Newton

Assisti Meia Noite em Paris esse final de semana. A trama, dirigida por Woody Allen fala do bem sucedido roteirista de Hollywood, Gil, que está infeliz com esse sucesso efêmero e sonha ser conhecido como escritor. A película brinca entre passagens no presente e passado de uma Paris sempre deslumbrante. O que me chamou a atenção no filme foi a mesma coisa que povoava meus pensamentos enquanto trabalhava no ensaio biográfico “Navarro: Um anjo feito sereno”, sobre Newton Navarro (Caravela Selo Cultural e Edufrn, 2013 e 2014), que era trazer à tona um personagem conhecido por muitas pessoas, dar-lhe vida e conseguir construir um movimento no presente de algo que já passou e que eu não testemunhara.

Quando leio biografias – estou lendo atualmente trechos da biografia da psicanalista Melanie Klein (O Mundo e a obra de Melanie Klein, de Phyllis Grosskurth) e me pego observando o autor detalhar momentos e sentimentos do biografado, os quais ele não participara ativamente, sinto como se ele fosse um vidente ou um excelente mentiroso. Óbvio que isso não é uma acusação desrespeitosa a nenhum autor. Para se fazer uma biografia é preciso muita pesquisa, conhecimento da obra, conversas com parentes e amigos. A partir daí, a gente vai tecendo uma narrativa por vezes imaginada ou inventada.

No filme, Allen apresenta um Ernest Hemingway egocêntrico, uma Gertrude Stein generosa e objetiva, um Salvador Dalí meio gênio e meio doido, dentre outros personagens e seus estereótipos. No entanto, é como se ficássemos mais próximos deles. Quando alguém me pergunta sobre Newton, ou comenta algo sobre ele, eu sempre me apercebo que posso contar várias histórias a respeito dele. Por exemplo, havia uma dúvida e um vácuo com relação à existência de um suposto irmão de Newton. Amigos diziam que não havia irmão algum, já que ele nunca falava nisso.

Pois bem, o primo Jurandyr Navarro me foi de extrema importância. Foi ele quem confirmou a existência desse irmão. Geraldo Magela Navarro, oito anos mais moço, filho de dona Celina e seu Elpídio. A diferença de idade entre um e outro talvez explicasse a inegável distância entre os dois. Quando Newton foi para Recife, estudar arte e jamais pisar numa cadeira da faculdade de Direito, como era o sonho de seu pai, Geraldo era meninote, eles não tiveram muito convívio. Quando Newton voltou a se instalar em Natal, o irmão já se desgarrara da família e fora morar no Rio de Janeiro, porque sonhava ser marinheiro e onde acabou perdendo parte significativa de sua audição em mergulhos arriscados. Seu Geraldo e Newton voltaram a se encontrar ao longo de suas vidas. Tiveram a chance de se vincular com o passado. Mas isso não aconteceu. Não estavam escrevendo biografias ou filmes.

Jornalista formada pela UFRN desde 2000. Trabalhou em veículos como Diário de Natal, Mult TV!, Novo Jornal, Tribuna do Norte e em assessorias de comunicação e imprensa política durante muitos anos. Em 2013 lançou pelo Caravela Selo Cultural o ensaio biográfico, "Navarro - um anjo feito sereno", editado em 2014 pela Edufrn. Atualmente é jornalista free-lancer. Fanpage: bichoesquisito; insta @bicho_esquisito [ Ver todos os artigos ]

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