A Fulô e o Plutão

O que dizer acerca do 1º e 2º lugar da 3º temporada do programa SuperStar da Rede Globo? Um embate entre dois estados nordestinos: Pernambuco e Rio Grande do Norte, respectivamente. O Pernambuco de Luiz Gonzaga, Chico Science, Lenine, Alceu Valença, etc …; o Rio Grande do Norte de Gilliard, Roberta Sá, Camila Masiso, Camarones Orquestra Guitarrística, Far from Alaska, dentre outros.

Fulô de Mandacaru, grupo da cidade de Caruaru, em Pernambuco — que tem o regionalismo desde o nome — dialoga com a tradição brasileira do forró, xote, baião e xaxado ao cantar músicas de Os três do Nordeste, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro e da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. “Plutão já foi planeta”, grupo da cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte, possui um estilo bem diverso do regionalismo nordestino e dialoga com aspectos mais globais do estilo Indie Pop ou Pop independente. A música produzida neste estilo é mais experimental e descompromissada com a mídia e o ganho de capital.

Percebe-se na música autoral da banda natalense as seguintes influências: na música “Daqui para lá”, a influência do multi-instrumentalista francês Yann Tiersen, de estilo minimalista/melancólico, que ficou famoso pela trilha sonora do filme “O fabuloso destino de Amélie Poulain” (Le fabuleux destin d’Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet); a influência de Vance Joy, cantor e compositor australiano de estilo Indie pop/folk, especificamente, no início das músicas “Riptide” e “Viagem perdida”. Além das influências nacionais como Rita Lee e Os mutantes, Paula Toller e o Kid de Abelha, Renato Russo e a Legião Urbana como expressou os jurados do SuperStar, Sandy e Paulo Ricardo. Também se nota a semelhança entre o tom de voz de Nathália Noronha e de Hayley Williams da banda norte-americana Paramore que ficou conhecida no Brasil pela música “Decode” presente na trilha sonora do primeiro filme da saga Crepúsculo.

Se nas apresentações de Plutão… apenas duas músicas não foram autorais, com Fulô… aconteceu o contrário, pois de todas as apresentações apenas duas foram autorais. Aí surge a questão: a proposta do SuperStar é lançar novas bandas ou covers? E mesmo quando fez música autoral, a Fulô… ainda se apoiou no seu mestre Luiz Gonzaga ao inclui-lo em suas letras.

Alguns fatores favoreceram a vitória da banda de Caruaru: a final do SuperStar foi num domingo, dois dias após a comemoração do São João e dois dias antes da comemoração do São Pedro. Além disso, o ritmo animado que predominou nas escolhas do grupo se contrapôs ao som mais experimental e tranquilo de Plutão… que chegou a trazer uma pequena orquestra. O ritmo rápido da Fulô… — que anima o público —escondeu as desafinações e a falta de postura dos demais integrantes no palco. Estes últimos, quando olhavam para o telão de votação, esqueciam que estavam se apresentando e vibravam antes da votação terminar. Pura falta de profissionalismo. Essa característica se contrapôs com a tranquilidade, simpatia e profissionalismo da vocal de Plutão… e demais integrantes que faziam sua apresentação sem se preocupar com as avaliações. Apenas tomavam conta do palco e demonstravam aproveitar um momento que era só deles, pois a maior preocupação era apresentar para o Brasil o som diferente que eles fazem e mostrar que a região Nordeste não é só forró.

Convenhamos, a terceira e última votação da final, Plutão… alcançou 48% dos votos e Fulô… como era a segunda a se apresentar tinha que bater essa meta. O curioso é que entre 1min51s e 2min8s Fulô… tinha apenas 40%, até que milagrosamente a partir de 2min9s a pontuação deles começou a aumentar até aos 2min58s, e assim eles batem Plutão… E para ser ainda mais milagroso entre 3min9s e 3min13s, ou seja, entre 4s, a banda de Caruaru passa de forma incrível de 53% para 70%. Dá para acreditar nesse resultado? Num século como o nosso, em que atletas recordistas mundiais são pegos no dopping, que pilotos de Fórmula 1, mesmo vencendo uma competição, devem deixar o seu companheiro de equipe passar na frente ao ouvir as ordens dos chefões…

Foram poucos os artistas que venceram um concurso musical e fizeram sucesso. O pior é que o povo escolhe e é o mesmo povo que retira a glória o artista, não só aqui no Brasil, mas em outros países também, como nos E.U.A. Nesse país, temos a rara exceção de Kelly Clarkson que venceu a primeira temporada do American Idol em 2002.

Quem hoje é Vanessa Jackson (vencedora da 1ª edição do FAMA/Rede Globo)? Quem é Marcus Vinícius (vencedor da 2ª edição)? Mas quando digo quem é Roberta Sá? Quem é Thiaguinho? Com certeza você irá se lembrar pelo sucesso que eles fazem hoje e não pela participação deles no programa FAMA.

Então, como diziam os romanos: tempus edax rerum (o tempo é roedor das coisas), só o tempo irá dizer quem realmente tem talento para se firmar na tradição musical brasileira.

Ama literatura, música, aliás, ama a arte. Adora escrever. É professora de Língua Portuguesa e Literaturas do IFRN. Doutoranda em Literatura Comparada pela UFRN. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Janaina Oliveira 23 de Agosto de 2016 9:03

    Você, sempre competente e de opinião, não poderia ser diferente ao contribuir para o site.
    Parabéns, Mayara, pelo artigo.

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