A hora e a vez de Lívio Oliveira

“Dêem a cada um o que lhe é devido…
se honra, honra.”
Romanos 13:7

Em uma famosa passagem bíblica, Paulo de Tarso, um dos mais influentes escritores do cristianismo antigo, cujas obras compõem parte significativa do Novo Testamento, recomenda que devemos dar honra a quem merece honra. Retomo a frase do famoso apóstolo após a perda quase que irreparável do ex-ministro Francisco Fausto, falecido recentemente. Jurista e escritor, homem culto, poderia ter deixado obra literária bem maior, se quisesse. Mas, apenas um livro dele, “Viva Getúlio”, é melhor do que muita coisa que se tem publicado no Estado, na atualidade. Fausto era membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, e é justo pensar em alguém digno da cadeira deixada por ele.

Como pesquisador da cultura literária do Estado, se eu tivesse poder de voto, indicaria um nome à altura do ex-ministro; nome este, que, inclusive, é da área jurídica: Lívio Oliveira.

Escritor de valor, Lívio Oliveira dignifica a poesia potiguar na atualidade; só isso bastaria para projetá-lo em nosso universo literário. Todavia, Lívio representa bem a tradição poética potiguar. Entenda, caro leitor, como tradição, a continuação do sistema literário. Seguindo o ensinamento do mestre Antonio Cândido, expresso na obra Formação da Literatura Brasileira, entendemos que a literatura de um país só existe se ela estiver vinculada a um sistema literário, ou seja, que autores produzam e publiquem suas obras e sejam lidos por um público leitor, gerando tradição. Em outras palavras, que esteja dentro de um contexto cultural, promovendo um sistema articulado de produtores, obras e leitores, propiciando-se, assim, “condições mínimas de existência do fenômeno literário”, e como consequência, a tradição.

Feita esta breve digressão, voltemos a Lívio Oliveira. Nascido em Natal, Lívio exerce a profissão de Procurador Federal. Além de poeta, é escritor polivalente e militante cultural, atuou por muito tempo no jornal Diário de Natal e semanalmente escreve para Tribuna do Norte, discorrendo sobre aspectos da nossa cultura. Lívio Oliveira também tem posições ideológicas e políticas firmes, além de ser presença constante em praticamente todos os eventos literários da capital.

Seu primeiro livro, “O Colecionador de Horas” (2002), foi publicado praticamente no inicio do novo século e já evidenciava um poeta no pleno domínio do seu ofício. A obra não tem apenas titulo bonito, tem uma qualidade poética de fazer inveja a qualquer estreante. Com seu segundo livro, “Telha Crua” (2004), Lívio ganhou os dois principais concursos de poesia do Rio Grande do Norte: o “Othoniel Meneses” e o “Luís Carlos Guimarães”. Também recebeu menções honrosas no Prêmio Zila Mamede, de poesia, promovido pela Justiça Federal/RN.

Reconhecido como um dos nossos melhores poetas, Lívio Oliveira doou ao Estado outros trabalhos valiosos, como o ensaio “Bibliotecas Vivas do Rio Grande do Norte”, em 2005, e, ainda na seara poética, “Pena Mínima” (2007),de haicais, “Dança em Seda Nua” (2009), com ilustrações de Dorian Gray Caldas; “Teorema da Feira” (2012) e Resma (2014). Além do CD “Cineclube”, parceria com o músico Babal.

Também, foi membro da comissão julgadora do prêmio Othoniel Meneses em 2006 e Diretor da União Brasileira de Escritores, seccional do RN, inclusive o mais novo da instituição no Estado.

Firmado como escritor, continua cada vez mais se destacando como militante cultural e dedicando-se à poesia. Recentemente publicou mais um livro de haicais, “Cais Natalenses – 101 haicais” demonstrando estar em sintonia com o que vem acontecendo na poesia brasileira, na atualidade.

Por sinal, sua obra poética chegou à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, faz algum tempo. Em 2013 ele teve os poemas do livro “Dança em Seda Nua” estudados por alunos do curso de pós-graduação em Literatura do Rio Grande do Norte, e, mais recentemente, através do professor Dr. Derivaldo dos Santos, os seus haicais vão integrar o programa da disciplina Literatura Norte-rio-grandense do Curso de Letras da instituição.

Como não custa nada sonhar, quem sabe, depois da entrada de Lívio Oliveira na ANRL, não aconteça uma motivação geral para que outros expoentes da nossa literatura, como Humberto Hermenegildo de Araújo, Marize Castro, Tarcísio Gurgel e Clotilde Tavares, dentre outros, ingressem na instituição, que com certeza vai ser muito grata a essa geração e aos atuais acadêmicos no futuro.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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