus parou em um cruzamento e um concerto de buzinas e gritos permeou a ar. Policiais interditavam o transito para deixar passar uma manifestação na avenida perpendicular. Uma profusão de vozes, faixas, cantos, slogans, rostos pintados e corpos multicoloridos desfilava diante do ônibus. Um calor insensato, uma umidade rascante e os poucos metros quadrados em que dezenas de corpos estavam apinhados tornavam a permanência no ônibus insuportável. Muitos passageiros desceram para aguardar a marcha passar do lado de fora; outros, curiosos, foram olhar do que se tratava. Uma torrente feminina transbordava na vizinha avenida. Melodias compassadas entremeavam slogans aguerridos, carregados de indignação e raiva.

Jacira perguntou a outra passageira o que estava acontecendo. Ela não soube responder, mas lembrou que era 8 de março e, como tinha quase só mulheres na manifestação, pensou que se tratasse de algum ato ligado àquela data.

Lucy se entusiasmou, desceu do ônibus exultante e decidiu mergulhar na correnteza. Tirou a blusa e o sutiã, pediu a uma manifestante que escrevesse um slogan em seu peito com o batom que tinha na bolsa e se jogou alegre na multidão. Volúpia, sensualidade, Araci só conseguia enxergar aquilo tudo com excitação… o rio das manifestantes, a desinibição daquela moça desconhecida do ônibus, aqueles cantos embriagantes. Era tudo obra de Satanás, ela sabia, mas Satanás lhe parecia tão atraente naquele momento.

Lorena observava com cautela, se deixava inundar pelos slogans que ecoavam da avenida adjacente, que a arrebatavam, e um impulso a empurrava para aquela correnteza em cheia. Mas tinha medo, um medo entranhado em suas veias que lhe secava a garganta e lhe subia pelos ossos, imobilizando-a. Uma caminhonete do Bope acompanhava a marcha à distância e alguém, em pé na caçamba com uma câmera, apontava seu objetivo para algumas manifestantes. Uma gota fria percorreu suas costas. Aquelas mulheres serão vigiadas, perseguidas? Ninguém poderia prever as consequências de se envolver naquilo. Decidiu, apenas, observar. Acendeu um cigarro, encostou numa parede e contemplou, extasiada, aquela multidão esbanjando gozo e ira.

Jacira ligou para a patroa, que atendeu o celular em plena depilação. Hoje se sentia de bom humor e dispensou Jacira do serviço, apesar de achar inconcebível que uma manifestação pudesse parar o transito em horário de pico sem mais nem menos e a polícia, ao invés de baixar o cassetete nas manifestantes, as ajudasse a atrapalhar a vida dos motoristas. Mas, claro, com uma comunista ex-terrorista no poder o que era de se esperar? De qualquer forma, hoje era melhor se Jacira não fosse: era dia da mulher e sabia que o esposo voltaria para casa na hora do almoço, com flores para ela, e a levaria para um restaurante bacana. Depois, com ninguém em casa porque os filhos estariam na escola e Jacira tinha sido dispensada, o convenceria a fazer algo melhor do que voltar ao trabalho. Enquanto suportava com estoicismo a dor da depilação do púbis, lia no tablet a notícia da rejeição que a Globeleza daquele ano tinha recebido pela audiência. Não é de se estranhar, pensou. Apesar de ter um corpo bonito era preta demais, feia que nem Jacira, coitada. Tudo bem que para sambar nua na tevê tinha que ser uma mulata, mas negona mesmo, daquele jeito, era demais. A demora a enervava, queria que aquele suplício terminasse logo, ia ficar bem lisinha e macia como ele gostava, hoje haveriam de se divertir, o sacrifício para agradar seu homem valeria a pena. Enquanto suportava que arrancassem seus pêlos, não sabia que seu marido estava comendo uma colega de trabalho numa salinha contígua ao seu escritório, de quatro, como corresponde a uma rapidinha no serviço.

Jacira ficou aliviada com a decisão da patroa e pensou que se fosse até a rua paralela talvez tivesse a sorte de encontrar um ônibus na direção contrária e conseguiria voltar para a casa antes da filha sair para a escola. Estava feliz, pelo menos naquele dia teria um pouco de tempo para ela, para a filha, para o companheiro e para sair em busca de notícias de seu menino. A patroa era gente fina. Enquanto se dirigia à outra rua à procura de um ônibus para voltar para casa, sua menina ia sendo acordada por Raimundo como todos os dias. Desta vez, quem sabe Jacira chegasse antes dele leva-la para a escola.

Cintilando em letras vibrantes, palavras tatuadas em faixas, cartazes, costas, colos rasgavam o intestino de Mariana. Não conseguia esquecer o nojo, a dor e a vontade de se matar depois daquilo que tinha sofrido, mas também não conseguia esquecer o abalo que a tinha sacudido ao tomar aquela decisão e, sobretudo, não conseguia esquecer o olhar severo e triste, carregado de angústia e reprovação da mãe. Uma mão invisível lhe apertava a garganta, ia sufocando-a aos poucos. Quis respirar. Suas pernas a levaram sozinhas, porque seu querer estava paralisado. Apenas, entrou na correnteza e se deixou carregar. Sua boca cortou o silêncio denso de seu estômago e começou a gritar, quase de maneira autônoma, os slogans que escutava. Não sabia o que viria depois, não sabia mais nada. Só caminhava.

Araci não tinha resistido às investidas de Satanás. Numa ruela transversal, escondida por trás de uma caçamba, havia deslizado com avidez sua mão por debaixo da saia e a calcinha, que transbordava tesão e umidade. Fechou os olhos e as imagens daquela moça de cabelo verde e roxo de peito nu, pequeno e rijo, branquelo mas com os mamilos um pouco bronzeados, e daquela multidão sinuosa desfilaram pela sua pele e a arrastraram numa enxurrada selvagem. Gozou, um gozo vivo, autêntico, como havia muito tempo não sentia, gemeu e nem cuidou de abafar seu gemido, afinal com o estrondo da marcha ninguém iria ouvi-la.

Recomposta, voltou para perto do ônibus e se deteve contemplando a manifestação. Se sentia leve, feliz, embevecida de pecado. Lembrou do facão com que cortava verduras, aquele com que uma vez o marido havia brincado retalhando suas costas, ainda guardava as cicatrizes. Chegando em casa o esconderia na saia. Se o marido voltasse a encostar um dedo nela, desembainharia o facão e deixaria Jesus guiar sua mão. A justiça dos homens talvez a condenasse, mas tinha certeza de que Jesus não o faria, ele era misericordioso.

Anaíde corria para não ser fenda negra, abismo de carne em que despejar gozo de branco, corria para não ser vaca de parir, para não ser lasca de pele escura para machos brancos se esfregarem, corria para não ser penetrada de quatro e torturada por ciúme por outra escrava só que branca e bem vestida, corria para não ser diversão familiar enquanto era esfolada a chicotadas amarrada nua a um pedaço de pedra, corria por Adelina, para que as duas conhecessem outra vida. Apenas corria, sem saber para onde.

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